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A noção racial como motor do fascismo | Douglas Rodrigues Barros

O sujeito nasce da fratura da identidade. Essa é uma das conclusões teóricas mais impressionantes da psicanálise, ou, para ir mais longe e ser mais preciso, da noção de sujeito tal como surgiu com Descartes na filosofia, e com Dante, Cervantes e Shakespeare na arte. No tocante a isso, essa conclusão é proporcionada, naturalmente, pela transformação radical da vida social impulsionada pelo embrião do capitalismo.

Todas as análises sobre esta categoria específica têm feito correr rios de tinta na história da crítica filosófica. De Descartes a Althusser, de Freud a Lacan, de Butler a G. Spyvak, de Hegel a Badiou, de Fanon a Mbembe, as observações sobre a necessidade ou não do sujeito, sobre sua existência em processo, sobre a ruptura  da identidade estanque, sobre o acolhimento do outro como fonte de organização da subjetividade, sobre o reconhecimento como possibilidade de configuração social, foram chaves determinantes para a compreensão da contradição eu/mundo dada como horizonte estrutural.

Opondo sempre um termo ao seu espaço, sabemos que toda contradição é fundamentalmente assimétrica. É sempre um dos termos da oposição que forma a sustentação com o outro numa relação de inclusão. Aquele que inclui, no interior da dialética materialista, é o espaço de circulação da consciência, o termo dominante, o aspecto principal da contradição. Por isso, não existe um único Eu=Eu não corrompido pela exterioridade.

Ora, pensar o aspecto da racialização social, tal como surgiu na escravidão e na formação colonial, é concluir, no sentido acima ponderado, que a exclusão racial elimina o contraditório e, portanto, elimina a possibilidade de reconhecimento entregue a esse outro que se torna fantasmagórico porque está fora da relação espacial.

Os resultados dessa política foram determinantes para a construção das cidades e podem ser vistos até os dias de hoje através da virtualização da política de guerra e suas insensibilidades; as mortes ocorridas em qualquer periferia do capitalismo são menos importantes do que as mortes das áreas centrais; a morte de um negro na periferia do capitalismo é menos importante do que a morte de um branco, e assim sucessivamente.

 Em vista disso, onde quer que a paranóia racial tenha aparecido, nós a encontramos ligada a três prescrições perigosas: fixação da identidade, não-reconhecimento do Outro e narcisismo – mas sem podermos decidir, com segurança, o que aí é determinante, e mesmo se é um deles que determina os demais.

Justifica a última dúvida o fato de, entre os muitos sintomas mais presentes, achar-se também o desejo de segurança de si mais repentino e extravagante, que de modo igualmente súbito se transforma em fobia e negação das diferenças. Muito se fala do retorno fascista ao redor do mundo, mas pouco se diz sobre como a noção de raça implica, e implicará enquanto existir, o desenvolvimento de uma vida fascista e de uma abertura para a política fascista.

A determinação racial fundada na escravidão; o controle etnográfico engendrado por impérios díspares, mas com interesses em comum na espoliação dos povos invadidos; a nomeação de um indivíduo, e toda redução de sua subjetividade a um aspecto singular de diferença superficialmente criada – cor da pele – visam providenciar uma identidade estanque para controle dos corpos e das próprias diferenças.

Noutras palavras, visam impedir que os indivíduos nomeáveis, separáveis e controlados, se tornem sujeitos! O único sujeito possível nesse modo de sociabilidade é o capital, que tem livre curso no mundo. Marx evidenciou isso na paradoxal conclusão de que o capital é um sujeito automático.

 A naturalização da noção de raça, como se tal noção não dissesse nada sobre a construção sócio-política da modernidade, é o totem sempre presente da festa democrática que se baseia na tolerância e na ausência de consequências do reconhecimento do Outro.

Na vida protofascista chama-se de “progressista” a inclusão via consumo daquele em que se vê a diferença superficialmente criada pela forma de administração herdada da época colonial. Diferença fundamentada para exploração e opressão de grupos humanos que hoje se tornaram excedentes excessivos do exército global de desempregados e são jogados de um lado para o outro como refugiados ou imigrantes ilegais.

Exatamente aquilo que Achille Mbembe chamou de devir negro do mundo: um exército de reserva gigantesco doravante definido e comprimido em sua aparência física, em sua escolha religiosa ou em sua nacionalidade para controle estatal e econômico que fomenta diuturnamente o racismo e sua consubstancial necropolítica.

Por trás de todas as fachadas “progressistas” e “liberalizantes” a que remetem essas fórmulas inclusivas de consumo, efetua-se um tremendo processo de definição e divisão que não para de avançar sob a égide da gramática neoliberal – o processo de identificação dos corpos, sua crescente limitação à identidade, sua dependência cada vez maior de todo meio determinado, que durante séculos se inscreveria como exigência fundamental do modo de produção capitalista – ou seja, a rápida ascensão de um tipo de indivíduo essencialmente limitado e preso ao modo de sociabilidade da mercadoria, que tenta por todos os meios elevar como único sujeito da vida o capital, é a marca distintiva dessa presença fascista na vida e cotidiano sustentados pela ideia de raça.

Esse processo de neoliberalização da vida espiritual de uma época, que pode ser alavancado por grandes recaídas no narcisismo primário – isto é, o investimento pulsional que o sujeito realiza imaginariamente sobre sua própria imagem –, esse processo adentrou com grande força também a esquerda liberal e acarretará, muito provavelmente, resultados com que seus apologistas ingênuos, os apóstolos da representatividade política, estão longe de contar.

