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O que se passa na Venezuela? | Praxis Magazine

Publicamos um pequeno resumo sobre o que se passa na Venezuela, com fontes e sugestões de leitura.

Juan Guaidó autoproclamou-se Presidente da Venezuela em Janeiro. Foi imediatamente reconhecido imediatamente pelo governo norte-americano de Donald Trump. Até agora, pelo menos 50 países também já o fizeram, incluindo o governo português, alinhando-se com Bruxelas. Ninguém o conhecia até à data, nem os próprios venezuelanos.

A hipocrisia europeia não se fez esperar. O presidente francês, Emmanuel Macron, não virou a cara e criticou a violência policial na Venezuela, mas esquece-se de que a polícia francesa, sob as suas ordens e do seu ministro do Interior, Christophe Castaner, dispara indiscriminadamente contra os coletes amarelos, ferindo mais de cinco mil manifestantes, entre os quais mais de 100 com gravidade. Não menos de 20 pessoas foram atingidas nos olhos por bolas de borracha, disparadas pelas LBD-40. Já o Palácio de Moncloa, ocupado pelo “socialista” espanhol Pedro Sánchez, pede eleições “livres e justas na Venezuela”, mas tudo faz para esmagar o independentismo catalão, ora continuando com as perseguições judiciais dos tempos de Mariano Rajoy ora com a repressão das manifestações dos dos Conselhos de Defesa da República (CDR).

Duas posições da mesma moeda, numa tentativa bipartidária europeia organizada  abertamente pelos Estados Unidos para derrubar o regime venezuelano. Desde 2000 que é desejado e explicitamente procurado pelos Estados Unidos, porém a administração Trump parece ter estabelecido este objectivo para a sua política externa desde cedo. O New York Times noticiou, em 2017, que elementos a administração do magnata transformado em Chefe de Estado se encontrou com os chamados “rebeldes venezuelanos” para discutir opções para o golpe. Trump chegou inclusive a levantar a hipótese de uma intervenção militar externa com os seus homólogos latino-americanos num jantar à margem da última Assembleia-Geral das Nações Unidas. Foi recusado, mas desde esse momento que a alteração de forças se alterou significativamente no subcontinente latino-americano. Jair Bolsonaro conquistou o Palácio do Planalto e Ivan Duque voltou atrás no seu apoio. 

A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. John Bolton, conselheiro de segurança de Trump e que esteve ligado à intervenção do Iraque em 2003, admitiu sem pudor na Fox News que o derrube de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, seria uma grande oportunidade para “empresas americanas produzirem petróleo na Venezuela”. O império volta mais a uma vez a colocar as garras de fora para roubar e explorar os recursos de outros povos.

As sanções económicas introduzidas no final de Janeiro têm como alvo a empresa de petróleo estatal venezuelana, a PDVSA, que representam cerca de 90% das receitas da Venezuela hoje. Os norte-americanos apoderaram-se dos activos da Citgo, subsidiária da PDVSA, bloqueando milhares de milhões de dólares em receitas essenciais para o estado. O Banco de Inglaterra também bloqueou cerca de 1.2 mil milhões de reservas em ouro, sob pressão dos Estados Unidos. O objectivo é destituir o povo venezuelano de condições básicas de sobrevivência, de comida e medicamentos, de modo a subjugarem-se à vontade dos norte americanos. É a mais recente movimentação num já velho jogo de estrangulamento da Venezuela, responsável pela crise económica e pela tão propagada crise humanitária pelo que o país passa.

A imprensa ignora completamente o facto de Maduro ter sido, efectivamente, eleito. As eleições foram vigiadas por 150 observadores internacionais, entre eles o antigo primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, que disse: “Não tenho dúvidas sobre o processo de voto. É um sistema automatizado muito avançado”. O antigo Presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter disse uma vez: “Das 92 eleições que já monitorizámos, eu diria que o processo eleitoral da Venezuela é o mais justo do mundo”.

Os media mainstream repetiram ad nauseam que Maduro tinha ordenado os militares que queimassem a “ajuda humanitária” vinda do outro lado da fronteira com a Colômbia. Não houve dia em que as imagens não passassem pelas televisões nacionais, atribuindo a responsabilidade sem informações confirmadas. Alinham na propaganda norte-americana e, mais tarde, viram-se obrigadas a dar o dito pelo não dito. Afinal de contas foram os guarimberos, compostos por elementos anti-Maduro, os responsáveis pelo acto hediondo. Atiraram cocktails molotov, mas nem tudo lhes correu de feição: foram filmados a fazê-lo e Glenn Grennwald explica-o bem aqui.  Com a tremenda politização da ajuda humanitária para camuflar uma tentativa de intervenção externa, a ONU não a deixou de a condenar e a Cruz Vermelha Internacional afirmou que não iria participar no que diz não ser ajuda humanitária: “Não participaremos no que para nós, não é ajuda humanitária”.

Aliás, o antigo funcionário da ONU Alfred de Zayas garantiu num relatório sobre a Venezuela, de Agosto de 2018, que “as sanções e bloqueios económicos” ilegais, como os que estão a ser impostos por Washington são “comparáveis com os cercos medievais às cidade. As sanções do século XXI tentam subjugar não apenas cidades, mas pôr países soberanos de joelhos”.

Se atendermos à cobertura da imprensa nacional, não deixamos de ficar estupefactos pela cobertura acrítica que fez do sucedido: limita-se a replicar notícias das grandes agências ocidentais, entre as quais a Reuters e a Associated Press – as suas relações com o Departamento de Estado são bastante conhecidas -, e descrever o momento, sem que nunca vá à raiz da questão. Se Salvador Allende tivesse sido deposto nas últimas semanas, certamente que seria retratado como um ditador e nunca como um Chefe de Estado eleito por um povo soberano e em eleições livres e justas. A Guilhotina fez uma análise de 206 segmentos noticiosos da SIC, RTP e TVI sobre a Venezuela.

Com o falhanço da entrada da “ajuda humanitária” e crescente isolamento de Guaidó, os aliados do autoproclamado presidente não tiveram que outra opção que não recuar nas intenções de uma intervenção externa. Deram dois passos atrás para, no futuro, darem um em frente. E, depois, lá voltaram ao ataque: entre 7 e 10 de Maio a Venezuela sofreu um apagão que afectou a maior parte do país durante cerca de 72 horas. Fê-lo com um ataque informático e, sem pudor, Guaidó veio a público dizer que a electricidade seria reposta se Maduro abandonasse o poder. Não foi uma chantagem apenas contra Maduro, mas contra o povo venezuelano como um todo, aquele que diz querer proteger e defender.

Nas 72 horas do apagão morreram mais de três dezenas de pessoas por falta de tratamentos médicos. Não houve circulação de água, alimentos estragaram-se e deixaram de ser vendidos. Os bancos não abriram e dinheiro não pôde ser usado. Em suma, um caos em que as alternativas eram escassas, principalmente para os trabalhadores. O Marea Socialista pediu uma investigação independente, chamando à atenção que casos semelhantes já tinham acontecido.

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