Porque é que precisamos de mais um media alternativo?

Durante décadas o neoliberalismo foi-nos imposto como se se tratasse de uma auto-evidência, como se fosse uma ordem política, económica e social natural, própria dos tempos modernos. “Um processo irreversível”, diziam. “Uma evidência histórica”, afirmavam. Quaisquer alternativas ao sistema capitalista eram imediatamente qualificadas de radicalismo juvenil ou imaturo, de sonho irrealista, de fantasia. De meras utopias. “Não existe alternativa”, clamavam aos céus os arautos do sistema. Em poucas décadas o neoliberalismo logrou em retroceder muitas das conquistas obtidas pelo movimento laboral em mais de um século de lutas intensas. Tudo em prol do lucro de uns poucos e do empobrecimento de muitos.

Não obstante, o período iniciado com a actual crise económico-financeira fragilizou a ordem neoliberal, quando até há poucos anos esta nos parecia “invencível”. Fragilizou-se e perdeu legitimidade. A luta de classes reacendeu-se com um novo vigor pelo mundo fora à medida que os poderes instaurados respondiam à crise com austeridade, flexibilização das relações laborais, privatizações, intervenções militares e com um crescente autoritarismo e repressão. Novos movimentos sociais e sujeitos políticos afirmaram-se no combate político, contestando não apenas os ataques neoliberais contra a maioria dos desapossados, mas também o capitalismo e a sua lógica de lucro acima de tudo. O capitalismo deixou de ser combatido nas margens para assumir, cada vez mais, uma posição central nas reivindicações da maioria desapossada. Contudo, e passados oito anos de uma crise que não tem fim à vista, as forças emancipatórias, radicais e anticapitalistas vivem um profundo tempo de refluxo, vendo-se incapazes de disputar, suficientemente, o espaço político e social com as forças neoliberais/sociais-liberais e de extrema-direita. A luta por uma sociedade sem classes confronta-se com inúmeros e complexos desafios.

Os nacionalismos disseminam-se como se de um vírus se tratasse, colocando povos contra povos. O imperialismo aprofunda-se, despoletando guerras cada vez mais sanguinárias e ameaçando com novas em prol dos interesses de uma minoria. As forças de extrema-direita ganham cada vez mais força política e social, ameaçando com um enorme retrocesso de direitos e liberdades. O conservadorismo avança, colocando em causa os direitos das minorias, das mulheres e da comunidade LGBTQIA+. O racismo e a xenofobia normalizam-se, permitindo discursos securitários e de exclusão. A União Europeia mostra a sua verdadeira face e começa a desagregar-se, pela direita. O planeta vê-se confrontado com um sistema económico que tudo quer consumir até à extinção final. A questão que se coloca nos dias de hoje é a mesma que Rosa Luxemburgo colocou há dezenas de anos: socialismo ou barbárie?

Hegemonia ideológica

Qualquer sistema económico necessita de mecanismos ideológicos para se legitimar e reproduzir a força de trabalho. Os aparelhos repressivos actuam quando os aparelhos ideológicos já não são suficientes e deixam de surtir o efeito pretendido: manter em permanente adormecimento a inúmera massa de oprimidos. Os meios de comunicação social são precisamente um dos principais aparelhos ideológicos dos poderes instaurados, propagando as suas ideias e defendendo ideologicamente os seus interesses económicos. Os meios de comunicação social nunca foram ou serão imparciais, bem pelo contrário, inserem-se claramente na luta de classes, mesmo quando se tentam camuflar com uma falsa imparcialidade.

Seguindo a tendência de crescente acumulação de capital, os meios de comunicação social são cada vez menos e crescentemente dominados por um pequeno número de grupos económicos. O mesmo grupo económico pode possuir vários canais de televisão, revistas e jornais generalistas ou de temáticas específicas, tal como rádios. Assiste-se também ao aumento do controlo dos jornalistas por meio da precariedade, da falta de meios para uma produção de notícias com profundidade, da pressão permanente para o aumento dos lucros. Em consequência, alguns jornalistas — os mais sérios — não possuem a necessária liberdade para executarem o seu trabalho, praticando, frequentemente, a auto-censura. Para quê exercer o lápis azul se os próprios jornalistas já o fazem por receio de perderem o seu posto de trabalho?

Deste modo a informação que nos entra por casa adentro todos os dias é fortemente condicionada. Não se fazem debates sobre conceitos políticos ou temas com a devida profundidade; os meios de comunicação cobrem os mesmos acontecimentos de acordo com o sensacionalismo e agendas do momento; os mesmos comentadores pulam de programa em programa ou de órgão de comunicação em órgão de comunicação; os acontecimentos políticos são as intrigas partidárias e não os reais problemas de quem trabalha; discutem-se personalidades em vez de programas políticos; pratica-se a política do medo quando algo ameaça o sistema pela esquerda; os soundbitesimperam. As alternativas de informação são assim um imperativo.

