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O populismo de esquerda de Chantal Mouffe | Ricardo Cabral Fernandes

A esquerda radical está sem programa e estratégia quando, do outro lado, o populismo de extrema-direita avança e o centro neoliberal não consegue fazer frente à sua própria criação. Emmanuel Macron, a última grande esperança do consenso neoliberal, enfrenta mobilizações de massa nas ruas francesas e a sua popularidade atinge mínimos históricos.

Quem o diz é Chantal Mouffe, cientista política e activista, no seu último livro – “For a Left Populism”, da Verso. Para Mouffe, vivemos um “momento populista” em que existe a verdadeira possibilidade de a esquerda regressar e criar disrupção no consenso neoliberal. Caso não o faça, a extrema-direita populista não desperdiçará a oportunidade – e as sucessivas manifestações e perseguições nas ruas e avanços eleitorais no novo e velho continentes parecem comprová-lo. A solução? Assumir sem medos ou recuos uma estratégia populista de esquerda para recuperar conceitos como democracia, igualdade e soberania, avançando-os na prática. Vivemos numa época de pós-democracia e, continua a autora, o que interessa é recuperar a própria democracia pela transformação radical das instituições da democracia burguesa e do espaço público para mudar as relações sociais.

Muitas palavras, frases e tinta já discorreram sobre o fenómeno do populismo, seja de esquerda ou de direita. Há quem se dedique a escrutinar teoricamente a “verdadeira natureza” do populismo, debatendo ad eternum se é uma ideologia ou uma estratégia (o modelo de academia produtivista é disso exemplo), e não falta quem use o termo para atacar e descredibilizar os seus adversários políticos. Populismo é sinónimo de algo básico, simplista e negativo, sem que nunca seja compreendido.

Ernesto Laclau, teórico argentino a que os dirigentes do Podemos, por exemplo, se foram inspirar, definia populismo como uma estratégia discursiva para construir uma fronteira política que divide a sociedade em dois campos antagónicos, apelando à mobilização dos subordinados contra os dominantes. Nós contra eles, os de baixo contra os de cima, o povo contra a elite ou casta. Não faltam sujeitos políticos difusos. Laclau, tal como Mouffe, sempre recusou que o populismo fosse uma ideologia, optando por o ver como uma estratégia que pode ser utilizada de diversas formas, conforme o tempo, o espaço e a ideologia pela qual se norteia. Populismo de direita e populismo de esquerda. À primeira vista e para os mais incautos, parecem o mesmo fenómeno, como se os extremos se tocassem, uma bitola muito usada pelos liberais para evitar a ruptura do consenso hegemónico e, por sua vez, o seu poder.

Mas não são, ainda que os dois tipos de populismos agreguem um conjunto de características e exigências até ao momento incapazes de ter resposta pelo extremo centro – ou neoliberal – que até à crise económico-financeira de 2007/8 pareceu invencível, defende Mouffe. Hoje, sabemos que não o é. A diferença entre os dois populismos reside no próprio discurso que constrói o “eles” e o “nós” e que divide a sociedade. Para a extrema-direita populista, o “nós” são os cidadãos nacionais, sejam da pequena burguesia ou da classe trabalhadora, excluindo os imigrantes, as feministas e todos e todas que não se insiram no seu modelo de sociedade racialmente pura. As forças do populismo de extrema-direita defende, alegam os seus aderentes, a soberania nacional e a restauração de uma democracia genuína, mas não terão problemas nenhuns em abdicar desta última para instituir um Estado autoritário neoliberal se assim o entenderem – algo que farão se depois de chegar ao poder tiverem essa oportunidade. Os seus principais adversários não são o capitalismo financeiro ou a oligarquia, mas o “outro” que vem de fora para, propagam aos sete ventos, roubarem os empregos dos nacionais. Se for necessário, continua a autora, os populistas de extrema-direita optarão por um Estado autoritário para salvaguardar o princípio que para eles é fundamental: a soberania nacional.

