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Macedónia, o peão no xadrez do imperialismo ocidental | Roberto Garza

Nas margens do lago Prespa, na Macedónia, Tsipras e Zaev, sorridentes e de mãos dadas, celebraram o acordo sobre o futuro nome da Macedónia como uma conquista. Nas fotografias, os dois chefes de governo ficaram para a História como os líderes que sanaram um conflito entre Escópia e Atenas com quase três décadas. As proclamações de vitória são, no mínimo, exageradas.

Ao contrário do que possa parecer, o conflito não é mais que um choque de nacionalismos, assumindo-se principalmente como um de geopolítica e interesses imperialistas na região dos Balcãs. De um lado, os Estados Unidos e a União Europeia, do outro a Rússia e a China. No meio, a Grécia e a Macedónia. Os primeiros querem que a Macedónia adira à NATO e à União Europeia para isolar a neutralidade pró-russa da Sérvia e salvaguardar o acesso ao porto de Salónica, na Grécia, em caso de conflito regional, pela Rússia. Esta última tenta a todo o custo evitar que o cerco se feche mais ainda.

A região dos Balcãs sempre foi marcada por choques étnicos e religiosos, alterações de fronteira e choque de imperialismos. Foi-o nos últimos séculos e continua a sê-lo nos dias de hoje. Até aí, nada de novo. Mas agora, com o acordo entre Atenas e Escópia, o xadrez geopolítico na região vai sofrer alterações significativas – a maior desde os acontecimentos da década de 90. A Macedónia verá a oposição grega à sua adesão à NATO e União Europeia desaparecer, deixando de ter qualquer obstáculo à integração nestes dois blocos geopolíticos. Embora Estados Unidos e UE pareça, cada vez mais em rota de colisão, neste assunto continuam a ser unha com carne.

E não há melhor pessoa que o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, para explicar os progressos feitos nas relações entre a Macedónia e a NATO na última cimeira da organização em Bruxelas. “Com o acordo sobre o nome, vamos convidar Escópia a iniciar as negociações para que se converta no 30.º aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte já no próximo ano”, explicou na conferência de imprensa pós-reunião com os chefes de Estado e de governo dos 29 Estados-membros da NATO. O cerco fechou-se um pouco mais para a Rússia.

O choque entre Escópia e Atenas

A desintegração da Jugoslávia de Josef Tito após a sua morte não foi menos que um cataclismo para os Balcãs. Guerras civis, intervenções imperialistas, limpezas étnicas e genocídios. De todo este cenário, um novo Estado independente emergiu: a República da Macedónia, mas também um conflito diplomático com Atenas em torno de qual o nome com que a Macedónia se deveria apresentar ao mundo. Confrontado com o medo de possíveis reclamações territoriais da Macedónia relativamente ao norte da Grécia, que também se dá pelo nome de Macedónia, as classes dominantes gregas, representadas no bipartidarismo Nova Democracia-PASOK e na Igreja Ortodoxa, não hesitaram em firmar um pacto de regime para isolar diplomaticamente Escópia.

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Concentração contra o acordo entre Atenas e Escópia em Salónica em janeiro de 2018

Em Abril de 1992, esse pacto materializou-se sob a narrativa da “unidade nacional”, com comícios nacionalistas a serem organizados em Atenas e Salónica com milhares de pessoas. Uma onda nacionalista que se estendeu até ao Synaspismos, ainda que mais tarde, em 1996, tenha abandonado o “arco nacionalista” liderado pelos partidos do sistema. Só o KKE se recusou a integrá-lo, defendendo a mesma posição à margem. Historicamente, a esquerda grega, nomeadamente a da tradição marxista-leninista, é conhecida pelo seu nacionalismo, derivado da teoria do “socialismo num só país” que a III Internacional Comunista propagou no período estalinista. Além disso, o KKE foi, por décadas, a única força de esquerda no país, com grande parte das organizações marxistas a serem formadas no seguimento de cisões. O nacionalismo ainda hoje caracteriza, implícita ou explicitamente, parte das organizações de esquerda no país. Pelo meio, e a coberto do “arco nacionalista”, as organizações de extrema-direita grega ganharam um novo impulso, infiltrando-se nos comícios e recrutando novos membros.

