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Entre o Pós-Fordismo e a nova direita social I | Primo Moroni

Introdução de João Santos

Apesar de ser uma personagem relevante no seio da nova esquerda italiana, a figura de Primo Moroni está longe de ser conhecida em Portugal. Intelectual revolucionário, fundador da livraria Calusca em Milão e um dos grandes organizadores da cultura independente, Primo Moroni deixou um longo legado às diferentes gerações de militantes, estando sobretudo associado ao que ficou conhecido como o longo maio italiano.

O texto da sua autoria que aqui apresentamos foi publicado em 1993 e foca-se essencialmente no caso italiano: a pesada derrota do movimento operário nos anos 80 e a ascensão da Liga Norte. Contudo, longe de ser um artigo datado, estamos perante a análise aprofundada de tendências que então começavam a ganhar forma e que hoje se vivem de forma extremada um pouco por todo o mundo.  

A recomposição a que assistimos da extrema direita mostra-nos como este movimento se consegue apresentar enquanto defensor de uma soberania nacional que desafia as instituições burocráticas liberais, apresentando um pseudo-discurso anti-sistémico assente num populismo racista, mas, ao mesmo tempo, convive e articula-se com as dimensões de exploração da economia 4.0 introduzidas pela globalização que dizem combater.

É devido à tentativa de compreensão desta relação entre pós-fordismo e a emergência nova direita nacionalista e racista que nos pareceu pertinente a tradução e publicação deste artigo.

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Os anos 80 foram um período obscuro e atormentado em Itália. Muitas foram as mistificações e ideologias criadas para conciliar os processos reais (entre eles o pensamento fraco, a nova renascença, Itália enquanto um grande país industrial etc). Na verdade, foram anos em que o capital quer ao nível nacional, quer internacional se reestruturou e operou uma profunda modificação interna que muitos definem como uma verdadeira “revolução”.

Em torno destes processos “altos”, o grande ciclo da heroína, a expansão do “capital elícito”, a destruição processual das subjetividades, a generosa e dramática resposta da contra-cultura juvenil, e, finalmente, os operários fechados nas fábricas, impotentes e presos à angustia do seu próprio futuro.

A pesquisa do Consorzio Aastera da primeira metade dos anos 80 (1894-1985), apresentou perante nós um ambiente social devastado, um imaginário coletivo colapsado, identidades individuais esvaziadas. Lembro-me da frase exagerada, mas significante de um velho trabalhador: “Somos comos os judeus, agora espera-se a ‘solução final’.

Àquela investigação nunca publicada, gostaríamos de dar o titulo “O medo operário”. O medo, de facto, parecia ser a tonalidade emotiva dominante, a “Stimmung” prevalecente entre os trabalhadores que viviam enquanto um grupo de náufragos. O seu horizonte era pesadamente ocupado pelo problema das drogas, em que quase todos, surpreendentemente, mostravam ter uma experiencia direta ou indireta através de familiares ou conhecidos. A imagem do ambiente laboral aparecia dominado pela irrupção da inovação tecnológica, percebida na sua tão brutal quanto real valência de substituir o trabalho humano.

Poucos anos mais tarde, em 1988, lidámos com um ambiente laboral completamente diferente, aquela da “fábrica” terciária, a Ciba Geigy de Origgio, na qual os operários representavam uma pequena minoria. A atmosfera encontrada era muito diversa, provavelmente devido à forte presença de técnicos, e quadros, mas ao nível do trabalhador os sintomas de desconforto regressaram, embora um pouco abafados. O rendimento considerado insuficiente, a falta de satisfação com o trabalho, a perceção de ocupação de uma posição social estacionária, se não em declínio, o medo de que a inovação tecnológica ameaçasse o posto de trabalho.

Esta perda de protagonismo, este silêncio do mundo do trabalho podia apenas colocar profundas questões acerca das origens e processos de transformação produtiva que tiveram lugar nos anos 80 (mas que na verdade começaram em meados dos anos 70).