Por outro lado, o populismo de esquerda constrói os sujeitos políticos que dividem as sociedades em dois campos completamente antagónicos de uma forma diametralmente oposta. O “nós” é composto pela classe trabalhadora, pelos feminismos, pelas minorias étnicas, interligando as lutas num combate comum contra a oligarquia e cujo objectivo não é menos que recuperar valores democráticos que creem ter sido abandonados nas últimas décadas, como a igualdade, a soberania e a democracia, continua a autora activista. Para isso, advoga a recuperação radical desses valores, sem, no entanto, defender uma ruptura com as instituições da democracia burguesa. Neste ponto, Mouffe não tem quaisquer problemas em caracterizar as suas ideias/estratégia como “reformistas radicais” ou “revolucionário-reformistas”, numa confusão de conceitos e ilusões que não deixa de surpreender. Recusa sempre o que diz ser o falso dilema da reforma versus revolução – e critica a esquerda dita tradicional por estar obcecada nele. Contesta o capitalismo e afirma-se anti-capitalista, mas o seu raciocínio não extravasa a mera ilusão da reforma das instituições democráticas sem tocar, com um dedo sequer, no modo de produção capitalista. Defende o combate ao capitalismo financeiro, mas vê-se incapaz de compreender que este é o estágio mais recente e predador do capitalismo e a sua ‘natural’ evolução. Recusa que se deva voltar ao modelo keynesiano pós-II Guerra Mundial por ser incapaz de fazer frente à crise climática que vivemos, mas também não consegue ter em conta um modelo económico alternativo. É como se o capitalismo fosse o último modelo económico da Humanidade.

“A estratégia do populismo de esquerda procura o estabelecimento de uma nova ordem hegemónica dentro do quadro constitucional da democracia-liberal e não procura uma ruptura com a democracia liberal pluralista e a fundação de um totalmente diferente nova ordem”, pode ler-se numa das passagens do seu livro. Aceita que as classes dominantes poderão responder de forma violenta às exigências dos subordinados, mas não coloca de forma alguma o regime em causa, e muito menos o sistema económico. Sobre a resposta à violência da classe dominante, a cientista política é omissa.

Além de apresentar uma estratégia para combater o centro neoliberal e a extrema-direita populista, Mouffe critica a extrema-esquerda tradicional, umas vezes com razão, muitas outras sem. Por exemplo, censura o que diz ser a “perspectiva essencialista dominante na esquerda” mundial, ou seja, o foco na classe e na forma como as sociedades se dividem de acordo com o modo de produção capitalista. Durante várias décadas a esquerda, continua a cientista política, focou-se nas questões de classe, ignorando todas as outras vertentes nas sociedades, como os feminismos e os anti-racismos, vendo-se incapaz de construir um sujeito político apto a fazer frente ao neoliberalismo.

Em parte tem razão. Os partidos comunistas europeus, as principais forças políticas à esquerda dos partidos sociais-democratas que se transformaram em sociais-liberais, debruçaram-se, com as suas organizações sindicais, quase exclusivamente nos trabalhadores, negligenciando os direitos e exigências das chamadas “minorias”. E, por vezes, até os próprios trabalhadores ignoraram, como os precários. Esse período já lá vai, mas em tempos referir os direitos e a necessidade de os precários se organizarem era encarado como formas de dividir os trabalhadores. Ainda assim, sempre existiram organizações políticas de esquerda, mesmo que orgânica e eleitoralmente marginais, capazes de interligar as lutas numa perspectiva classista. Hoje, essa perspectiva de interligação das lutas está em risco com a ascensão da política identitária. Uma linha política que apenas beneficia o campo da extrema-direita e até o centro neoliberal, dividindo “os de baixo”. Jogar no campo da política identitária é precisamente o que a extrema-direita quer nos dias que correm.

