Entrevistas

Mauro Vanetti. Temos de regressar ao marxismo para saber quais as tarefas das organizações dos trabalhadores | Praxis Magazine

Milita há anos na esquerda italiana e tem estado na linha da frente na luta antifascista em Pavia, sua cidade natal, próxima Milão. Sofreu ameaças de morte e envolveu-se em combates de rua com os fascistas, enfrentando pelo meio processos judiciais por se opor à xenofobia e racismo nas redes sociais. Mauro Vanetti, de 39 anos, passou por Portugal e o Praxis Magazine conversou com o activista sobre o avanço da extrema-direita no país, as políticas do novo governo e quais os desafios com que a esquerda anticapitalista italiana se confronta nos dias de hoje.

Vanetti prefere não fazer comparações históricas entre os “velho” e “novo” fascismos, relembrando que “ainda não houve uma derrota gigantesca da classe trabalhadora” e que a “burguesia tem algumas suspeitas sobre o fascismo”. No entanto, não tem meias palavras quando alerta para a ameaça que as organizações fascistas representam, podendo vir a ser usadas pela burguesia italiana para dominar a classe trabalhadora, a tarefa histórica do fascismo. Pelo meio, e no caminho para a tomada do poder que tanto anseiam, os fascistas usam “o racismo, a xenofobia e a propaganda anti-LGBT para apoiarem o capitalismo”. E avisa que “combater a xenofobia com mais xenofobia não tem qualquer sentido”, numa crítica ao governo do antigo primeiro-ministro do Partido Democrático, Matteo Renzi. O antifascista recorda que a extrema-direita italiana começou a conquistar terreno muito antes deste governo, ora atacando refugiados ora beneficiando das políticas e discurso anti-imigração dos partidos da burguesia.

Com esperanças no futuro, o activista antifascista não tem dúvidas de que é necessário “estabelecer uma divisão entre a esquerda e os liberais”, com a primeira a “voltar ao marxismo” para que se consiga perceber as sociedades de hoje e “quais as tarefas que as organizações da classe trabalhadora têm pela frente”.

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Nos últimos anos assistimos ao crescimento da Liga, um partido de extrema-direita, até chegar ao governo. Como descreverias esse crescimento?

A Liga Norte nasceu num período em que o sistema político italiano sofria uma enorme crise na década de oitenta e início da de noventa, quando era conhecido como “Primeira República”. Depois, deu lugar à “Segunda República” e todos os partidos tradicionais – Partido Comunista Italiano, Partido Socialista e a Democracia Cristã – colapsaram ou mudaram os seus nomes e as suas perspectivas. A Liga Norte foi uma espécie de sentimento anti-establishment da pequena burguesia e classe média de uma parte do norte do país.

Nos últimos anos, o papel do partido mudou bastante e agora tornou-se num partido nacional com a liderança de Matteo Salvini, que conseguiu alterar o sentido independentista que tinha. Este sentido não era sério, pois não existe uma questão relacionada com a divisão norte-sul em Itália. Agora é um partido com uma posição anti-imigração. Continua a ter bastante influência na classe média e nas zonas rurais, mas também tem ligações com a classe trabalhadora, especialmente no Norte. A Liga vai agir como agiu no passado: mostrar ser um partido propagandista na oposição, mas que quando está no governo faz o mesmo que os restantes partidos burgueses. No entanto, é um partido anti-imigração e racista e, por isso, perigoso pela retórica e discurso que usam nos média.

Segundo a Constituição italiana, o fascismo é proibido, mas ainda assim existem partidos com referências fascistas, como a ForçaNova e o Casapound. Quais têm sido as suas estratégias e como é que eles se organizam?

A Itália deve ser a única parte da Europa Ocidental onde fascistas e organizações fascistas podem organizar-se livremente como qualquer outra organização. A Constituição proíbe a reorganização do partido nacional fascista, mas nunca é aplicado. Também existem algumas leis sobre propaganda racista e sobre símbolos associados ao fascismo, mas também não são aplicadas. Por isso, podem actuar de modo livre. Aliás, existem pequenos partidos que em eleições locais utilizam a palavra fascismo e conseguem ser eleitos. Têm pequenas organizações, mas não existe o risco de chegarem ao poder no sentido clássico. A forma de a extrema-direita chegar ao poder é através da Liga – e essa é a ameaça real. Têm ligações com a Liga e tentam infiltrar-se nos partidos burgueses e pequeno burgueses de direita. São bastante perigosos e usam a mesma retórica que o Aurora Dourada, na Grécia, e organizam eventos sociais para ajudar italianos pobres ao distribuírem comida em bairros populares, mas antes pedem a identificação para dividir entre italianos e estrangeiros.