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Operárias numa fábrica com o modelo fordista

Entre o fim dos anos 70 e durante os anos 80 teve lugar uma transformação epocal em Itália que tendeu para o fim da prévia estrutura produtiva e, ao mesmo tempo, redesenhou uma grande parte das culturas sociais de regiões inteiras do país. Como é óbvio, esta mutação do modo de produção perturbou universos de referência, comportamentos coletivos e relações intersubjectivas. Também colocou em crise todo o sistema de formas de representação política que se havia formado nos últimos trinta anos e que na “verticalidade” do sistema de partidos assegurava uma certa dialética entre maioria e oposição.

O inicio dessa mutação pode ser localizado, mesmo que pareça paradoxal, no biénio entre 1975/76 e foi precisamente quando a esquerda institucional atingiu o máximo histórico da sua força eleitoral.

Um vasto mandato popular e classista resultou numa votação massiva para o PCI berligueriano e outras forças de esquerda esperando uma mudança radical na governação da sociedade que no mito do “sorpasso” (isto é, a superação dos votos centristas e moderadas) encontrava a palavra chave na imaginação coletiva. Como é bem conhecido, esse grande resultado não foi “respeitado” pelos líderes comunistas que optaram por um acordo com a Democracia Cristã e outras forças moderadas. Nascia assim o governo de “unidade nacional” ou de “solidariedade nacional”.

As consequências dessas escolhas políticas são conhecidas, o Partido Comunista Italiano (PCI) e os sindicatos geriram na primeira pessoa a repressão de movimentos antagonistas e deitaram ‘fora’ literalmente a grande experiência dos “conselhos de fábrica” enquanto o patronato de forma mais ou menos violenta expulsava dezenas de milhares de vanguardas da fábrica, que haviam sido formados em décadas de luta. Desta forma a reestruturação produtiva pode rapidamente marchar em direção ao total aproveitamento por parte das elites capitalistas. Eram sem duvida uma viragem autoritária que sem a ajuda do PCI e do sindicato teria sido muito mais problemática e, de qualquer forma, a função da “esquerda” teria sido governar e contratualizar conflitualmente a transição produtiva.

À luz do presente, muitas das nossas análises daquele tempo parecem parcialmente limitadas porque mesmo que tenham compreendido que uma “revolução interna” do sistema político estava a decorrer, talvez não se tenha percebido que isso era uma necessidade intrínseca da esfera da produção não foi completamente compreendido que se estava a dar uma autêntica viragem epocal nas estratégias do capitalismo maduro. Isto é, partindo por exemplo, do conceito de “derrota operária” que indubitavelmente existia, mas era também consequência de profundas implicações e que acabou por alcançar exclusivamente a dimensão política da mesma, na verdade, e acima de tudo, foi e mantém-se um gigantesco processo de transformação social pura e simplesmente conduzido pela necessidade de mudar o modo de produção em profundidade. Uma necessidade que interveio com considerável atraso no caso italiano quando comparado com a habilidade conflitual e maturidade alcançada tanto pelos movimentos antagonistas, como pela força organizacional do corpo central da classe operária. Neste sentido, era compreensível que a mutação tenha tido contornos muito mais dramáticos do que em outros lugares e para se realizar a si mesma tinha “que se livrar” dos movimentos antagonistas e da centralidade operária. Provavelmente não tínhamos refletido o suficiente sobre o que tinha acontecido nos Estados Unidos desde o fim dos anos 60, quando o processo de “desactivação” de grandes empresas industriais havia transformado radicalmente a fisionomia de inteiras áreas sociais do país.

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Uma antiga fábrica em Detroit, Estados Unidos