Com a crise elevada a forma de governo, as novas condições que produziram, em termos gerais, uma pulverização de demandas e lugares demarcados por pautas singulares – uma falsa política monádica, não-relacional, exclusiva –, são sumamente adequadas a originar políticas de exceção, da mais perigosa qualidade. Aliás, do Brasil aos EUA, cruzando países bálticos que já homenageiam membros da SS hitlerista, passando pelos recentes ataques da Nova Zelândia é o que se vê. A democracia liberal suporta com tranquilidade o fascismo porque ela própria é eivada de espaços racializados para controle e demarcação de sua ordem.

Não havendo mais, sequer, uma organização da vida social sustentada por interesses demarcados pela desumanização da situação de classe, a nova forma de administração – a crise do capital como forma contemporânea de vida – tornou a jogar os indivíduos na busca de uma identidade imóvel, de um lugar fixo eivado de características singulares em comum. Em suma, renovou o decrépito pensamento de identidade nacional, cultural, epidérmico e religioso. Reativou-se novamente a própria noção de raça superior, que a bem da verdade nunca saiu de moda, e a exclusão que promove.

Isso denota, porém, como as estruturas simbólicas que sustentavam um discurso sobre o Eu, pós Segunda-Guerra, entram em colapso a partir do momento em que um sentido de formação social – a modernidade – entra igualmente em colapso levando com ela o antigo mundo do trabalho fordista. Quer dizer, ainda estamos no fuso histórico da década de 1970 e estamos vivendo os desdobramentos cataclísmicos do fim do Welfare State e o solapar do “pertencimento” garantido pelas seguranças sociais mínimas.

De todo modo, “essa abstração real da raça – que ao mesmo tempo que fundamenta a relação social funda sua forma categorial – é um processo no qual a justificação excludente se dá no plano sociossimbólico.”[1] O não-Outro, o de fora, o negro ou o muçulmano, o imigrante ou o refugiado passam a ser vistos como um nada. O pressuposto da raça, da “nossa identidade”, se ergue para eliminar em nome da sua diferença – que se tornou o ponto narcísico de si – a própria diferença que lhe é alheia.

Sabemos por meio de Hegel/Lacan que se uma identidade mantém com o vazio uma relação que não é a da generalidade das identidades, pode funcionar como denotação monádica do vazio mesmo. Noutros termos, não alcançada a posição de sujeito, ao ser dilacerada pela diferença em relação ao mundo, se inscreve no apego identitário e requer um mestre. Em todo caso, tais operações são patologias e negações imaginárias da realidade. Acreditar-se não dilacerado pela diferença do espaço mundo/outro é se marcar totalmente por ela.

É nesse sentido que a consciência do racista e do fascista são unitárias: ambas precisam eliminar a diferença, ou assim acreditam, para que a doença que trazem na alma seja supostamente curada. Ambos precisam do mestre, do líder forte. Tais operações dizem muito a respeito também do homofóbico, que se vê sexualmente implicado na sexualidade daquele que nega.

Um corpo social sadio sabe que a contradição não tem nenhum outro modo de existência senão o da cisão, ao passo que um corpo social doente, fascista, não compreende e visa ignorar radicalmente essa cisão eliminando as contradições através do ato místico de retorno às origens, da felicidade via inclusão consumista, do fechamento da identidade e, por fim, da aniquilação daquele que apresenta a cisão.

A conversão à ideia de raça particular e poligenista[2] é uma das determinações concretas desse feito sempre presente como forma política na tradição liberal. A racialidade marca a ideia de democracia representativa, como sugeriu Mbembe; a própria forma democrática está eivada pela ideia de raça, enquanto a organização no interior do Estado impõe a divisão de indivíduos pelo critério racial.

Do ponto de vista do qual partimos, vemos então que acompanha esta tradição o próprio fascismo, que só se oculta quando não há qualquer risco social. Com efeito, qualquer crise econômico-social desvela novamente o componente racial como motivo e tentativa de eliminar a contradição. Isto se dá porque a própria condição da vida liberal é permeada pelo fascismo, que torna os apelos identitários, no plano superficial da diferença socialmente criada pelo sistema liberal, o fim último e o, suposto, motivo das crises.

A noção de raça, portanto, é sempre a ferramenta preferencial que visa não só negar a contradição como contorcer a luta do velho e do novo, propiciando uma revolta contra os corpos invisibilizados do espaço público e mantendo a ordem geral da sociabilidade liberal. A consciência fascista é sempre a de uma revolta que jamais ultrapassa a ordem simbólica; pelo contrário, repõe na ordem do dia os apegos gerados por essa ordem. Clama por mais ordem e pela eliminação da contradição vista como o “outro fantasmagórico”, eliminação que, na crença patológica de si, lhe assegurará a identidade e o suposto acesso à coisa fundamental. O fascista carrega uma alma doentia!

Douglas Rodrigues Barros é escritor e doutorando em filosofia. Acabou de publicar o livro: Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial. São Paulo: Editora Hedra, 2019.


[1] BARROS, D. R. de. Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafisica racial. São Paulo: Editora Hedra, 2019, p. 45.

[2] Recurso ideológico utilizado no século XIX, e já definitivamente superado pela ciência contemporânea, que esboça a ideia de diferentes troncos raciais que teriam originado a humanidade.

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