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Por uma terra sem amos? | Frederico Mira George

Nas épocas da reacção triunfante

Face aos mais brutais avanços do capitalismo, democratas, social-democratas, republicanos-trabalhistas, demais senhores representantes da «esquerda», rapidamente se unem em discursos de salvação pátria para justificar os digressos à direita de que se tornam protagonistas. Destilam teorias de inevitabilidade e medo, convencendo-se de que é melhor estar com «eles» e garantir a continuidade no sistema, do que lutar contra «eles» e correr riscos que, claro, fariam sonar a sétima trombeta do juízo final.

Estes senhores representantes da «esquerda», que descartam a radicalidade anti-capitalista, enfileiram no reformismo mais trôpego, persuadidos de que por dentro da máquina neo-liberal (contra a qual dizem estar), sempre se vai aliviando alguma coisa. Ou seja, se o os grandes conluios do capital não consentem serviços de saúde universais e gratuitos, sempre se pode baixar um bocadinho o preço dos pensos rápidos; se degradam o ensino público, consolem-se os estudantes com uma miniatural redução no preço dos passes sociais; se o desemprego atinge proporções grotescas, aumenta-se uma niquice ao subsídio. Em resumo, a estes senhores, não lhes dão a faca e o queijo para a mão, mas conformam-se com a esmola de barrar margarina no pão.

E os marxistas? E os revolucionários?

Aqueles que face ao esmagamento do capital, ambicionam alcançar a ruptura necessária com o reformismo (seja lá qual for o rosto que tome), conscientes de que sem essa fractura nada se irá inverter no insaciável império da propriedade privada, da burocracia de estado, das ofensas militaristas que resultam do frenético aproveitamento dos recursos naturais e da sujeição dos povos, conforme a doutrina implacável do mercado, onde estão e o que fazem, comunistas… socialistas-revolucionários?

Talvez a pergunta deva assumir outra forma, que é feito das nossas organizações de combate? Das ligas de construção do partido do proletariado? Dos movimentos populares de onde irrompem as fricções sociais com que se faz a revolução?

Ainda de outra maneira. Comunistas, socialistas revolucionários, nós marxistas, que combate socialista estamos a travar neste período de transição em que mais importa radicalizar a nossa luta, em que mais é urgente distanciarmo-nos da direita, do novo fascismo, da barbárie capitalista, sem recostos ao centro, sem benevolências para com as astúcias da social-democracia e suas políticas de austeridade?

Estamos em minoria!

Os movimentos que formámos, cada vez mais próximos dessa «esquerda» de nome mas social-liberal nas práticas, passaram a apenas integrar a agenda da gestão austeritária que o capital impõe, avivando a aparência das pequenas benesses governamentais que não mais alcançam do que os tais pensos-rápidos um bocadinho mais baratos, já que falha o Serviço Nacional de Saúde, a tal reduçãozinha dos custos com o ensino ou o mísero aumento do (talvez possível para alguns) subsídio de desemprego, enquanto a condenação a uma vida sem trabalho se perpetua e com isso a dignidade de existir implode.

O Esquecimento é a doença senil da democracia

É neste contexto de colaboração com a esquerda social-liberal, em nome de um suposto progresso mínimo garantido, que as organizações que compõem o movimento da esquerda revolucionária se afastam da sua identidade-raiz. Inevitavelmente, a burocratização das estruturas políticas (especialmente as partidárias que, em consequência da aproximação à social-democracia, passaram a integrar as instâncias de poder da democracia burguesa) e a sequente redução dos espaços de livre debate, conduziram ao afastamento daqueles que não deixaram de reivindicar a contestação a essa colaboração.

Ora, não há arma mais eficaz para o silenciamento da «voz discordante» do que a arma do esquecimento e para tal nem é preciso muito fazer, já que a democracia burguesa é portadora genética de uma senilidade que garante olvido.

Lamentavelmente, esta doença senil da democracia é contagiosa e transmite-se pelo modo de vida. Quem no seu quotidiano vai galgando entre a casa da cidade e a casa de campo, não sente na pele a aflição de garantir uma habitação condigna; Quem se desloca em formosos automóveis, não sonha o que é estar preso num local, completamente dependente de transportes públicos, deficientes, insuficientes e caros; Quem saltarinha entre as suas actividades lúdicas em passeios de avioneta ou a cavalo e vai desfruindo o deslizar do Verão na piscina do jardim, ignora o que seja não ter acesso/direito a férias, ao descanso, a simplesmente ir ao cinema (uma vez no mês que fosse), ou até ter algum tempo livre para ir buscar um livro a uma biblioteca minimamente perto de casa. É por isso que o modo de vida separa a acção revolucionária da acção reformista. É preciso viver aquilo que se defende. E neste capítulo, também entre aqueles que se proclamam revolucionários, a doença senil da democracia burguesa se espalhou e teve, e tem, consequências. Ao contrário do catolicismo romano, não é possível ser revolucionário, mas não praticante.

Unir sem esquecimentos

Há quem diga que todas estas questões são do passado, que já não é bem assim, que contas feitas se conseguiram grandes avanços: Portas que Abril abriu, Portas sempre a abrir. Há quem diga que mais vale acompanhado, mesmo mal, do que pregar no deserto e que é preciso ser realista, SER CONTEMPORÂNEO. Há quem diga que são esquerdismos (e se o esquerdismo é a doença infantil do comunismo, ainda assim, a infantilidade é bem mais promissora do que que a senilidade já referenciada). Mas afinal que mundo é este em que vivemos? Não estão os fascistas a tomar o poder através das tão democráticas eleições, gozando das oportunidades que a social-democracia e liberalismo económico lhes abonou? Não estamos nós perante um agudizar dos abismos de classe? E o renascimento das expressões xenófobas de estado, não as testemunhamos diariamente (fiquemos só pela tragédia que vivem os migrantes que fogem da guerra, dos genocídios, da fome e são tratados pelas democracias como moscas indesejadas)? Que mais exemplos é preciso dar para nos acordar a consciência de que este caminho macilento dos basebóis parlamentares, nada de realmente fracturante consegue realizar capaz de inverter a marcha da cada vez mais cruel exploração do capitalismo? Pior, que ajuda a perpetuar essa marcha que em crescendo faz do mundo um tabuleiro de monopólio. De que nos serviu a lição Syriza na Grécia? A lição PT no Brasil? Certamente que a «Geringonça» portuguesa não reflecte a radical transformação social que aos nossos olhos impera acertar, muito menos um futuro governo «geringonceado», vai a cima, vai a baixo e rapa o tacho e rapa o tacho.

Cabe-nos re-unir, re-fazer, re-descobrir, o combate socialista. Voltar a integrar a rede internacionalista de acção que nos permite uma luta conjunta, solidária, fraterna, lado a lado com revolucionários de todos os países: a nossa luta é internacional.

A nossa luta faz-se em conjunto. Sem deixar gente para trás. Sem desistir de qualquer um de nós. Sem ignorar críticas, ideias, trabalho. Sem petits comités. E, solidários: «Aprender, aprender, aprender sempre».

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