Para referir o melhor exemplo conhecido, podemo-nos lembrar o caso de Detroit, Estados Unidos, e do processo de desindustrialização que aí ocorreu. Detroit já não é mais uma cidade industrial há muitos anos e a sua histórica classe operária negra e branca, violenta e inteligente, dissolveu-se no imenso marcado laboral norte-americano. A procura por mão-de-obra pouco conflitual e barata assim como nova tecnologia determinaram a mudança, numa primeira fase, de uma parte relevante do processo de produção no sul dos Estado Unidos e nos anos 80 diretamente no México e nos outros Estados. O mesmo fenómeno ocorreria então noutros sectores da produção industrial levando a uma radical desindustrialização dos EUA no qual a terceirização da produção é o fator mais visível. No interior da fábrica taylorista e fordista houve uma transformação graças aos robots e à informática, muitas vezes “implementados” em novas e pequenas fábricas, construídas em áreas menos sindicalizadas no país. Depois foram deslocalizadas para a Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong, Formosa, Filipinas e por aí fora. Os efeitos são conhecidos: empobrecimento naqueles que eram os centros pulsantes de produção e da vida operária, com consequente degradação das periferias económico-sociais e “enriquecimento” de novos enclaves ligados à produção industrial e capital financeiro. E é nestas áreas que testemunhamos o renascimento de ideologias ligadas aos particularismos étnicos e raciais e à consolidação dos “pequenos nacionalismos” dos despossuídos. O aprofundar da pobreza étnica e racial deixou poucos objetivos para os mais novos de cada grupo, para além da defesa do seu território1.

Para falar sobre a realidade atual, precisamos partir dos processos estruturais da segunda metade dos anos 70 e da violenta ofensiva de reestruturação que os caracterizou. Uma ofensiva que foi, além do resto, tornada necessária pela falta de fiabilidade dos novos jovens que enfrentavam o mercado de trabalho; mas que era igualmente irrevogável para os processos competitivos intervenientes determinados pela irrupção de tecnologias flexíveis no modo de produzir bens nas sociedades do capitalismo maduro2 3.

Uma longa transição

A derrota do “corpo central da classe” simbolizada pela FIAT nos anos 80, significava que em conjunto com as culturas e formas de luta da classe operária mais moderna e madura do período do pós-guerra, também o modo de produção a que essas práticas conflituais eram a resposta entrou em declínio. Em certo sentido, foi o declínio do modelo organizacional Fordista-Taylorista da produção de mercadorias e o fim da vida dos trabalhadores. De qualquer forma, não há duvida de que a transição da “produção de massa” para a chamada “lean production” é um facto consolidado, não apenas no sector da mecânica ligeira, mas no complexo industrial como um todo. E esta tem no seu centro a tentativa de superar algumas das características definidoras do modelo organizacional Fordista e Taylorista, que marcaram a história industrial do século XX4.

Pretendendo dizer com isto que o movimento de conselhos de fábrica, que ocupa o papel político da “centralidade operária” entram em decadência como resultado dos processos repressivos; mas, ao mesmo tempo, a resposta patronal teve a oportunidade de ter sucesso não apenas pela força dos aparatos repressivos, mas também e, acima de tudo, pela força e capacidade inovadora determinada pela consolidação de novas tecnologias flexíveis. Assim, pode-se afirmar ao mesmo tempo que o movimento dos “conselhos de fábrica” desapareceu em conjunto com o modelo de organização do trabalho do qual era expressão. Inovação tecnológica e o processo de globalização da economia são dois fenómenos intimamente relacionados que afetam profundamente o terreno sociocultural e estão a causar uma torção conceptual que investe os próprios fundamentos do “nosso estar no mundo”5.

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Trabalhadores da Fiat em protesto por aumentos salariais em Turin, Itália, na década de 80

Pode sublinhar-se que estes processos tiveram dois efeitos disruptivos na composição social que deriva a sua razão de ser da configuração do sistema produtivo. Por um lado, o grande bloco homogéneo de trabalhadores que era inerente à configuração fordista foi desmantelado, mais ou menos dramaticamente.

Desta forma, as bases materiais do mundo da classe operária foram dissolvidas na forma como conhecíamos no período do pós-guerra. As formas de cooperação da grande fábrica fordista assim como as formas de socialização do trabalho operário eram a grande matriz de comportamento que davam lugar à “sociedade solidária”. Com eles, as razões para a solidariedade no sentido tradicional do termo também desapareceram.

Por outro lado, a área exterminada de trabalho dependente tem vindo a ser progressivamente erodida pela emergência de posições profissionais independentes que expandiram enormemente a esfera do auto-emprego. O mundo do trabalho dependente tem sido, por assim dizer, invadido e desarticulado pela “lógica empresarial”, dando origem a uma grande simulação de uma miríade de micro-empresas individuais, que escondem novas formas de cooperação e subordinação, mas que, no entanto, destilam um clima social diferente daquele gerado pela cooperação social da configuração fordista6.