Entretanto, Atenas e Escópia lá encontraram um compromisso diplomático em 1993. A denominada República da Macedónia passou a ser referida na política internacional como  Antiga República Jugoslava da Macedónia (FYROM, na sigla em inglês) e reafirmou a sua abdicação de todas e quaisquer reclamações territoriais e interferências no norte da Grécia. Mas nem por isso Atenas abdicou de bloquear qualquer adesão à NATO ou à UE por representarem o reconhecimento diplomático e do direito de existência do recém-Estado. O conflito manteve-se latente durante décadas, com os sucessivos governos Nova Democracia e PASOK a entrarem em pontuais confrontos de palavras com os seus homólogos de Escópia sempre que sentiam a necessidade de distrair o povo grego das suas medidas. Os anos foram passando e cada vez mais Estados reconheceram o direito da Macedónia à auto-determinação. Hoje, são 130 os Estados-membros que reconhecem a Macedónia, com Atenas a ser obrigada a fazer um sensível jogo de cintura para não ficar cada vez mais isolada na questão.

O expansionismo da NATO e da UE

A situação manteve-se inalterada até há bem pouco tempo. No entanto, tudo mudou com a crise económico-financeira e o crescente expansionismo e militarismo da NATO para o leste da Europa. Para isso, os Estados Unidos e Europa propagaram ad eternum o discurso de uma suposta nova Guerra Fria com Moscovo. As peças do xadrez geopolítico tinham de ser mudadas e a Macedónia é um dos peões ao comando do rei e da rainha.

Depois de ter capitulado e traído a classe trabalhadora grega no pós-referendo de julho de 2015, Tsipras e o seu governo abdicaram de todas e quaisquer posições de confronto com as burguesias europeias e norte-americanas. Avançaram com parcerias militares com Israel contra o “terrorismo”, isto é, contra o povo palestiniano, e passaram a defender a NATO com unhas e dentes. Hoje, é um dos Estados-membros mais enérgicos para com a Aliança Atlântica e um dos cinco que cumpre com o investimento de 2% na Defesa – Tsipras manteve os cumpromissos firmados pelos anteriores governos nesta questão. Tsipras acredita, como Stathis Kouvelakis afirma, que a Grécia se pode tornar em “Israel dos Balcãs”, ou seja, o principal pilar dos Estados Unidos na região num momento em que a Turquia se tornou num Estado autoritário sob a governação de Recep Tayyip Erdoğan.

O nacionalismo é, com menor ou maior intensidade, transversal na sociedade grega. No entanto, o facto de o governo de Tsipras avançar com este acordo é tudo menos eleitoralismo. Bem pelo contrário, é aceitar as vontades e os diktats de Bruxelas, Washington, Londres e Berlim. Desde a traição de Tsipras e da cúpula do Syriza que o partido não tem parado de cair nas sondagens. Se em 2015 esteve à beira da maioria absoluta nas eleições de janeiro e setembro, os últimos dados de intenções de voto não são de todo favoráveis. O Syriza não ultrapassa os 21,2%, enquanto o Nova Democracia alcança os 31%. Se a cúpula do governo, principalmente o seu parceiro de coligação, os Gregos Independentes, liderados por Panos Kamenos, estivessem verdadeiramente preocupados com reconquistar um novo mandado governativo, então não avançariam com o acordo com Escópia. Segundo sondagens, entre 60 a 70% dos gregos opõem-se ao novo acordo. Tsipras prossegue com uma política de terra queimada: se já estamos perdidos, então mais vale fazer o máximo possível para satisfazer as vontades das capitais europeias que verdadeiramente mandam na Grécia. Em troca, espera ganhar o apoio destas a tempo de apresentar a Grécia como caso de sucesso económico. Mais um entre tantos outros sinais do país não ser mais que um protectorado europeu.

As negociações entre Escópia e Atenas recomeçaram no final de 2017 sob a mediação de um diplomata norte-americano, Matthew Nimetz, conhecido por ser um grande defensor dos interesses norte-americanos na região. Com altos e baixos, com palavras dóceis e azedas, as negociações lá avançaram e um acordo entre as partes foi alcançado, com a Macedónia a passar a chamar-se República da Macedónia do Norte. Mas as dificuldades estão longe de ser ultrapassadas. Do lado de Escópia, a oposição interna não pára de ganhar força, com o presidente da República macedónio, Gjorge Ivanov, a anunciar que não apoiará nem ratificará o acordo internacional. “Não apoiarei ou assinarei um tal acordo tão prejudicial”, disse Ivanov, com o principal partido da oposição, VMRO-DPMNE, a juntar-se ao coro presidencial e a avisar que votará contra qualquer acordo que dê entrada no parlamento macedónio. E foi isso mesmo que aconteceu. O parlamento macedónio votou favoravelmente o acordo com Atenas, com 69 deputados a dizerem “sim”, mas os representantes do VMRO-DPMNE não participaram na sessão parlamentar. Agora, Escópia terá de realizar um referendo e uma reforma constitucional para o acordo se tornar definitivo.

