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Líbia, um país imerso no caos

A intervenção da NATO na Líbia iniciou-se hoje, dia 19 de Março de 2011, há oito anos atrás. Iniciados por aviões britânicos e  franceses, esta operação significaram seis meses de bombardeamentos quase diários com o objectivo de derrotar as forças de Muammar al-Gaddafi, acabando por ser uma das maiores tragédias do século XXI. Afectou milhões de pessoas e desencadeou a chamada “crise dos refugiados”.

A justificação para bombardear a Líbia, no contexto de guerra civil, era a de que Gaddafi estava prestes a invadir Benghazi e que, por isso, as forças da NATO estariam a salvar a população de um massacre. Esta desculpa absurda levou as forças da NATO a criarem um terreno fértil ao terrorismo e jihadismo, apoiando forças da oposição porventura mais do que duvidosas.

Este tipo de “intervenções humanitárias” foram inauguradas pelo presidente norte-americano democrata Bill Clinton nos anos de 1990. Ironicamente, é a Hillary Clinton, então Secretária de Estado da administração de Barack Obama, que se atribui maior responsabilidade e influência pela decisão. Mais tarde, com a divulgação dos documentos da Wikileaks, soube-se que a então Secretária de Estado já tinha atribuído os poços petrolíferos líbios às multinacionais norte-americanas e europeias antes de as primeiras bombas caírem em solo líbio.

Sob o véu da doutrina “responsabilidade para proteger”, a justificação para a intervenção foi engolida e reproduzida acriticamente pelos órgãos de comunicação social, embora sem que houvessem quaisquer provas de que tal massacre estivesse prestes a acontecer.

Foi mais uma entre tantas intervenções ocidentais e, à semelhança das do passado, também esta foi à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas – Rússia e China vetaram a resolução que lhe dava luz verde. Chamaram à estratégia política da intervenção leading from behind, ou seja, Washington controla nos bastidores e a França e o Reino Unido dão a cara, como se de marionetas se tratassem.

A intervenção foi sobretudo aérea, com algumas forças especiais no terreno a identificarem alvos e a coordenarem os esforços dos rebeldes. Para justificar a ofensiva áerea ocidental, os Estados-membros da NATO aplicaram um recente conceito pseudo-humanitário: no fly zone, ou seja, os aviões do adversário não podem circular nesse território e os pilotos ocidentais têm o dedo do gatilho livre para disparar contra tudo o que se mexe. Levaram a ordem tão à letra que chegaram inclusive a bombardear aldeias inteiras, matando dezenas de civis indefesos. A Justiça, essa, nunca alcançou quem deu a ordem ou premiu o gatilho que disparou bombas de milhares, senão milhões de dólares.

Hoje, oito anos depois da intervenção “humanitária” na Líbia, o país está imerso no caos. Há dois governos em disputa constante e a democracia que o Ocidente tanto queria ver ser implementada na Líbia está longe de acontecer. Ao invés, o Estado Islâmico e grupos semelhantes ganharam terreno no país, ora perseguindo civis e impondo as suas visões extremistas, ora preparando atentados terroristas dentro e além fronteiras. Os poços de petróleo, o principal objectivo de quem quis a intervenção nos corredores da Casa Branca, Palácio de Eliseu e Downing Street, foram rapidamente alocados às grandes petrolíferas.

François Hollande, líder socialista e um dos coveiros da social-democracia europeia, viu na intervenção uma forma de ressuscitar o eixo franco-alemão na União Europeia e, tal como em tempos o criminoso de guerra Henry Kissinger disse, ser quem, do outro lado do telefone vermelho, atende os desejos de Washington. Foi bem-sucedido por algum tempo e mergulhou um país numa situação completamente caótica. Foi o homem forte de Washington.

Os inimigos mortais de Gaddafi foram em tempos os seus principais aliados. A França vendeu material para os serviços secretos líbios poderem perseguir os seus opositores – aqueles que em 2011 o Ocidente tanto quis apoiar – e a Itália chegou inclusive a acordar com o regime líbio uma estratégia para impedir que os refugiados que fugiam da fome e da guerra pelo Mediterrâneo fossem travados pela Guarda Costeira líbia, aquela que hoje é acusada de crimes contra os direitos humanos, recambiando refugiados para trás em pleno Mediterrâneo.

À semelhança da intervenção norte-americana no Iraque, também a da Líbia foi pela ânsia do petróleo e, no final do dia, a desestabilização no Norte de África é a sua marca mais palpável. Desestabilização, caos que é a imagem de marca das intervenções ocidentais.

Nos dias que correm, Washington e seus aliados querem uma mudança de regime na Venezuela, apoiando a extrema-direita venezuelana e um autoproclamado presidente que nunca foi submetido a votos. Juan Guaidó autoproclamou-se com alguns artigos da Constituição venezuelana que não o permitiam e, ao contrário do que esses mesmos artigos estipulam, não convocou eleições nos primeiros 30 dias do seu cargo fictício, desrespeitando a Constituição em que se baseou. O caos que se vive na Líbia deve servir de exemplo, não apenas para o que as potências ocidentais querem fazer na Venezuela, mas também para todas e quaisquer intervenções cujo único objectivo é a apropriação de recursos e matérias-primas e a mudança de regime, mesmo que sob a máscara “humanitária”.

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