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O século XX por Raquel Varela | João Moreira

O mais recente livro da historiadora portuguesa Raquel Varela, Breve História da Europa, enquadra-se numa linha historiográfica de algum modo iniciada com a obra A People’s History of the United States, de Howard Zinn, e que na Europa conta, por exemplo, com a publicação de História do Povo da Europa Moderna, de William A. Pelz – recentemente falecido – e de História do Povo na Revolução Portuguesa, da própria autora. Esta nova vaga historiográfica revela-se um autêntico demolidor de lugares comuns das diversas narrativas históricas dominantes. Como Pelz, Varela coloca a ‘gente trabalhadora’, ‘a maioria dos seres humanos’, ‘os dissidentes, os rebeldes e os radicais’[1] no curso da história da Europa e, mais do que isso, como agentes transformadores da história.

Em todo o caso, esta obra não se resume apenas à história dos povos europeus nos últimos cem anos. A autora portuguesa coloca em relação as direções político-partidárias e as suas bases procurando, assim, explicar a história das ‘dinâmicas sociais’ no continente europeu, o seu ‘avanço’ e o seu ‘retrocesso’[2]. Nesse quadro, Varela foca e problematiza as opções políticas dos partidos comunistas tradicionais europeus a partir do final da década de 1920 até ao fim da União Soviética, particularmente as unidades políticas entre estes e as diferentes burguesias: da política da ‘frente popular’ de Estaline e Dimitrov ao eurocomunismo do Partido Comunista Italiano (‘compromisso histórico’), do Partido Comunista Francês (‘programa comum’) e do Partido Comunista Espanhol (‘pacto para a liberdade’)[3].

A partir de uma reflexão intelectual marcadamente marxista, Varela avança com diversas teses relativas ao século XX europeu – todas contrárias às historiografias dominantes. Para a autora, a Revolução Russa não estava destinada ao estalinismo. Segundo Varela, “não se pode misturar revolução – até 1927 – com contrarrevolução”[4]. O fracasso da revolução a Ocidente, particularmente na Alemanha, Espanha e França, explica o triunfo da burocracia chefiada por Estaline e o fim do projecto político bolchevique.

Na segunda tese Raquel Varela lembra que o regime nazi não foi obra de um louco. Pelo contrário, Hitler foi secundado pela burguesia alemã e, à luz da história, pelo papel criminoso da social-democracia e do estalinismo. Trotsky vinha dizendo que para impedir o fascismo de subir ao poder, até com o diabo se deviam procurar alianças práticas. No entanto, nem entre si os partidos operários procuraram essa unidade, abrindo assim caminho ao partido de Hitler.

A autora procura demonstrar igualmente que os avanços qualitativos nos direitos políticos e sociais dos cidadãos europeus surgem após grandes ruturas históricas, como a II Guerra Mundial[5], e não com a edificação da CECA[6] ou da CEE[7]. Pelo contrário, o salto civilizacional ‘nasce do facto de a propriedade estar destruída, de a resistência ter por composição trabalhadores armados e das greves do pós-guerra’[8]. Nas suas palavras, ‘a estrutura de direitos sociais na Europa nasce antes da criação de qualquer mecanismo de unificação europeu [… ]’[9].

A quarta tese conclui que o fim do pacto social se dá antes da queda do muro de Berlim, entre 1984 e 1987, e não depois. Segundo Varela, ‘acossados pela deslocalização [das empresas]’ e adivinhando uma ‘luta férrea que iria desestabilizar a ordem europeia’, os sindicatos e partidos de esquerda, optam então por ‘manter os direitos para os que vinham do pacto’ e, portanto, por oferecer a precariedade laboral às gerações seguintes[10].

Apesar do fundo ensaístico da obra, a historiadora portuguesa recorre frequentemente a diversos autores evidenciando, por um lado, honestidade e humildade intelectuais e, por outro, coragem académica. Se hoje se tornou moda – mesmo entre autores pós-modernos – usar Antonio Gramsci para explicar o passado e o presente – seria assim se o autor de Cadernos do Cárcere tivesse tomado o poder? –, o mesmo não se pode dizer sobre a proposta teórica de Leon Trotsky, consubstanciada nas teorias do Desenvolvimento Desigual e Combinado, e da Revolução Permanente. Não obstante, a influência do fundador do Exército Vermelho é aqui por demais evidente.

A essa ousadia – de fundo intelectual e simultaneamente político – junta-se a forma como as artes, particularmente a literatura, a pintura e a música são utilizadas como fontes explicativas da realidade histórica facilitando, assim, a leitura a um público leigo e elevando o seu conhecimento sobre o século XX europeu.

 O último capítulo, ‘Imigração, internacionalismo e solidariedade’, e a conclusão rematam com a ideia-chave que percorre todo o livro. Não há revoluções sem crises mas há crises sem revoluções. Nesse sentido, é salientado que a ‘contracção de direitos’ não é explicada pelas crises económicas mas, pelo contrário, ‘com a resposta política a essa[s] mesma[s] crise[s]’[11].

A crise económica que vivemos (segundo diversos economistas, outra está ao virar da esquina) tem sido quase sempre respondida pelas diferentes direitas com políticas nacionalistas e xenófobas. Breve História da Europa dá pistas para uma resposta da esquerda que passe necessariamente pela solidariedade e pelo internacionalismo entre os que trabalham. A estes deverão juntar-se os intelectuais, ‘uma e outra vez […] chamados a ir ao pretérito da sua função’[12].Varela já disse ‘presente’.

Publicado originalmente na revista Critique, nº 47, p. 617-619. Esta versão conta com algumas alterações.


[1] William A. Pelz, História do Povo da Europa Moderna (Lisboa: Objectiva, 2016), p. 13-15.

[2] Raquel Varela, Breve História da Europa – da Grande Guerra aos nossos dias (Lisboa: Bertrand Editora, 2018), p. 13.

[3] Ibid., p. 190.

[4] Ibid., p. 41.

[5] Ibid., p. 12.

[6] Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.

[7] Comunidade Económica Europeia.

[8] Ibid., p. 288.

[9] Ibid., p. 279.

[10] Ibid., p. 279.

[11] Ibid., p. 227.

[12] Ibid., p. 289.

 

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