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NATO, há 70 anos a querer dominar o mundo | Praxis Magazine

De braços dados e com sorrisos rasgados, cantam a música “We are the World”. Uns desafinam, uns recusam-se a pegar no microfone e outros quantos até dão uns passitos de dança. Seria mais uma festa como qualquer outra não fossem os entusiastas ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros da NATO. Cantam como se não houvesse amanhã e fossem os donos do mundo. Planejam e dão luz verde a intervenções militares, apoiam e destronam ditadores, sempre como se operações humanitárias se tratassem. São os representantes nacionais no braço armado do capitalismo ocidental, e agem como tal.

Faz hoje 70 anos que a Organização do Atlântico Norte (NATO, em inglês) foi fundada. É apresentada como a garante da paz, mas desde a sua fundação que o seu objectivo não foi mais que a guerra, de conter pelas armas a então União Soviética. Criou-se o conceito de segurança colectiva para a legitimar – um ataque contra um aliado é considerado um ataque a todos – que, curiosamente, apenas foi por uma vez evocado.

É por isso que desde 2001 não param de explodir bombas no Afeganistão. Seja pela guerra ou pelos atentados terroristas que ocorrem quase diariamente. Disseram-nos que se invadiu o país para o libertar da tirania dos talibãs, mas não. Foi essencialmente pela posição geoestratégica que o país possui, entre a Ásia e o Médio Oriente, fundamental para qualquer império que deseje controlar as rotas de comunicação nessa zona. A guerra continua e milhares de pessoas já perderam a vida – e continuam a perdê-la. É um dos resultados das intervenções da NATO, mas há outros tantos exemplos: Kosovo e Líbia, países que ainda hoje estão imersos no caos.

A NATO foi criada pelos EUA para servir de instrumento de expansão militar e de avanço dos seus próprios interesses. Portugal foi um dos países fundadores, ainda que nessa altura fosse uma ditadura fascista. Ao mesmo tempo, estava, na Europa, a ser implementado o Plano Marshall, plano cujo objectivo era ajudar as economias de vários países europeus. Não era uma ajuda sem segundas intenções – isso não existe na política internacional -, mas para conter o avanço da União Soviética e a sua capacidade de atracção. Insurreições contra os governos capitalistas na Europa Ocidental no pós-II Guerra Mundial não podiam ser afastadas e os capitalistas sabiam-no. A NATO foi o braço armado deste plano.

A União Soviética respeitou sempre os acordos que estiveram por base da nova ordem mundial, ao contrário do que os falcões ocidentais diziam. Em Potsdam e Ialta, ainda durante a II Guerra Mundial, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, e Josef Estaline acordaram dividir o mundo em zonas de influência. A Rússia ficou com a Europa de Leste e perdeu a Grécia para os britânicos e a Europa Ocidental para Washington, Paris e Londres. Na Grécia, Estaline abandonou os comunistas gregos na guerra civil que se deu após o fim do conflito mundial; na Europa de Leste, já ocupada pelo Exército Vermelho, Estaline replicou governos burocraticamente degenerados e os seus tanques não deram novos passos. Na Europa Ocidental, os partidos comunistas receberam ordens para apoiarem as democracias burguesas recém-fundadas, como aconteceu em França, por exemplo.

A União Soviética não tinha assim qualquer ímpeto expansionistas, mas a burguesia ocidental receava que o pudesse fazer e, com o prestígio que tinha conquistado na luta contra os nazis, conquistar as mentes e corações de milhões de trabalhadores. O dito perigo vermelho tinha de ser contido e assim fizeram.

A resposta da URSS não tardou. Em 1955, em conjunto com os países do Bloco de Leste, foi criado o Pacto de Varsóvia. Era uma aliança militar para contrapor à NATO e, anos mais tarde, serviu como instrumento de manutenção da ordem estabelecida na Hungria e, uma década depois, na Checoslováquia, em 1968. Com o colapso da União Soviética e do bloco de leste, a aliança militar acabou por ser dissolvida de forma pacífica, mas a NATO, essa, manteve-se firme e de pé.

Desenvolveram-se novos conceitos para legitimar a sua existência e, entretanto, os Estados Unidos usavam-na para continuar o projecto de dominação e expansão da sua influência. Nas décadas que se seguiram, a NATO alargou-se aos antigos Estados do Bloco de Leste, ao contrário do que tinha sido prometido à Rússia. Avançou até às fronteiras da Rússia e interveio militarmente nos Balcãs em 1995 – zona desde sempre muito sensível para os interesses russos.

Ainda assim, a Rússia tentou dar pequenos passos de aproximação à organização, com vários acordos a serem firmados, como a “Parceria Para a Paz”, que estabeleceu cooperação nas áreas militares e económicas. Em 2002 foi estabelecido o Conselho NATO-Rússia, que aprofundou os acordos em vigor, desenvolvendo uma estratégia no combate ao terrorismo e uma cooperação na guerra do Afeganistão.

Mas antes, em 1999, a NATO voltou a intervir na subregião, desta vez no Kosovo. Foi criado o conceito de intervenção humanitária, proeminentemente defendido pelo então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e pelo então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Os direitos humanos serviram de instrumento, e de pretexto, para a legitimação política do domínio imperialista dos norte-americanos. A doutrina da “responsabilidade de proteger” quebrou com o direito internacional, relegando a soberania para factor secundário.  A estratégia de expansão da NATO consubstanciou-se em 1999 no aniversário dos seus 50 anos. A organização arreigou-se do direito de intervir fora da sua área tradicional, a Europa, para incluir outras zonas do globo.

Os avanços da NATO na Europa de Leste continuaram, ameaçando os interesses russos. Houve vozes críticas desta estratégia. Argumentavam que seria um erro histórico provocar-se sem necessidade a Rússia, resultando novamente em conflito. A estratégia ofensiva da NATO foi denunciada no final dos anos noventa por várias pessoas influentes da política externa americana. Não tiveram sucesso e a a Geórgia e a Ucrânia aproximaram-se da NATO, apesar de não pertencerem formalmente à organização. Com a invasão e anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, o clima de tensão aumentou ainda mais. Neste momento, existe um claro distanciamento entre o dito Ocidente e a Rússia.

Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, a aliança voltou a ganhar renovado poder, ao contrário do que inicialmente dizia o então candidato republicano. Critica os Estados-membros da aliança por não investirem mais na Defesa – quer que invistam até 2% do PIB -, mas, agora, quer o Brasil de Jair Bolsonaro como aliado estratégico da organização atlântica.

Caso se concretize, será o segundo acordo formal na América Latina por parte da NATO, depois de, em 2013, ter sido assinado um acordo com a Colômbia sobre segurança de informação. Este convite surge numa altura em que os EUA tentam levar a cabo um golpe de estado na Venezuela.

A história mostra bem claro quais as pretensões da NATO: alargar ainda mais a sua zona de influência. Ao mesmo tempo que tenta avançar no leste da Europa de forma a reduzir a influência russa, procura entrar na América Latina, criando até a possibilidade de aceitar membros fora do hemisfério norte, como é o caso do Brasil.

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