Existe certamente muita ênfase e muita falsificação nas análises daqueles economistas e daqueles sociólogos que falam tout-court numa sociedade de produção imaterial ou que sumarizam no termo terciarização (sem especificar o conteúdo) as transformações produtivas que estão a ocorrer. Nos anos 80 testemunhámos uma gigante obra de “ocultação” do trabalho. Na verdade, a percentagem de trabalhadores manuais não mudou muito desde os anos 50 até hoje7.

No entanto, a deslocalização dos fatores produtivos tem vindo a ser profundamente modificadas, com os efeitos de dispersão e invisibilidade do mundo do trabalho respeitante às ilhas de sindicalismo organizado, enquanto os perfis profissionais têm sido profundamente alterados8.

A libertação do trabalho que foi o fio condutor, ora destapado, ora escondido de todos os conflitos iniciados pelo trabalhador fordista agora aparece (para uma grande parte) realizado paradoxalmente, na forma de um simulacro, nesta gigantesca obra de remoção social. Estamos no meio dessa narrativa mistificadora que dá pelo nome de “terceirização” e que descreveria o êxodo do trabalho de fábrica opressivo para a prometida terra da liberdade e do trabalho independente9.

Parece evidente que não é exatamente o caso, mas, no entanto, centenas de milhares de sujeitos produtivos ‘vivem-no’ emocionalmente, materialmente e individualmente neste modo com profundos efeitos de desorientação dentro das fronteiras e perfis de classe.

A segunda parte do artigo pode ser lida aqui.


 

Notas:

1. Ver B. Cartosio, Stati Uniti: la mutazione capitalistica in atto, in “Altreragioni”, 2, 1993.

2. “A própria existência de um novo modo de produzir implica a perda de valor do capital, físico e humano, investido em processos produtivos anteriores, e menos eficientes, com extenso fechamento de fábricas e expulsão de mão de obra. No continente europeu as fases da destruição econômica do antigo capital físico e da subsequente e lenta criação do novo capital necessário para os novos processos produtivos não são completamente distinguíveis e abrangem um período de 1975 a 1984.”; M. Deaglio, La nuova borghesia e la sfida del capitalismo, Laterza, Bari 1991.

3. Vejam-se também as considerações de Marco Revelli in Fiat: la via italiana al post-fordismo, in AA.VV., Il nuovo macchinismo, Datanews, Roma 1992: “É com a primeira metade dos anos 70 que a administração da Fiat deve tomar nota das limitações sociais estruturais do modelo de produção de Valletta, em correspondência com o caráter não-ocasional, reabsorvível da explosão conflitual no final da década anterior e continuou com extraordinária ausência de elasticidade. Não foi uma perturbação transitória, nem um problema simples de redistribuição do rendimento solucionável por meio de salários, mas da forma específica com que “aquela” força de trabalho estava dentro daquela “organização” do trabalho quando a arma da divisão e do medo desapareceram […] Decidiu-se lidar com essa “composição de classe”, com seus níveis estruturais de rigidez, com sua insubordinação específica de produção, através da arma “objetiva” da tecnologia. Renunciar, em essência, a uma colisão frontal julgada de elevado custo e jogar a carta de inovação”. O texto citado no início da nota recolhe os trabalhos do seminário promovido pelo Circoli Comunisti sul tema Lavoro e qualità totale nella fabbrica integrata e flessibile, i casi Fiat, Zanussi e Italtel, svoltosi a Venezia il 7 e 8 Febbraio 1992.

4. Ver M. Revelli in Fiat: la via italiana al post-fordismo, cit. No que toca à enfase na mudança de época veja-se também: J. P. Womack, D. T. Jones, D. Roos, La macchina che ha cambiato il mondo. Passato, presente e futuro dell’automobile secondo gli esperti del MIT, Introduzione di G. Agnelli, Rizzoli, Milano 1991.

5. Ver L. Berti, Sull’invisibilità del problema operaio nella società post-industriale, in “Iter”, n° 1,1991.

6. Ibidem

7. Ver L. Gallino, Tecnologia, organizzazione e società, Etas Libri, Milano, 1992.

8. Ibidem

9. In L. Berti,

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