A Esquerda possui uma longa História de criação dos seus próprios instrumentos de combate da hegemonia ideológica da classe dominante. Nos dias que correm a informação está ao alcance de um clique e é-nos transmitida a uma velocidade estonteante, permitindo a criação de novos canais de informação alternativa e independente. Ao longo dos últimos anos surgiram — à esquerda — tanto em Portugal como pelo mundo fora, vários meios de comunicação alternativos e independentes. Produziram conteúdos, utilizaram técnicas e assumiram orientações políticas distintas e que, frequentemente, se complementaram no objectivo de fornecer uma análise e informações alternativas às dos media controlados pelos grandes grupos económicos. Uns focam-se em noticiar acontecimentos do momento a que os media mainstream não dão cobertura; outros em personalidades mediáticas à esquerda; outros tantos cingem-se a extensos artigos mais exaustivos, escritos principalmente por académicos-activistas. O Praxis procura complementar esta comunidade ao centrar-se nos activismos de base, divulgando as suas perspectivas e formas de organização, construindo uma ligação o mais orgânica possível com estes.

Todos estes média contribuíram de uma forma bastante positiva para a fragilização da hegemonia neoliberal. O Praxis Magazine deseja juntar-se àqueles que tentam aprofundar as narrativas contra-hegemónicas e alternativas ao jornalismo-espectáculo, indo ao fundo das questões dos nossos dias com uma análise crítica da realidade. O “fim da história” foi um embuste ideológico. Existem, e sempre existiram, alternativas ao sistema capitalista. Estamos aqui para promover e aprofundar o debate em torno dessas mesmas alternativas

Praxis Magazine

A criação do Praxis Magazine não pode ser dissociada da actual situação política nacional e internacional. No actual contexto de refluxo que vivemos, em que a desmotivação, a falta de organização e de debate entre as forças emancipatórias, radicais e anticapitalistas, entre outros factores, imperam, é necessário aprofundar o debate programático, estratégico e organizativo. Não apenas com base em debates teóricos abstractos, mas com experiências e formas de organização concretas, escrutinando as suas vantagens e desvantagens, as suas derrotas e vitórias, e adaptando-as às múltiplas especificidades. Na luta política, a teoria e a prática não podem ser indissociáveis. Estas foram as principais necessidades que um conjunto de activistas sentiu e que os fez mobilizar para criarem o Praxis Magazine

É neste sentido que este projecto é e sempre se manterá independente de forças económicas e político-partidárias. O Praxis não se rege pela procura do lucro. Todo o financiamento que obtiver terá como únicos e principais objectivos o crescimento do projecto e o apoio incessante aos movimentos sociais. Em suma, rejeita a mercantilização da informação e a publicidade nos seus espaços.

O Praxis sempre se norteará por valores anticapitalistas, internacionalistas, basistas, anti-racistas, feministas e LGBTQIA+. Não basta apenas afirmá-lo, é, antes de mais, fundamental demonstrá-lo, e quem o confirmará ou refutará serão os nossos leitores. “A prática é o critério da verdade”, já antes o disseram. Nós reafirmamo-lo. Por conseguinte, não seremos imparciais no debate político e informativo, bem pelo contrário. Analisaremos criticamente a realidade nas várias perspectivas dos movimentos sociais. Tomamos e tomaremos posições claras, transparentes e argumentadas que visem contribuir para o fortalecimento das forças políticas emancipatórias, radicais e anticapitalistas nos seus confrontos com as forças da direita.

Este projecto pretende contribuir para o semear dos tão necessários confrontos que aí vêm. Para tal, tenciona assumir-se como um instrumento de ampliação — e nunca de apropriação — das lutas e vozes daqueles e daquelas que combatem contra o alarmante crescimento do fascismo, nacionalismo, xenofobia, racismo, homofobia, machismo e transfobia. O seu principal objectivo é o fortalecimento dos movimentos sociais e das forças políticas emancipatórias, radicais e anticapitalistas e não o seu enfraquecimento. Recusamos o fechamento e o sectarismo que sempre caracterizaram certas franjas da esquerda anticapitalista. Como não podia deixar de ser, o nosso principal adversário são as forças políticas de direita, o que não nos impede — nem impedirá — de contribuir para um debate aprofundado, frontal e honesto à esquerda. Um debate que fortaleça em vez de enfraquecer; que aglomere em vez de dividir.

Nesse sentido desejamos ter o máximo de ligação orgânica com os vários activismos, atribuindo sempre aos seus activistas a primazia na publicação de conteúdos. Queremos acompanhar os seus debates e não o que é estabelecido pelos senadores mediáticos. Os nossos conteúdos pautar-se-ão por tentarem, ao máximo, colocar a tónica na raiz das problemáticas com que os movimentos sociais e forças políticas emancipatórias, radicais e anticapitalistas se confrontam tanto a nível nacional como internacional. Este projecto nasce para fortalecer a esquerda.