“A Liga Norte foi uma espécie de sentimento anti-establishment da pequena burguesia e classe média de uma parte do norte do país”

Ainda que não sejam tão fortes como o Aurora Dourada, organizam-se com princípios militares para ameaçarem e agredirem ativistas de esquerda, LGBT, refugiados e migrantes. Às vezes, também acontecem ataques em Roma e noutras cidades. Por exemplo, na minha cidade natal tivemos vários problemas com eles. Abriram um centro perto de uma associação de jovens de esquerda e nos dias anteriores às eleições legislativas de 4 de março colocaram autocolantes nas casas desses militantes a anunciar “aqui vive um fascista”. Em resposta, organizámos uma contra-manifestação no dia das eleições, distribuímos os mesmos autocolantes para afirmarmos o nosso orgulho antifascista.

Itália é um país bastante contraditório por existirem muitas pessoas com boas impressões sobre o fascismo, enquanto que outros milhares de pessoas têm sentimentos antifascistas. É uma das razões porque se consegue mobilizar.

Consegues ver diferenças entre o “velho” fascismo e o fascismo do “hoje em dia”?

Em Itália, o “fascismo histórico” conquistou o poder depois de uma derrota histórica da classe trabalhadora, quando, em 1919 e 1920, houve ocupações de fábricas, de terras, greves de massa. As condições de trabalho e salários melhoraram graças aos sindicatos e camponeses, mas depois este movimento foi derrotado militarmente com uma ação conjunta entre grupos paramilitares fascistas e o Estado liberal monárquico. Em 1922, Mussolini teve um bom resultado numa lista conjunta com os libereis e, em 1924, ganhou as eleições depois da Marcha sobre Roma, quando o rei lhe entregou o poder. Isto não voltará a acontecer com tanta facilidade.

Em primeiro lugar, porque ainda não houve uma derrota gigantesca da classe trabalhadora, o que os impede ainda de o fazer. Segundo, a burguesia tem algumas suspeitas sobre o fascismo, o que nos obriga a ter cuidado na análise que fazemos. Ainda assim, acredito que existe uma ameaça fascista no sentido de que as suas organizações são uma ameaça e de como poderão ser usadas pela burguesia. Temos de analisar o fascismo de forma balanceada e mesmo que os fascistas não tomem o poder, os ataques já estão a acontecer. Em Itália, há mais de dez casos de ataques contra imigrantes ou negros, alguns deles italianos. Por exemplo, dois miúdos cuspiram num senhor idoso por apenas ser negro e depois disseram: “Somos apenas miúdos, fizemos algo estúpido”. Um outro caso aconteceu num comboio quando uma revisora obrigou todos “os malditos ciganos e pedintes para saírem do comboio”. Estas palavras foram gravadas e foram feitas queixas, mas o ministro do Interior é o líder da Liga. Salvini disse que a revisora que atacou os ciganos e os sem-abrigo devia receber uma medalha – e quem fez a queixa foi perseguido. É o que anda a acontecer em Itália.

Como caracterizas o novo governo italiano?

É difícil encontrar uma resposta curta para essa pergunta, porque a Liga Norte é um partido de extrema-direita e teoricamente é um partido minoritário na coligação, ainda que seja mais ‘barulhento’, o que faz com que pareça que sejam o maioritário. O maioritário é o Movimento 5 Estrelas, que é populista, de culto e fundado por um multimilionário comediante que usa um blogue para organizar o seu próprio “não” partido, como eles o descrevem. Parece algo invulgar, mas o 5 Estrelas aumentou as expectativas dos trabalhadores, é visto como progressista, algo associado às fraquezas da esquerda nos últimos anos, e como alternativa ao Partido Democrático. Este, por seu lado, é, em teoria, de centro esquerda, elitista, burguês, mas apoiou tudo o que um partido conservador apoiaria. Sabemos que o 5 Estrelas ser uma alternativa ao PD é uma piada de muito muito mau gosto, mas infelizmente muitos trabalhadores não entendem isto. Por isso, o resultado é este governo invulgar onde dois partidos têm discursos populistas semelhantes, mas com programas diferentes, com as reformas progressistas prometidas pelo 5 Estrelas ao eleitorado a serem impedidos pelos partidos de direita.

