Entrevistas

Julian Mercille. É chocante não haver médias alternativos na Irlanda | Filipe Teles

No seu escritório na University College of Dublin, na Irlanda, Julien Mercille, especialista em neoliberalismo e na forma como a imprensa cobriu a austeridade no país, mostra-se chocado por não existirem médias alternativos que disputem espaço político aos média mainstream, altamente concentrados numas poucas mãos. Situação que permitiu com que a narrativa da austeridade não fosse contestada no país com a intensidade com que o foi noutros países, como Portugal, Espanha ou Grécia no pós-crise económico-financeira 2007-8.

Sabendo dessa debilidade entre a esquerda irlandesa, Mercille reuniu-se com outros activistas para se avançar com um projecto alternativo, ao mesmo tempo que acompanhava outros que tentavam nascer. Os poucos que avançaram tiveram abordagens mais descontraídas, não se assumindo como totalmente credíveis no panorama mediático e contestário. Ainda assim não perdeu a esperança de um dia vir a participar no projeto progressista que apresente uma perspectiva da classe trabalhadora e que denuncie os benefícios da elite no país. Entretanto, colabora regularmente com o Sunday Business Post e com o The Journal.ie.

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Qual é o papel dos média na reprodução dos interesses das elites no mundo?

Os média são propriedade das elites. Por isso, o que vemos nos média reflete os interesses das mesmas. Tens alguma diversidade de pontos de vista nos media. Mas o balanço dessa diversidade é estabelecido pelos interesses dentro das elites ou pelo establishment do sector.

Se tivermos um tema, vamos dizer um tema económico as elites têm diferentes visões nisto ou naquilo, mas nenhuma quer um governo socialista forte, por exemplo. Quererão, porventura, um governo social-democrata [no sentido social-liberal do termo] ou algo mais à direita e os media vão reflectir isso. Não terás muito mais fora destes parâmetros. O discurso público sobre qualquer problema é determinado pelos interesses dessas mesmas elites. Permanecerá dentro desses parâmetros.

Como é que a publicidade afecta o conteúdo noticiário?

A publicidade é muito importante para os jornais ou para os media em geral. O dinheiro publicitário, colocar anúncios e afins, é uma parte importantíssima das suas receitas. Se perguntares a qualquer produtor executivo ou a um jornalista, eles vão dizer: “Precisamos de ter a certeza que vamos ter dinheiro da publicidade, porque senão não podemos continuar [o jornal não poderá continuar em funcionamento]”. Por isso, se obtiveres dinheiro publicitário do sector imobiliário, como na Irlanda, podes esperar que isso irá perfilhar de alguma forma o conteúdo. Os anunciantes – um agente imobiliário, por exemplo – não irá financiar semana após semana o teu jornal se ao lado do seu anúncio estiver sempre um artigo ou dois a dizer: “Não compre uma casa, há uma bolha imobiliária. Está demasiado caro”. Não gostam ou não vão gostar disso.

A mesma coisa nos EUA. Se tiveres anúncios de fabricantes de armas, como a Boeing ou a Raytheon, não irão gostar que se tenha um artigo anti-guerra ao lado do seu anúncio. Não é que os anunciantes liguem directamente para os jornalistas a dizer “certifica-te que tens isto ou aquilo”. Se és jornalista ou editor e não perceberes isso, provavelmente não estarás na posição em que estás. Se não perceberes isso da mesma maneira que um estudante não precisa que lhe digam para ter boas notas, então…

A Irlanda é um bom exemplo disso porque foi muito importante na bolha imobiliária que levou ao crash e, neste caso, sabemos que alguns anunciantes do sector imobiliário contactaram os editores do Irish Times, que é o jornal mais importante cá,  a dizer: “Ouça, não faça a cobertura da bolha imobiliária. Queremos uma cobertura mais favorável”. Sabemos isso porque o editor-chefe revelou-nos isso há alguns anos atrás. É a mesma coisa. Não determina, mas dá uma direcção ao conteúdo noticioso.

