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REPORTAGEM | “Prédio abandonado tem de ser expropriado”, ouviu-se nas ruas de Lisboa

Mais de três mil pessoas percorreram ontem as ruas de Lisboa para denunciarem a crise da habitação que se vive no país. “A cidade é nossa!” e “Prédio abandonado tem que ser expropriado” foram algumas das palavras de ordem que se ouviram.

 

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Habitação. Palavra consagrada como direito fundamental na Constituição da República Portuguesa, mas que, hoje, na prática, diz tão pouco com o avanço do capitalismo predatório. Despejos, casas abandonadas, rendas com preços exorbitantes, pessoas a viverem nas ruas com malas e bagagens. É esta a realidade que se vive em Lisboa, mas também no Porto e, agora, um pouco por todo o país. Quem vive do seu trabalho vê-se sem alternativas de habitação e empurrado para as periferias das cidades, onde os transportes públicos escasseiam e as rendas começam a acompanhar a tendência do centro da cidade. O turismo, esse, não pára, enchendo os bolsos de empresários e empresárias, enquanto os seus trabalhadores não sentem o aumento dos lucros nos seus bolsos. A precariedade é uma realidade a que poucos conseguem fugir. À precariedade laboral juntou-se a precariedade habitacional.

Indignados por serem privadas do direito à habitação, mais de duas dezenas de colectivos e movimentos organizaram e apelaram à mobilização para a “Manifestação pela Habitação”, tanto em Lisboa como no Porto. Na capital, mais de três mil pessoas saíram ontem às ruas.

“É um direito [à habitação] que está a ser profundamente desrespeitado, seja para portugueses ou para os não portugueses, para pessoas que querem fazer, produzir e fazer coisas aqui em Lisboa”, disse Andrea, músico italiano que veio para Portugal à procura das oportunidades de trabalho que não encontrou em Itália. “É uma vergonha aquilo que está a acontecer a esta cidade”, afirmou revoltado. “Há um grave problema de habitação no nosso país. Existe um grande investimento no turismo em detrimento dos habitantes, da cidade e do povo”, acrescentou Camila, de 22 anos e estudante de Filosofia.

O sol não parava de bater forte quando os manifestantes se começaram a concentrar no Largo do Intendente de Pina Manique. Com pacartas, faixas e carrinhas com música e microfones, avançaram pela Avenida Almirante Reis abaixo, gritando palavras de ordem. Por algumas horas, contestaram a hegemonia neoliberal e recuperaram o espaço público, colocando o direito à habitação como reivindicação principal numa cidade que se quer para todos e todas e não apenas para alguns, para aqueles que têm dinheiro e posses. “Lisboa a saque”, “Acabem com os [vistos] Gold”, “Especulação = desumanização”, lia-se em algumas das muitas pacartas que integravam a manifestação. Noutras, agora em inglês e dedicadas aos turistas, podia-se ler “Hands off our houses [Larguem as nossas casas]”.

“É importante que as pessoas tenham a oportunidade de estar nas ruas, ocupar os espaços públicos, para colocarem questões de falta de acesso a direitos básicos, e um deles é o direito à habitação”, explica Cláudia, investigadora de 35 anos. Foi precisamente esse sentimento de união coletiva que motivou Ricardo Proença, também com 35 anos e funcionário público, a estar presente: “Muitos amigos meus têm dificuldade em procurar uma casa condigna, com condições, com espaço”. Os salários não acompanham o aumento das rendas.

Com paragens e avanços, a multidão foi percorrendo as ruas de Lisboa sob as palavras de ordem “Queremos casas! Queremos casas!” e “Pelas nossas vidas! Pelas nossas casas! Lutamos!”. À frente, uma carrinha com activistas a gritarem palavras de ordem, ao meio uma outra do Rock in Riot, com bandas a tocarem sem parar, e, no final, ainda uma outra com música. Pessoas a dançarem ou simplesmente a desfrutarem acompanhavam as carrinhas. Não só de palavras de ordem se faz uma manifestação, com a música a ser também uma forma de expressão da revolta sentida.

Nas paragens, a carrinha da frente, pertencente à organização, dava o palco para que moradores e moradoras erguessem a sua voz contra a injustiça que vivem no dia-a-dia. Uma delas foi a de Ricardina, moradora do Bairro da Torre, em Loures, onde um incêndio provocou mais de três dezenas de desalojados no final de julho. “São as casas mais precárias que já vi”, disse a moradora no microfone. À denúncia, a multidão que a ouvia respondeu-lhe com fortes aplausos. Ricardina ganhou renovada coragem e voltou à carga: “Pessoas a viverem sem as necessidades básicas. Sou portuguesa, mas não tenho direito a nada”. Com nada, a moradora referia-se à falta de electricidade e saneamento no bairro, há muito negligenciado pelas entidades responsáveis. Os testemunhos sucederam-se e a multidão sentou-se – já se estava no Rossio e à sombra.