“Combater a xenofobia com mais xenofobia não tem qualquer sentido”

Ao mesmo tempo, é claro que os partidos do governo têm apenas implementado as partes do programa que assinaram e que podem ser facilmente aplicadas por não terem consequências para a burguesia. Por exemplo, atacar os imigrantes.

Uma das questões que têm marcado o novo governo italiano tem sido a dos refugiados. Como entendes a gestão do governo até ao momento?

O governo tem-na gerido habilmente ao colocar a culpa pela crise dos refugiados na União Europeia. Não faz qualquer sentido por todos os países da Europa e do Mediterrâneo estarem a viver esta crise nos últimos anos – e isso nada tem a ver com as políticas da União Europeia. No entanto, a verdade é que a UE tem piorado a situação ao colocar refugiados noutros países ao mesmo tempo que recusa uma real solidariedade entre os seus Estados-membros. A Itália tem sido um dos principais destinos do fluxo de refugiados, ainda que o Líbano, a Turquia e a Jordânia também o sejam, na Europa Ocidental, por razões geográficas. A direita tem conseguido culpar a UE por não nos ajudar, o que de facto não é verdade. A EU tem financiado o país ao longo da crise, além de a maioria dos refugiados não querer permanecer em Itália. Querem ir para França, Alemanha ou Reino Unido, mas estes países têm vindo a impedir a sua entrada. Daí se ter criado um grande embaraço por o governo italiano se recusar a que barcos com refugiados atracassem, obrigando Espanha a acolher o Aquarius. Foi um gesto positivo por não terem para onde ir, mas serviu para o governo italiano dizer: “vejam, ao tomarmos esta posição conseguimos que outros países aceitem também a sua responsabilidade”. Mas não é verdade, porque já antes faziam essa mesma partilha de responsabilidade, mas não resultou, aumentando o racismo.

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Para identificar os antifascistas, os fascistas italianos colocam estes autocolantes nas portas das casas dos primeiros

Todavia, existiram reacções ao aumento do racismo. Por exemplo, organizei em Pavia, a minha cidade, em conjunto com outros camaradas, uma concentração em apoio ao navio Aquarius para que os portos fossem abertos para o acolher. Neste momento, a opinião pública encontra-se dividida. Muitas pessoas apoiam o governo pela forma como tem gerido a crise, o que é claramente negativo por estarem a criar uma situação de enormes proporções, quando os refugiados são menos que 1% da população. Por outro lado, os imigrantes italianos já são 8%. Porque é que todos falam de um problema quando existem milhões de emigrantes? É claramente propaganda do governo.

O Movimento 5 Estrelas ganhou as eleições com a promessa de avançar com um rendimento básico incondicional, aumentar os direitos dos trabalhadores, etc. Achas que estão a cumprir as promessas?

O rendimento básico já saiu da agenda. É improvável que implementem em breve e se o fizeram será uma versão tímida do rendimento, talvez mais próxima com a que existe no Reino Unido. Existe aí uma contradição, pois o ministro da Economia é um neoliberal e está bastante em linha com as medidas de austeridade europeias. Por isso não consigo ver como é que o vão convencer a aceitar isso. Também fizeram algumas reformas suaves que reverteram algumas das leis anti-laborais implementadas por Matteo Renzi [primeiro-ministro italiano entre 2014-2016], mas foram mesmo muito, muito suaves, com poucas pessoas a beneficiarem. Por exemplo, uma das coisas que fizeram foi reduzir o tempo máximo para contratos de trabalhos temporários de 36 meses para 12 meses, o que na verdade não altera nada e, para alguns trabalhadores, até poderá piorar a sua situação. Outra promessa feita foi a de acabar com [os projectos-legislativos do] Jobs Act e ainda não fizeram isso.

Quando o Movimento 5 Estrelas surgiu fez de acabar com os privilégios dos políticos uma das suas bandeiras. Qual o motivo do sucesso do populismo em Itália?

O sentimento anti-políticos tem sido bastante popular desde os anos 90 por causa dos escândalos de corrupção que terminaram com a I República. Isto é convenientemente usado por todos: Berlusconi, Renzi, Salvini, pelo Movimento 5 Estrelas. Todos podem criticar os políticos porque desta maneira não se falam sobre os patrões, a classe capitalista, banqueiros e proprietários, que são os actuais culpados por toda esta situação. Por isso, todos os governos têm cortado de modo tímido alguns dos privilégios, mas no fundo não alteraram esta situação.

