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Breves apontamentos sobre as eleições no Brasil | João Freitas

As eleições presidenciais no Brasil terão uma segunda volta. Os resultados parciais da primeira volta ainda estavam a sair quando o receio e o medo de que o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, pudesse ganhar logo na primeira ida às urnas ganharam fôlego. Poucas horas depois percebeu-se que não, que teria de ir a uma segunda volta, mas nem por isso o receio e o caos dos resultados de ontem deixam de representar uma tremenda ameaça para os trabalhadores no Brasil.

Se olharmos para o eleitorado que votou no candidato do Partido Social Liberal, caracteriza-se como um eleitorado masculino com estudos e de classe alta, que defende a ordem no país e os valores da família tradicional. Na sondagem realizada pelo Datafolha, 45% dos eleitores com licenciatura iriam votar em Bolsonaro. Na mesma sondagem, o candidato enfrentou uma grande resistência das mulheres por causa dos vários comentários machistas e homofóbicos. Também o voto evangélico foi determinante, onde 42% dos evangélicos votaram no candidato de extrema-direita, em grande parte pelo apelo de vários líderes das igrejas, incluindo o famoso bispo da IURD, Edir Macedo. O capitão paraquedista na reserva conseguiu explorar os sentimentos de insegurança e anti-corrupção para arrecadar os votos que quase lhe deram a vitória à primeira volta, além de se apresentar como anti-sistema, quando há anos que vive no seu seio.

Com isto, Bolsonaro ficou-se pelos extraordinários 46%, enquanto o seu principal adversário, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, manteve o segundo lugar, tal como as sondagens previam, com 28% dos votos. O “centro”, como os politólogos tanto gostam de o apelidar, desapareceu, com Marina Silva, da Rede e Geraldo Alckmin, do PSDB, a terem resultados desastrosos. A primeira não ultrapassou o 1% e o segundo os 5%. Os seus eleitorados foram engolidos por Bolsonaro. Ciro Gomes, do PDT, conseguiu uns 12,3% dos votos, ficando em terceiro lugar e afastado da segunda volta. Guilherme Boulos, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e membro do PSOL, alcançou o pior resultado de sempre de uma candidatura do partido, com 0,5% dos votos.

A primeira volta das presidenciais deste domingo  ficou marcada pela polarização entre os anti-petistas e os resistentes à extrema-direita, obliterando o “centro” político. Agora, na segunda volta, a polarização ainda será maior e a dinâmica política que se assistiu na campanha da primeira volta aprofundar-se-á nas três semanas de campanha até à segunda. E, para corroborar o objectivo de polarização, Gustavo Bebianno, um dos conselheiros da campanha de extrema-direita, disse que na segunda volta vai ser “porrada”. “É porrada. Se tiver um segundo turno, o confronto vai ser directo. Com o PT não tem conversa. Vamos com força, não vamos ter piedade com os erros e os males do PT”, disse o conselheiro ao Estado de São Paulo. A violência nas ruas pelas mãos dos fascistas não pode ser afastada pela esquerda.

Quem ontem salvou a noite foi o eleitorado do Nordeste do Brasil, histórico bastião de esquerda, principalmente do PT, nas eleições desde 1989. Mas no resto do país, os resultados não foram de todo favoráveis ao partido do antigo chefe de Estado Lula da Silva. Nos principais estados, o partido perdeu o governo de Minas Gerais, a candidatura do Rio de Janeiro teve um resultado irrisório e em São Paulo ficou em quarto lugar. A ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, viu ser-lhe negado o lugar no Senado, ficando em terceiro lugar nas eleições no estado de Minas Gerais. Importa realçar que as sondagens falharam na grande maioria das suas projecções, fazendo com que os resultados constituíssem surpresas.  

Entretanto, os candidatos apoiados por Bolsonaro, como o juiz e ex-militar Wilson Witzer, do Partido Social Cristão e que se encontrava em quinto lugar nas sondagens, obteve um resultado surpreendente: obteve 42% dos votos, disputando a segunda volta para governador do Rio de Janeiro. Não foi o único bolsominion a destacar-se no Rio de Janeiro. Também um dos filhos do candidato de extrema-direita e que concorreu ao Senado, Flávio Bolsonaro, ficou em primeiro lugar na corrida eleitoral. Já em São Paulo, Eduardo Bolsonaro tornou-se o deputado mais votado de sempre com mais de 1.850.000 votos. Ao mesmo tempo, Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff e que recentemente aderiu ao PSL, recebeu mais de dois milhões de votos para ser eleita deputada estadual. 

Ao contrário do que a perspectiva eurocêntrica e de senso comum nos pode levar a pensar, o eleitorado do Bolsonaro consiste em grande medida em pessoas com elevada educação e rendimentos, que temem perder os seus privilégios se o PT voltar ao poder – algo que não iria exactamente acontecer por o partido ter feito, mais uma vez, um pacto com a burguesia para conquistar o poder. Bolsonaro ganhou no Norte, Oeste e Sul do país.

A esquerda radical é outra das grandes derrotadas da noite. Boulos alcançou o pior resultado de sempre desde a criação do partido. Ainda que o PSOL tenha conseguido eleger dez deputados federais e de a campanha pelo voto útil dos campos anti-petista e antifascista lhe tenha sido desfavorável, a sua campanha pecou por não ter encetado uma estratégia mais radical, baseada nas ruas e na organização popular. Em vez de se distanciar do legado de Lula, a campanha de Boulos aproximou-se do PT, não se apresentando como real alternativa. Por exemplo, as referências à auditoria à dívida soberana, histórica reivindicação da esquerda radical brasileira, foram parcas, senão inexistentes.

A diferença de 20% que separa Bolsonaro de Haddad será difícil de ultrapassar a favor do segundo. Em todas as eleições presidenciais, tal distância apenas foi encortada, dando a vitória ao segundo classificado, nas eleições presidenciais portugueses de 1986, entre Freitas do Amaral e Mário Soares. Enquanto os resultados eleitorais deste domingo são digeridos, Bolsonaro e Haddad devem estar a movimentar-se nos bastidores, oferecendo cargo nos seus hipotéticos futuros governos, aos candidatos do centro derrotados em troca dos seus apoios políticos na segunda volta. Bolsonaro apenas precisará de cinco por cento para chegar ao Palácio do Planalto, uma margem que a todos os antifascistas não pode deixar de aterrorizar. Um futuro governo de Bolsonaro terá como espinha dorsal o apoio dos militares nostálgicos da ditadura e que não são poucos. Os militares são precisamente uma das camadas da população mais privilegiadas nos dias de hoje e, com Bolsonaro, continuarão a sê-lo enquanto ameaçam a democracia-burguesa brasileira.

O Brasil é o mais recente palco da onda conservadora e autoritária que tem varrido o plano internacional no pós-crise económico-financeira de 2007/8. Donald Trump nos Estados Unidos; Matteo Salvini na Itália; Viktor Orbán na Hungria; Duterte nas Filipinas; entre outros. Uma onda a que a esquerda mundial não tem sabido dar resposta e não apenas a brasileira.

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