“Não arrombámos casas, ocupámos. Casas sujas e com bichos”, explica Rita, moradora da Alta de Lisboa que se viu obrigada a entrar numa casa abandonada pertencente à Câmara de Lisboa para poder abrigar os seus filhos sob um tecto. “Fizemo-lo para ter uma casa para os meus filhos”. Explicou que por inúmeras vezes se candidatou a uma casa camarária, mas que os concursos não avançam e, no desespero, não teve outra alternativa senão arrombar a porta. Quis transformar uma casa abandonada numa habitável e a Câmara não deixa.

Gitelles Ferreira, ativista anti-racista e que luta pelos direitos das comunidades ciganas, subiu para cima da carrinha e pegou no microfone. Começou por dizer que não vinha falar de despejos, mas sim da histórica discriminação da comunidade cigana, que sempre se viu privada do direito à habitação. “Os ciganos não têm direito à habitação há décadas. Estão a viver nas ruas”, denunciou. E, pelo meio, contou um pormenor que parece ter surpreendido alguns dos manifestantes: depois do terramoto que devastou a capital portuguesa, em 1755, muitos dos trabalhadores que a reconstruíram eram de etnia cigana. No entanto, o direito a viverem na cidade que ajudaram a reconstruir sempre lhes foi privado, situação que se mantém até hoje. “Esta Lisboa foi reconstruída por ciganos que nem podem viver nela”, denunciou. “Não somos nómadas por opção, somos despejados a bastão”, denunciou. Évora, Beja, Vidigueira, Lisboa e Porto são algumas das localidades onde isso já aconteceu. “80% [da comunidade cigana] não podem escolher onde viver. São forçados ao nomadismo, a acampamentos e a guetos”, explicou.

Depois dos testemunhos, a carrinha que liderava a manifestação lá seguiu caminho. Voltaram-se a ouvir palavras de ordem e sempre que se ficava mais próximo do Rio Tejo, mais turistas paravam, curiosos, para ver o que se passava. Uns perguntavam aos manifestantes o que se estava a passar e quais as reivindicações; outros simplesmente olhavam, despertando, talvez, para uma realidade que desconhecem nos poucos dias que têm para conhecer Lisboa; outros quantos, uma minoria, tiravam fotos, chegando a aplaudir os manifestantes que lutam por um direito fundamental. “Abaixo os despejos”, disse, em solidariedade, uma senhora que empurrava um carrinho de bebé.

Percorria-se a Rua do Ouro quando, interpelando a carrinha principal, uma senhora, vestida com uma t-shirt com palavras a denunciar os despejos, revela o que em tempos não tão longínquos lhe foi dito. “Disseram-me que sou velha de mais para morar em Lisboa”. Aplausos e palavras de solidariedade da multidão. Chama-se Filomena Santos, tem 58 anos e é reformada por invalidez. É uma das muitas pessoas que têm sido empurradas para fora de Lisboa, onde são esquecidas.

A carrinha voltou, lentamente, a andar. “Prédio abandonado tem de ser expropriado”, ouviu-se. Um conjunto de músicos com tambores deu um novo alento à manifestação, com alguns aplausos de quem via a manifestação a passar. Chegou-se à Praça do Município, onde uma ação simbólica já estava a decorrer. A manifestação parou por alguns minutos. Quase duas dezenas de pessoas estavam deitadas em fila, representando as vítimas da crise da habitação, não apenas em Lisboa, mas também por todo o país. Aos poucos, mais manifestantes se foram juntando em solidariedade. “Em memória das vítimas da crise da habitação. Junta-te a nós”, lia-se em pacartas seguradas por dois activistas. E assim se fez.

Pouco mais de dez minutos depois, a manifestação voltou a avançar pelo percurso previamente estabelecido em direção à Ribeira das Naus, onde iria terminar. Mais discursos e bandas a se ouviram. Turistas a olhar e peruntarem o que se passava. Uma turista francesa perguntou a uma manifestante o que estava escrito numa pacarta que segurava. “É contra a gentrificação. Os preços das casas são incomportáveis”, explicou a manifestante em inglês. Sem precisar de mais explicações, a turista acenou com a cabeça. “Temos o mesmo problema em Paris”, respondeu.

Por onde a manifestação passou, a cidade parou. E a palavra de ordem “a cidade é nossa” nunca fez tanto sentido como reivindicação. A cidade pode voltar a ser nossa, só basta termos a força para a tomarmos nas mãos. E isso depende de nós.

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