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Marielle. Um símbolo de resistência | Praxis Magazine

Marielle Franco foi assassinada há um ano. Marielle Franco tornou-se um símbolo de resistência contra o silêncio, um símbolo para quem recusa ficar calado perante o avanço do fascismo e da violência policial, sempre contra os mais pobres.

A 14 de Março, a vereadora do PSOl no Rio de Janeiro estava a regressar a casa, depois de um debate com jovens negras na zona da Lapa, quando um carro estranho obrigou o carro em que seguia parar. Foram disparadas várias balas, matando instantaneamente o seu motorista, Anderson Pedro Gomes, e a activista. Depois, fugiram do local. As câmaras de vigilância estavam desligadas e as munições disparadas tinham sido compradas pela Polícia Militar.

As investigações decorreram e durante meses as autoridades não tinham pistas que apontassem para os responsáveis. Sentia-se que os assassinos e os seus mandantes ficariam impunes pelo crime cometido. Mas, surpreendendo tudo e todos, a Polícia Federal deteve no início desta semana dois suspeitos de terem levado a cabo a execução: dois antigos agentes da Polícia Militar no Rio de Janeiro. Chamam-se Ronnie Lessa, de 48 anos, e Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos. O primeiro disparou, o segundo conduziu o carro aquando do atentado.

As ligações entre os assassinos e o clã Bolsonaro têm vindo ao de cima a conta gotas. Primeiro, familiares próximos de um dos assassinos trabalhava no gabinete de um dos filhos do presidente brasileiro e, agora, sabe-se que Ronnie Lessa mora no mesmo que Bolsonaro e o seu filho Carlos, na Barra da Tijuca, onde foi preso. É vizinho de rua do presidente.

Os executantes podem ter sido apanhados, mas ainda falta saber quem deu a ordem. E se essa ordem pode ter partido directamente do clã Bolsonaro ou de elementos próximos a si. Além disso, são várias as suspeitas de envolvimento das milícias estão envolvidas no seu assassinato, as mesmas que têm relações de proximidade com a família Bolsonaro. Neste momento controlam grande parte das favelas da cidade, tendo relações com o narcotráfico, tráfico de armas, infiltrações dentro da polícia, chegando ao controle do abastecimento de serviço básicos como o gás, internet ou a televisão. O confronto político que Marielle Franco fez na sua trajectória política, ao mesmo tempo que a sua popularidade começava a ser reconhecida dentro desses locais, pode ter sido uma das causas para a sua execução.

Há um ano que uma onda de indignação tem varrido não só o Brasil mas também várias cidades um pouco por todo o mundo. Por exemplo, no dia do funeral de Marielle não menos que 25 cidades registaram manifestações e protestos contra o seu assassinato. A frase “Quem matou Marielle Franco?” passou a ser palavra de ordem em muitas manifestações, passou a ser uma exigência pela verdade, mantendo, ao mesmo tempo, as suas ideias vivas. 

Vinda da favela, Marielle lutou pela emancipação das classes mais pobres e das minorias sociais. A sua trajectória política foi marcada pela luta por melhores condições de habitação e educação para quem vive nas favelas do Rio, bem como por melhores condições de vida para as mulheres e negros. Era uma acérrima defensora dos direitos LGBT. Entre as várias iniciativas legislativas que defendeu encontra-se a lei da casas de parto que permite às mulheres terem partos naturais com todas as condições médicas. Nas ruas, Marielle lutava para que os mais oprimidos pudessem ter voz, que começassem a lutar e a emancipar.

Mas a principal bandeira do seu mandato, que iniciou em 2016, foi a batalha contra a violência e repressão policiais e das milícias, que hoje controlam grande parte das favelas da capital carioca. No dia 28 de Fevereiro de 2018, Marielle assumiu a tarefa de relatora de uma comissão de fiscalização da câmara municipal sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro, instituida pelo governo de Michel Temer. 

O clima de tensão tem subido nos últimos anos no Brasil. Reeleito deputado federal, Jean Wyllys foi obrigado a exilar-se por causa das constantes ameaças de que tem sido alvo,. Não só das milícias, mas também de membros ligados ao Partido Social Liberal, partido de extrema direita de Bolsonaro. A sua campanha eleitoral foi baseada nas redes sociais, pois o perigo era bem real. No início desta semana, Márcia Tiburi, filósofa e ex-candidata pelo PT para governadora do estado do Rio de Janeiro, abandonou o Brasil para viver nos Estados Unidos. O actual deputado federal do PSOL, Marcelo Freixo, vive desde há vários anos com protecção policial. Militante activo desde os anos noventa e ex-deputado estadual, foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito às Milícias, que investigou a ligação dos deputados a grupos paramilitares. Um dos irmãos de Freixo foi assassinado por milicianos em 2006 e, em 2015, um dos seus guarda-costas foi abatido. 

Além da perseguição política, o número de homicídios de pessoas transexuais continua a aumentar, fazendo do Brasil o país com a maior taxa de homicídios de pessoas trans do mundo. O rebaixamento da condição da mulher e os casos de femicídio, a perseguição a lideranças como a de Guilherme Boulos do MTST, a João Pedro Stédile do MST e aos vários partidos de esquerda, são algumas das bandeiras que o governo brasileiro hasteia de forma a esconder a sua agenda neoliberal, conservadora e de acumulação de capital.   

Hoje, passado exactamente um ano, estão previstos três actos em Portugal, em Lisboa, Coimbra e Porto. Continua-se a pedir Justiça e toda a verdade sobre o assassinato. Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, dezenas de protestos estão a ser organizados para que a memória de Marielle e a exigência de Justiça não sejam esquecidas. 

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