Portanto, no caso Irlandês houve mesmo, de alguma forma, uma pressão directa.

Neste caso, sim. Mas os anunciantes do sector imobiliário não ligaram um milhão de vezes. Talvez duas ou três chamadas a certo ponto. Provavelmente é uma boa maneira de ilustrar, mas não é o mais importante, de todo. O mais importante é a relação institucional. Se receberes imenso dinheiro de um anunciante, ficarás nessa posição. Outro bom exemplo na Irlanda é se fores ao sítio da RTÉ [televisão pública irlandesa] – que é como se fosse a BBC de cá – todos os programas de rádio são patrocinados por marcas como a BMW ou algo assim. Tens uma parte –têm um departamento de marketing enorme –  a dizer que se quiseres patrocinar um programa custa à volta de 50 mil euros por ano, ou algo do género.

Portanto, se fizeres um programa sobre economia, um banco, o AIB, por exemplo. Se o anfitrião estiver sempre a defender que “Devemos nacionalizar todos os bancos. Os banqueiros ganham salários chorudos”. Podes perceber porque é que o banco não quererá patrociná-lo: estariam a disparar contra si mesmos. Não é que a cobertura mediática seja pró-bancos. É só que o conteúdo não será desafiador ou ameaçador. É isso que importa. Terás mais notícias sobre celebridades ou notícias de desporto da treta. Podem até ter piada, mas não ameaçam ninguém.

“Sinto que na Irlanda as pessoas não têm grande formação ou entendimento do que é a transformação progressista em política”

Com a estrutura actual, pelo menos no caso dos média irlandeses, achas que é possível cumprirem o seu papel de quarto poder? Alguma vez cumpriu esse papel, sequer?

Não. Historicamente, não tenho muita certeza. Pelo que sei, nunca foi lá grande quarto poder. Hoje, na Irlanda, o problema é não haver médias alternativos. Isso é que é chocante. Há algumas plataformas, umas cinco ou seis. Mas não são importantes ou suficiente. Não há nenhuma Jacobin, uma The Intercept, Truthout ou Democracy Now. Não temos isso. Temos algumas coisas, alguns escritores que são bons. Mas tudo o que temos são médias de centro ou de centro-direita, à semelhança dos EUA. Além dos média alternativos, o Partido Socialista produz um jornal, mas ninguém o lê, não tem qualquer impacto. Não lhe chamaria uma plataforma alternativa.

Pelas minhas conversas, acho que as pessoas não sabem o que é preciso fazer. Já tentaram fazer algumas coisas, mas nunca vão a lado nenhum. Já estive em reuniões com grupos de activistas e eles querem criar uma espécie de Guardian na Irlanda. Precisas de um orçamento de dois milhões de euros por ano para isso [risos]. Não faz sentido nenhum, em oposição a um bom site e começar como a Jacobin ou parecido. Os sindicatos também se envolvem nisso e por o serem acreditam que se deve pagar bem aos jornalistas. O que está certo, mas depois não tens o orçamento para pagar uma sala de redacção com trinta jornalistas, à volta de 80 mil euros por ano. As discussões não fazem muito sentido desse ponto de vista.

Como é que escapamos a isso? Como é que encontramos recursos?

No meu ponto de vista, não é assim tão difícil. É difícil ter uma boa imprensa alternativa e tudo isso. Mas para começar algo precisas de alguém que saiba fazer um bom site e alguns editores. E é isso. Pelo que percebo, a Jacobin depende muito de académicos (como eu) que já têm um trabalho e pede se pode escrever algo, ou se fores especialista num determinado tópico. Não sei se paga alguma coisa hoje, mas no princípio acho que não. Talvez um pouco, não tenho a certeza. Não foi um bloqueio, pelo que sei.