Desde o inicio deste ano que vemos um aumento de ataques derivados do racismo e da xenofobia. Achas que o governo tem sido responsável por estes episódios?

O Partido Democrático e muitos liberais da esquerda pequeno burguesa têm usado os mais recentes ataques contra imigrantes, ciganos e pessoas LGBT como uma forma de mostrar que este governo tem aumentado os casos de xenofobia, racismo e intolerância no país. Em parte é verdade, mas não devemos olhar fora das proporções por estes ataques terem começado ainda antes deste governo. No que toca à preocupação entre xenofobia e racismo, o governo anterior usava o mesmo tipo de propaganda contra os imigrantes. Por exemplo, o anterior ministro do Interior, Marco Minniti, assinou um acordo com o governo líbio para prevenir que barcos com refugiados chegassem a Itália. Muitos dos refugiados acabaram nas mãos de torturadores e a fazerem trabalho escravo. E tudo isto foi feito para prevenir a xenofobia, porque o argumento deles era: “se deixarmos entrar muitos imigrantes vão existir casos de xenofobia, por isso vamos mantê-los fora”. Isto é um disparate, combater a xenofobia com mais xenofobia não tem qualquer sentido.

Como é que o movimento antifascista tem combatido estes ataques e qual é a tua experiência no movimento? 

Os grupos que usam o mote antifascsitas têm tácticas diferentes. Alguns são mais convencionais e outros estão mais associados ao confronto nas ruas, mas existem muitas manifestações de massas sob a bandeira do antifascismo, o que é muito positivo. Isto foi especialmente verdade no inicio deste ano, particularmente depois do ataque brutal na cidade de Macerata, onde um antigo apoiante da Liga Norte e agora um fascista disparou dentro do seu carro contra dez nigerianos. Vingou-se deles quando não eram responsáveis pelo assassinato de uma rapariga italiana há uns dias atrás. Isso fez com que houvesse um levantamento popular e varias manifestações fossem organizadas por toda a Itália, algumas delas com milhares de pessoas. Entre o ano passado e este ano já estive envolvido em cerca de dez manifestações contra o racismo e fascismo na minha cidade natal, com a grande maioria a serem respostas a provocações. Num caso, fomos gravemente atacados pela polícia quando estávamos a tentar parar uma marcha do género da que aconteceu em Charllottesville [nos Estados Unidos]. Foi a maior marcha que fizeram em Pavia, o que comprova que é um assunto sério para os trabalhadores e jovens em Itália.

Já sofreste alguma ameaça derivada do teu activismo?

Tem sido algo que se tem tornado normal entre os activistas de esquerdas em Itália nos últimos anos. Já tive problemas com os fascistas. Já tive problemas com os fascistas. No ano passado, fui pessoalmente agredido em frente a uma sede da Casapound. Os meus camaradas tiveram de me proteger e de acalmar a situação, connosco a decidir não os atacar. Apesar de tudo, isso não impediu que eu e um outro camarada fossemos agredidos. Como nos defendemos não foi uma situação particularmente grave, mas às vezes as situações são preocupantes e com isso já tivemos algumas vítimas no movimento antifascista nos últimos 20,30 anos.

Também já fui atacado por um político, que depois foi forçado a abandonar o seu cargo na vereação da cidade ao estar envolvido num escândalo relacionado com a máfia. Fui processo e tive de ir a julgamento por apenas ter escrito algumas frases no Facebook. Começou a ser comum alguns activistas de esquerda serem processados por políticos, fascistas, mafiosos e racistas por aquilo que escrevem no Facebook ou nalguma outra rede social. Consegui ganhar sempre os julgamentos, mas mesmo quando se ganha é preciso pagar. Naquele caso foram 1500 euros, o que mesmo assim foi pouco por o advogado ser meu amigo e de esquerda. Consegui pagar menos que o habitual, mas ainda assim tive de organizar colectas para pagar os honorários.

Existe agora um caso de um camarada que é sindicalista em Modena e que foi processado por fazer parte de uma manifestação que no fim ocupou um cinema antigo. Ele não fez parte da ocupação mas mesmo assim foi processado e isso tem acontecido a milhares de pessoas do movimento anti-despejos contra.

Que conselhos darias aos novos activistas que estão a começar a lutar contra a extrema-direita?