Com os feminismos, anti-racismos e ecossocialismos a ganharem crescente espaço político, as forças do sistema tentam sempre adaptar as suas reivindicações ao sistema para o legitimarem, neutralizando-as. Antonio Gramsci, marxista italiano e uma das principais figuras do marxismo do século XX, em tempos apelidou este fenómeno de “hegemonia através da neutralização” ou “revolução passiva”. Os casos de instrumentalização das Marchas de Orgulho LGBT para legitimar o capitalismo, comummente apelidado de pinkwashing, são disso exemplo. O feminismo liberal é uma outra versão deste fenómeno. Quando as forças do sistema não o conseguem, atiçam e apoiam as forças de extrema-direita.

Hoje, defende Mouffe, vivemos um “momento populista” em que ou a esquerda se chega à frente com uma estratégia populista ou a direita fá-lo-á. O consenso neoliberal está fragilizado como nunca desde que começou a ser implementado sob os governos de Margaret Thatcher no Reino Unido. Para a activista, pode-se falar de “momento populista” quando, “sob a pressão de transformações políticas e socioeconómicas, a hegemonia dominante é desestabilizada por múltiplas exigências sem satisfação”, as instituições se tornam “incapazes de assegurarem a fidelidade do povo enquanto tentam defender a ordem existente”. A partir daí, a formação ideológica hegemónica vê-se desarticulada e surge a possibilidade de se construir um novo sujeito político capaz de representar as exigências que não obtiveram respostas cabazes pela classe dominante.

Nos primeiros anos da crise viveu-se o que Gramsci em tempos definiu como interregnum: um período em que os vários elos do consenso estabelecido se vêem contestados. Occupy Wall Street nos Estados Unidos, Indignados em Espanha, Acampadas em Portugal e Aganakitsmenoi na Grécia, não esquecendo o Nuit Debuit em França. Alguns movimentos sociais viram-se incapazes de transformar as suas exigências num programa político concreto, alicerçado em organizações. Uns conseguiram, como os Indignados, muitos outros não. Depois, com as ruas a perderem força e a capitulação e traição do Syriza na Grécia, em 2015, os vários partidos-movimentos, como, por exemplo, o Bloco de Esquerda, canalizaram as suas energias para as lutas parlamentares, acentuando o processo de burocratização e transformando a própria natureza do partido. Os movimentos sociais passaram a estar subordinados aos ganhos nos corredores das instituições democrático-burguesas. E o partido-movimento mostrou ser insuficiente como modelo organizativo, principalmente em períodos de refluxo. Um novo debate sobre os programas políticos, estratégias e organizações é cada vez mais premente.

A estratégia para um populismo de esquerda que Mouffe apresenta no seu livro corre o sério risco de repetir os mesmos erros dos últimos anos. Ao colocar a tónica da transformação democrático-radical nas instituições burguesas e ao recusar qualquer ruptura, a autora está a canalizar as organizações populistas de esquerda para a via eleitoral, mesmo que não tenha essa noção, o que é duvidoso. O objectivo de radicalização da sociedade é demasiado abrangente e pouco diz. Diluiu-se o próprio objectivo e discurso narrativo para que seja subjectivamente encarado pelo maior número de pessoas, e daí é um pequeno passo para o número de lugares nas instituições ser o único objectivo no horizonte. Ao primeiro relance, o sujeito político do populismo pode parecer homogéneo, mas não o é. Ao invés, aglomera uma multitude de classes e fracções de classe que olham para os conceitos do discurso – como democracia radical, igualdade, justiça social,etc – de forma completamente diferente, algo que se repercutirá quando o programa político e a estratégia tiverem de abandonar as folhas de papel para serem postos em prática.

Ainda que a autora argumente que o objectivo da radicalização da democracia não se limita às instituições do Estado, extravasando para tudo o que for a esfera “pública”, como colectivos, movimentos sociais e por aí fora, é difícil de se ignorar que grande parte da sua estratégia se debruça sobre as instituições e na forma de as radicalizar para as aproximar dos de baixo. E isso é um erro.

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