Nunca recebi dinheiro de qualquer site alternativo para o qual escrevi. Estou tranquilo com isso. Não é o derradeiro modelo, mas permite teres uma imprensa alternativa. Se tiveres um pouco de dinheiro financiado pelos leitores [em inglês, crowdfunded], então aí podes pagar alguns jornalistas novos que não têm rendimentos como eu. Isso vem depois e também tens que ser um pouco conhecido para pedir dinheiro. O The Intercept recebeu dinheiro de um multimilionário, por isso não é de todo um modelo, mas é uma possibilidade. E é isso.

Há doações, fundações que te podem dar algum dinheiro. Aí precisas de alguém que seja bom na requisição de fundos. Mas para começar… Na Irlanda temos o broadsheet. Tentei fazer algumas coisas com eles. É bem sucedido para um site progressista. Talvez maior que a Jacobin em relação à população, mas não correu bem. Não é muito sério, um bocado para a piada. Mas foi possível fazê-lo de forma barata porque só fizeram um site.

“Não houve um grande questionar da austeridade, como tiveste nos Estados Unidos, um país que aplicou menos austeridade”

Sinto que na Irlanda as pessoas não têm grande formação ou entendimento do que é a transformação progressista em política. Acho que isso se entende por modelos, na minha opinião. Se estiveres em Inglaterra, olhas para o Corbyn [Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico]. Podes não concordar, podes concordar, mas ao menos tens um modelo com o qual podes trabalhar. Nos EUA tens alguns senadores e membros da Casa dos Representantes. Tens o Bloco de Esquerda em Portugal. São modelos com os quais podes trabalhar a partir deles. Na Irlanda apenas existe uma memória recente de algo do género. Não tens nada a que te possas agarrar. Como disse, tens alguns indivíduos que são muito bons e que tentaram fazer coisas, mas nunca levou a nada formalizado. Ficas por tua conta.

Nunca organizados.

Existem alguns políticos independentes que poderiam definitivamente ser membros do Parlamento. Poderias ter oito deputado que seriam muito, muito progressistas. Pessoas do género do Bloco ou do Corbyn. Eles existem, mas não estão unidos. As peças do puzzle estão lá. Só que não estão a terminá-lo.

O mesmo para os média. Fui a muitas reuniões para se organizar um novo media, mas e falavam sempre de algo com um orçamento de dois milhões de euros a partir de doações. A sério? Isso quer dizer uma doação a cada trinta segundos por telefone. As pessoas não vão ligar dessa maneira. Não são lunáticos, atenção. São pessoas que sabem como a imprensa funciona. Trabalharam na imprensa muito mais do que eu. Mas eu continuo a dizer: porque não um bom site, encontrar dez ou doze pessoas na Irlanda que saibam escrever e agregar? Se o New York Times tem um bom artigo, publica-se. Se o Guardian tiver um bom artigo, publica-se. É o que todos os outros sites que eu conheço fazem. Podes construir a partir daí e ver se funciona, ver se pega. Não te mates com isso, não gastes todas as tuas poupanças. Mas acho que poderá funcionar porque não há qualquer competição. Não há nada parecido cá. Nunca foi feito. Continuam a dizer que as pessoas gostam de papel e que não podes não pagar aos trabalhadores. Podes pagar um ou dois trabalhadores no início, mas não podes ter uma redacção. Foi este o debate que tivemos.

Como é que a imprensa irlandesa representou a consolidação fiscal durante a crise?

Foi muito favorável à austeridade. Fiz um estudo em que observei todas as peças de notícia e de opinião sobre a austeridade num período de cinco anos, de 2008 a 2013. Cerca de 60% dos artigos eram a favor da austeridade. Apenas 20 por cento – ou mesmo menos – eram contra.

Não o eram preto no branco, mas eram claramente a favor e boa parte da oposição era meramente instrumental. Como por exemplo: “Sou contra a austeridade porque afecta a minha biblioteca local”. Não há problema nisso, mas não é uma posição fundamental para um programa de estímulo económico. Foi esse o tipo de oposição: onde cortar. Não houve um grande questionar da austeridade, como tiveste nos Estados Unidos, um país que aplicou menos austeridade. Pessoas como o Paul Krugman, prémio Nobel, mais ou menos progressista, mas muito mainstream –apoiou a Hillary Clinton…

E o Josehph Stiglitz, também Prémio Nobel da Economia.