Penso que existem duas coisas importantes neste momento. A primeira é tentar ligar-nos ao máximo com os trabalhadores. Ainda que seja mais fácil fazê-lo com os jovens, se não houver raízes com a classe trabalhadora, então os fascistas nunca poderão ser derrotados. Não serão derrotados nos confrontos nas ruas, mas sim com a consciência das massas.

A segunda é tentar encontrar os temas que realmente criam ligação entre as lutas antifascistas e a luta anticapitalista. O fascismo não é uma questão histórica, ainda que alguns fascistas sejam estúpidos e façam referências públicas a [Benito] Mussolini ou a [António Oliveira] Salazar, muitos outros não o fazem. Por exemplo, no Reino Unido a extrema-direita fascista está a usar diferentes símbolos e, na Alemanha, está a acontecer o mesmo. Por isso é que é preciso explicar que hoje em dia o fascismo usa o racismo, a xenofobia, a propaganda anti-LGBT para apoiarem o capitalismo. É necessário relacionar estas questões com as anticapitalistas e organizar partidos, sindicatos, outras organizações e colectivos.

Qual tem sido a estratégia da esquerda italiana para combater a extrema-direita?

Se falarmos da esquerda em geral, existiram várias estratégias que em muitos casos se mostraram ineficientes. Fala-se muito da Constituição, o que é uma palavra vazia para muitas pessoas. Eu próprio não acredito na Constituição por ter sido o resultado da luta da resistência e, ao mesmo tempo, significa a derrota dessa mesma luta. Foi dominada pelos partisans comunistas como o meu avô, que também lutava por justiça social e por uma nova sociedade e não foi isso que sucedeu. Tivemos algumas conquistas democráticas, mas continuou a existir capitalismo e o mesmo aparelho de Estado que comandava o fascismo. E muito disto é também sobre sentimentos humanistas e claro que estamos a favor do altruísmo e dos sentimentos de empatia, mas isto não vai partir a concha que os fascistas criaram para se protegerem a eles próprios.

“É preciso explicar que hoje em dia o fascismo usa o racismo, a xenofobia, a propaganda anti-LGBT para apoiarem o capitalismo”

Uma coisa que fizemos quando os fascistas estavam a recolher comida apenas para os pobres italianos foi ir falar com as pessoas para dizer que estavam a ser enganadas pelos fascistas. Que estavam a usar a pobreza e a miséria para dividir os trabalhadores com base na cor de pele e na nacionalidade, algo que só ajuda os ricos. Foi muito eficaz por termos falado de problemas diários. Outra coisa que fizemos foi começar a fazer recolhas de comida como eles fazem, mas de forma mais consistente, o que tem servido para os manter longe. Por exemplo, estou envolvido no movimento anti-jogo e apesar de não ser uma prática que a esquerda geralmente tenha, penso que pode ser dada uma prespectiva anti-capitalista ao movimento. Se não o fizermos, alguém o fará para espalhar o populismo e as ideias racistas.

É preciso “estabelecer uma divisão entre a esquerda e os liberais, pois foi precisamente isso que deu origem à esquerda”

Qual a estratégia que achas que a esquerda deve adoptar?

Acho que devemos voltar ao fundamental: o trabalho com a classe trabalhadora, sindicatos, com os jovens nas escolas e nas universidades, entender as necessidades sociais. Em vez de criticar este governo por coisas superficiais ou fazer criticas pela direita, como faz o Partido Democrático. Este critica e goza com os apoiantes deste governo por esperarem receber o rendimento básico incondicional. Nós deveríamos fazer o contrário e questionar o governo sobre o porquê de não o fazerem, pois as pessoas estão à espera disso, ou as razões pelas quais ainda não acabaram com o Jobs Act. Outra coisa que a esquerda deve fazer – e que não aprendeu nos últimos anos e, em parte, é um dos motivos desta crise – é estabelecer uma divisão entre a esquerda e os liberais, pois foi precisamente isso que deu origem à esquerda. O Partido Democrático é visto como sendo de esquerda, mas apenas eles devem ser responsabilizados pelo que fizeram no governo e não a esquerda. Ainda que as acusações não sejam sempre verdadeiras, a verdade é que têm funcionado por a esquerda ter sido, frequentemente, cúmplice com muitas medidas neoliberais. Para o perceber, é preciso voltar ao marxismo, pois de outra forma não se consegue perceber que tipo de sociedade é esta e quais as tarefas que as organizações da classe trabalhadora têm pela frente.

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