Aurora Dourada rompe o isolamento

As negociações e o acordo com Escópia foram tão impopulares entre o povo grego que, à semelhança do que se passou na década de 90, milhares participaram nos comícios de Atenas e Salónica e nos restantes espalhados pelo país. O nacionalismo grego conseguiu mais uma vez marcar o contexto político, apagando os antagonismos de classe sob a narrativa do orgulho e unidade nacionais. “Amanhã, não existem partidos, apenas a Grécia e a Macedónia”, disse o histórico líder do Aurora Dourada, Nikolaos Michaloliakos, na véspera de um desses comícios. E se a História se repete primeiro como farsa e depois como tragédia, a verdade é que se voltou mesmo a repetir, com a extrema-direita, nomeadamente o Aurora Dourada, a conseguir novamente ir  para a rua. É o mesmo filme da década de 90, apenas mudaram as personagens.

A esquerda não deixou de participar no espectáculo. O histórico compositor e símbolo da esquerda no combate contra a Ditadura dos Coronéis (1967-75), Mikis Theodorakis, discursou no mesmo palco em que minutos antes e depois membros de organizações de extrema-direita também falaram. E Zoe Konstantopoulou, conhecida por ter pressionado para que houvesse uma auditoria à dívida pública grega e antiga presidente do parlamento grego, também esteve presente, tendo apelado à sua participação. Posições que contrastam com a do antigo deputado Manolis Glezos, de 95 anos e que lutou com a resistência contra a ocupação nazi na II Guerra Mundial Mundial. Glezos recusou-se a participar e apoiar qualquer mobilização nacionalista que desse espaço político ao Aurora Dourada.

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Membros do Aurora Dourada numa concentração

Há meses que o Aurora Dourada estava acossado com o julgamento dos seus líderes e deputados por criarem e dirigirem uma organização criminosa e de assassinarem militantes de esquerda e imigrantes nas ruas. Enquanto a Justiça grega, que vale o que vale, os acusava, os antifascistas gregos conseguiram expulsá-los das ruas e bairros inteiros. O Aurora Dourada estava confinado a poucos quarteirões no país, mas com a onda nacionalista teve um ambiente que lhe permitiu romper com o isolamento. Os seus militantes infiltraram-se em comícios e nas suas organizações, distribuíram propaganda e conseguiram pôr milhares de pessoas a entoarem os seus slogans racistas. “Sangue, honra, Aurora Dourada”, ouviu-se nas praças, enquanto alguns fascistas transportavam tochas. No final de um comício em Salónica com 300 mil participantes, os fascistas avançaram contra um centro social anarquista e reduziram-no a cinzas. Nada lhes aconteceu.

Agora, e utilizando o acordo, o Aurora Dourada tem novamente espaço para se posicionar como alternativa ao governo de Tsipras, ao mesmo tempo que crítica as políticas de austeridade e defende um Estado só para gregos. O partido sente-se novamente tão à vontade que um dos seus deputados, Constantinos Barbarousis, apelou num discurso no parlamento a um golpe de Estado para travar o acordo com a Macedónia. “Apelo aos líderes das Forças Armadas do país que respeitem o vosso juramento: prendam o primeiro-ministro Alexis Tsipras, [o ministro da Defesa] Panos Kammenos e o presidente Prokopis Pavlopoulos para evitarem esta traição”, disse no parlamento. Poucos dias depois foi detido sob a acusação de estar a preparar actos que representariam alta traição.

A entrada da questão da Macedónia na agenda política interna grega veio limitar ainda mais a afirmação de uma alternativa de esquerda ao governo de Tsipras e ao Aurora Dourada, não esquecendo os neoliberais do Nova Democracia. Resta agora saber como essa alternativa poderá surgir.

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