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É Carnaval, mas há que levar a mal | Makeda Cardiff

Na época carnavalesca solta-se a inspiração, há quem busque nos cantos mais recônditos da mente, ideias criativas para escolherem o seu melhor traje. As crianças ansiosas aguardam para se transformarem no seu super-herói favorito, os colegas de trabalho combinam uma saída à noite para exibirem as suas fatiotas de Power Rangers e os homens mais arrojados assumem o seu lado matrafona. Há folia, diversão, três dias que poderiam durar uma semana, qual Carnaval brasileiro!

Na minha infância celebrei muito o Carnaval, antecipávamos a celebração e semanas antes começavam as brincadeiras com balões de água e as bombas de mau cheiro. Já na fase da adolescência, fui convidada para uma festa de Carnaval e decidi ir mascarada de índio, pesquisei que tipo de pintura facial teria que fazer, o penteado e comprei o dito fato. Na altura não achei que fosse insultuoso.

No século XIX, nos Estados Unidos, ganha notoriedade uma prática: Blackface (rosto negro), em espectáculos de menestréis artistas caucasianos pintavam os seus rostos de preto de forma caricatural, exagerando não apenas nas características físicas do Negro (os lábios grossos, cabelo crespo, etc) como perpetuando o estereotipo do Negro inútil, ignorante e preguiçoso.

O Blackface não se limitou aos palcos, o arquétipo racial proliferou-se para os ecrãs: nos filmes, desenhos animados e campanhas publicitárias.

Não tão distante no tempo nem no espaço, aqui e agora, na Europa, existe ainda esta prática vivida e encarada como tradição. Zwarte Piet ( Pedro, o Negro), celebrado na Holanda, em Dezembro, onde Pedro é apresentado como o acompanhante do pai Natal que rapta crianças mal comportadas, o bicho papão lá do sítio. Os rostos também são pintados de preto, lábios vermelhos carnudos e peruca “afro”. Não só a caricatura cria controvérsia, a tradição está fortemente ligada a um passado colonial.

Em Portugal, o tema escolhido pelo agrupamento de escolas de Matosinhos para o desfile de Carnaval foi a “raça”. Professores e crianças disfarçaram-se de “africanos” e, mais uma vez, não faltou o cliché da cara pintada, lábios pintados para evidenciar o tamanho e as perucas. Entre as várias opiniões, a maioria foi de apoio para com os mascarados e de crítica a quem, com direito, se sentiu ofendido. Existe aqui uma premissa que deve ser levada em conta em relação à ofensa: quem ofende não tem legitimidade de decidir se o alvo da ofensa se deve melindrar ou não, o mesmo alerta vai para quem não se sente ofendido e tenta diminuir ou descredibilizar as repercussões do ato.

A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé, sapatos e ar livre
Fonte:  grupo Blackface Portugal

O primeiro erro é acharem que um povo, uma etnia ou uma raça, como lhe queiram chamar, pode ser usada como máscara de Carnaval. Depois, África não é um país, cada país africano tem a sua identidade, cultura, tradição, características fisiológicas e língua próprias, eu não me posso mascarar de Africano como não faz sentido mascarar-me de Europeu.

Enquanto não calçarem os nossos sapatos, nunca vão entender esta longa caminhada de oposição ao racismo que, diariamente, se manifesta de inúmeras formas, nem sempre as mais óbvias. Ser negro por um dia por diversão, é desmerecer toda uma luta enfrentada por seres humanos que estão sob constante julgamento pela cor da sua pele. Mascarar-se de Negro não é ser Negro. A água lava do corpo a tinta de uma experiência, quem me dera que ela também limpasse todo o preconceito entranhado.

A luta contra o racismo não é exclusiva do Negro, é de todos. Uma sociedade sem racismo é uma sociedade melhor, mais inclusiva e tolerante.

Se o intuito é glorificar uma cultura, não serve pintarem a cara ou imitar sotaques. Enaltecer uma cultura é respeitar, acolher, saber a história, não edificar barreiras para a integração, entender a luta, calçar o sapato do outro e principalmente não usar a ignorância como desculpa.

Quando decidi mascarar-me de índio nunca imaginei que com o meu acto, apesar de ignorante, estivesse a contribuir para fomentar o estigma. Uma “não-índia” a usar trajes de uma cultura que não lhe pertence e que mal conhecia para contribuir para a folia carnavalesca, por diversão, apenas e só. Não me recordo de quando tomei consciência sobre o quão errado foi usurpar uma cultura para meu belo prazer, gostava de ter tomado consciência disso mais cedo, até hoje é uma culpa que carrego e é uma penitência que vou carregar para sempre, mesmo após ter dilapidado os vestígios dessa minha insensatez, a indumentária, as fotos, fica apenas a memória.

Numa má comparação, até porque é incomparável o que vou dizer com o que a discriminação racial carrega, se da próxima vez que um inglês disser que a vossa mulher tem bigode vocês se sentirem ofendidos, peçam para que se abstenha e não aceitem que justifique o porquê de o dizerem. Eu, negra, estarei do vosso lado.

One comment

  1. Simplesmente genial,Makeda!
    Não podia concordar mais com o que aqui explanaste.
    Oxalá, como disseste e muito bem, o ser humano ganhe mais empatia pelo Outro ou seja calce o sapato do outro. Precisa se urgentemente de gente que pelo menos tente sentir a dor dos outros.
    Makeda, continua a espalhar o que pensas e o que sentes
    Aquele beijão no Coração

    Liked by 1 person

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