Sim, e o Stiglitz. Esse pessoal estava sempre a dizer que a austeridade era estúpida. Na Irlanda não tivemos muito disso. Tens algumas pessoas, mas não tão consistentes como eles [Krugman e Stiglitz]. Na verdade, não é de todo uma posição radical dizer que a austeridade não resulta. Pode ser uma posição mainstream, não devia ser confinada às margens. Mas na Irlanda não foi muito forte.

Que jornais apoiaram mais a austeridade?

O Sunday Business Post, provavelmente. São tipo o Financial Times da Irlanda – não com a mesma qualidade – um jornal de negócios semanal. Como são um jornal de negócios, eram a favor da austeridade. Até diria que são um dos melhores jornais da Irlanda, de longe. Ao menos estão a escrever para a imprensa empresarial e os seus leitores são pessoas de negócios. Não é que estejam a iludir muito.

A imprensa irlanda “tem sido sempre muito alinhada com a elite”

O Irish Independent também. É um jornal diário e muito à direita. É detido pelo Dennis O’Brien – o Ruport Murdoch da Irlanda. O Irish Times é um jornal mais centrista. Eles apoiaram [a austeridade], mas tinham vozes a falar sobre os efeitos dos cortes nos cuidados de saúde e esse tipo de coisas.

Isso pode ser explicado pelo seu tipo de estrutura? Pelo seu modelo de propriedade?

Sim. O Irish Indepent é um típico jornal gerido como se fosse um negócio. Propriedade, como disse, do Murdoch da Irlanda. É um típico jornal de direita – ou de comentário centrista. O Irish Times é detido por um fundo, por isso as forças comerciais são menos fortes. No entanto, continua a ser um [comercial]. Não é um Guardian, de todo. O Guardian é muito mais à esquerda se comparado com o Irish Times.

Também pode ser porque o Irish Times sempre teve leitores – economicamente mais priveligiados – com uma visão mais liberal, intelectual e profissional. Reflecte isso. É parte do establishment, que é muito profissional e liberal em temas sociais – tendencialmente do sul de Dublin. É um pouco como o New York Times.

É difícil dizer se as organizações que são detidas por um fundo influenciam o conteúdo das notícias. Provavelmente sim, mas também pode ser parte do establishment que é mais liberal e é legítimo ter um jornal para eles.

E a RTÉ, a estação pública da Irlanda? Foram mais justos na cobertura da crise?

Não olhei para eles de forma sistemática, mas compararia ao Irish Times. Detida pelo Estado, um pouco mais liberal, mas mesmo assim muito mainstream e parte do establishment. Quando têm pessoas de esquerda convidadas para os seus programas, são muito atacadas. É muito óbvio. São muito pró-governo e pró-austeridade.

A imprensa irlandesa é muito concentrada. Achas possível terem alguma relativa autonomia dos seus proprietários ou da elite irlandesa?

Não. Acho que não. Quer dizer, há uma autonomia formal. Os jornalistas dizem sempre que os seus patrões não lhes ligam, o que é verdade. Mas em termos de visão de política estão muito alinhados com a elite. A Irlanda é um caso muito directo. Não é como os Estados Unidos, como disse. Não há tradição – pelo menos não hoje – de jornais como Guardian. Nem actualmente nem no passado, pelo que sei. Tem sido sempre muito alinhada com a elite. É um bocado chata nesse sentido, mas é interessante porque consegues ver o que acontece quando tens uma imprensa muito comercial. Não é interessante em termos de diversidade. Não é plural, é muito concentrada. Até há relatórios parlamentares que falam disso como um problema cá. É um facto muito conhecido.

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