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Karl Marx, o homem mais odiado do seu tempo | Friedrich Engels

Foi num sábado, 17 de Março de 1883, que Karl Marx foi enterrado num campa ao lado da da sua mulher, Jenny Marx, no cemitério de Highgate, em Londres, no Reino Unido. Marx sempre recusou ser “marxista”, mas a verdade é que foi o fundador do socialismo científico, aglomerando a filosofia alemã, o socialismo e a luta de classes francesa e a economia britânica.

Nos 64 anos da sua vida, o teórico alemão, em conjunto com o seu camarada Friedrich Engels, escreveu uma série de obras que marcariam tanto o século em que foram escritas como os que se seguiram: Manifesto Comunista, A Sagrada Família, A Miséria da Filosofia, os Manuscritos Filosófico-Económicos e a sua obra prima, o inacabado O Capital.

Com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, não faltou quem garantisse que o socialismo enquanto projecto para a sociedade tinha terminado, que, agora, não havia mais ideologias e que o fim da História, com a vitória da democracia burguesa, tinha chegado. Não havia como se lhe escapar, diziam-nos repetidamente.

Esta ilusão que nos tentaram vender acabou abruptamente em 2007-8 com a crise económico-financeira e as ideias de Marx e Engels voltaram à ribalta, ainda que muitas vezes deturpadas do seu sentido revolucionário.

“O Karl Marx está de volta. É pelo menos o veredicto dos editores e das livrarias na Alemanha, que dizem que os seus escritos estão a voar das prateleiras”

The Guardian, Booklovers Turn to Karl Marx as Financial Crisis Bites in Germany. October 15, 2008

“Marx estava certo… sobre o capitalismo”

John Gray, filósofo político e escritor. BBC, 18 setembro 2011

“Marx Was Right: Five Surprising Ways Karl Marx Predicted 2014”

Rolling Stone, 30 de Janeiro de 2014

Quando até os média mainstream, pertencentes à classe dominante, são obrigados a admiti-lo, então é porque algo está a mudar, mesmo que não o possamos ver às claras. Engels foi o camarada que melhor conheceu Marx e, por isso, replicamos aqui o discurso que proferiu aquando do enterro de um dos principais teóricos de sempre. O discurso foi originalmente publicado no Der Sozialdemokrat, no dia 22 de Março de 1883. A tradução para português é de José Barata-Moura.

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Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da Natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o simples facto, até aqui encoberto sob pululâncias ideológicas, de que os homens, antes do mais, têm primeiro que comer, beber, abrigar-se e vestir-se, antes de se poderem entregar à política, à ciência, à arte, à religião, etc; de que, portanto, produção dos meios de vida materiais imediatos (e, com ela, o estádio de desenvolvimento económico de um povo ou de um período de tempo) forma a base, a partir da qual as instituições do Estado, as visões do Direito, a arte e mesmo as representações religiosas dos homens em questão, se desenvolveram e a partir da qual, portanto, das têm também que ser explicadas — e não, como até agora tem acontecido, inversamente.

Mas isto não chega. Marx descobriu também a lei específica do movimento do modo de produção capitalista hodierno e da sociedade burguesa por ele criada. Com a descoberta da mais-valia fez-se aqui de repente luz, enquanto todas as investigações anteriores, tanto de economistas burgueses como de críticos socialistas, se tinham perdido na treva.

Duas descobertas destas deviam ser suficientes para uma vida. Já é feliz aquele a quem é dado fazer apenas uma de tais [descobertas]. Mas, em todos os domínios singulares em que Marx empreendeu uma investigação — e estes domínios foram muitos e de nenhum deles ele se ocupou de um modo meramente superficial —, em todos, mesmo no da matemática, ele fez descobertas autónomas.

Era, assim, o homem de ciência. Mas isto não era sequer metade do homem. A ciência era para Marx uma força historicamente motora, uma força revolucionária. Por mais pura alegria que ele pudesse ter com uma nova descoberta, em qualquer ciência teórica, cuja aplicação prática talvez ainda não se pudesse encarar — sentia uma alegria totalmente diferente quando se tratava de uma descoberta que de pronto intervinha revolucionariamente na indústria, no desenvolvimento histórico em geral. Seguia, assim, em pormenor o desenvolvimento das descobertas no domínio da electricidade e, por último, ainda as de Mare Deprez.

Pois, Marx era, antes do mais, revolucionário. Cooperar, desta ou daquela maneira, no derrubamento da sociedade capitalista e das instituições de Estado por ela criadas, cooperar na libertação do proletariado moderno, a quem ele, pela primeira vez, tinha dado a consciência da sua própria situação e das suas necessidades, a consciência das condições da sua emancipação — esta era a sua real vocação de vida. A luta era o seu elemento. E lutou com uma paixão, uma tenacidade, um êxito, como poucos. A primeira Rheinische Zeitung em 1842, o Vorwärts! de Paris em 1844, a Brüsseler Deutsche Zeitung em 1847, a Neue Rheinische Zeitung em 1848-1849, o New-York Tribune em 1852-1861 — além disto, um conjunto de brochuras de combate, o trabalho em associações em Paris, Bruxelas e Londres, até que finalmente a grande Associação Internacional dos Trabalhadores surgiu como coroamento de tudo — verdadeiramente, isto era um resultado de que o seu autor podia estar orgulhoso, mesmo que não tivesse realizado mais nada.

E, por isso, Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado do seu tempo. Governos, tanto absolutos como republicanos, expulsaram-no; burgueses, tanto conservadores como democratas extremos, inventaram ao desafio difamações sobre dele. Ele punha tudo isso de lado, como teias de aranha, sem lhes prestar atenção, e só respondia se houvesse extrema necessidade. E morreu honrado, amado, chorado, por milhões de companheiros operários revolucionários, que vivem desde as minas da Sibéria, ao longo de toda a Europa e América, até à Califórnia; e posso atrever-me a dizê-lo: muitos adversários ainda poderia ter, mas não tinha um só inimigo pessoal.

O seu nome continuará a viver pelos séculos, e a sua obra também!

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