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Uma abordagem dialéctica ao suicídio | Afonso Jantarada

A morte sempre foi um tema tabu para as sociedades humanas. Sendo uma realidade que a nossa vida não se prolongará para sempre, o debate sobre a morte sempre foi minado por conjecturas filosófico-religiosas e encerra em si mesmo uma complexidade imensa. Mais se acrescenta a esta difícil realidade com que nos iremos inevitavelmente deparar quando a morte é auto infligida. As razões para pôr fim à existência foi algo que sempre inquietou a humanidade e que foi retratado na literatura, escultura e representação desde os seus primórdios.

Importa, antes de tentar enquadrar o suicídio numa abordagem e numa visão marxista da sociedade de classes, esclarecer previamente duas questões: como foi lidando a sociedade ao longo do tempo com a questão do suicídio e ainda uma tentativa de descortinar as razões mais fortes para que alguém decida retirar a sua própria vida.

Karl Marx, com apenas 28 anos, escreveu um pequeno ensaio intitulado “Sobre o Suicídio”, baseado nos apontamentos que Jacques Peuchet, arquivista policial francês que exerceu diversos cargos públicos e membro do Partido Monárquico e que recolheu ao longo da sua carreira. Tanto Marx como Peuchet viam o suicídio como um sintoma de uma sociedade doente na qual é necessária uma transformação profunda. “Cada indivíduo vive isolado dos outros, sozinho entre milhões, numa solidão de massas”, escreveu Michel Lowy num prefácio ao livro de Marx. “Os indivíduos são estranhos entre si e situam-se uns em relação aos outros como inimigos: nesta sociedade de combate e de concorrência sem piedade, da guerra e de todos contra todos, ao indivíduo resta apenas ser vítima ou carrasco”, concluiu. Um sistema social o qual não é possível transformar-se sem uma alteração profunda das estruturas sociais e económicas. Os defensores do capitalismo tendem responsabilizar uma alegada “natureza humana” em vez de o sistema que faz do ser humano o lobo do ser humano num movimento de predação permanente.

Neste ensaio, Marx baseia-se em casos concretos descritos nos apontamentos de Peuchet para explorar os vícios da sociedade burguesa e assim relacionar a sociedade com a necessidade de retirar a sua própria vida.  Existem dois casos que importa explorar mais aprofundadamente: o suicídio por razões amorosas\conjugais (de carácter emocional) e por razões económicas.

Analisaremos o primeiro à luz da família enquanto elemento fundamental da reprodução das desigualdades no acesso ao poder e à propriedade ao longo do tempo. O casamento e a família, enquanto instituições, resultam da necessidade de acumulação de propriedade e da criação de monopólios por parte das grandes famílias capitalistas.  Não era rara, portanto, a visão real do casamento como uma obrigação da prole, nomeadamente a feminina, para garantir a propagação do poder e riqueza familiares. Não eram também raros os casos de adultério cometidos por ambos os membros de um casal monogâmico, contribuindo assim para a criação dos chamados “filhos ilegítimos“, ainda que tal acontecesse preponderantemente do lado do Homem, enquanto a mulher era relegada para um estatuto de propriedade do primeiro. Também hoje, embora de forma menos visível, o casamento e a família inserem-se na vontade de estabilidade financeira pessoal. Com a desigualdade salarial entre homens e mulheres, resultado da inferiorização feminina e do  mecanismo, as segundas ainda se encontram numa situação de dependência, ainda que menor que no passado. Os casos de violência doméstica e depressão são prementes. Num anexo ao ensaio de Marx, surge a descrição das principais causas de suicídio no ano de 1824 em Paris.

Neste, são apontados como principais motivos de suicídio as depressões e as doenças incuráveis, seguidas, obviamente, pelos desgostos ou contendas amorosas. Apesar de distintas, essas causas têm uma raiz comum. Assim sendo, e olhando a família sob o ponto de vista de garantia de propriedade e poder, a opressão realizada por estes fatores é causa de muitos episódios de suicídios.

O segundo caso a explorar, as razões económicas para o suicídio, é mais complexo. Em primeiro lugar, porque, numa sociedade hierarquizada e estruturada em classes, os motivos e as expectativas económicas de cada indivíduo são diferentes. Apesar disso, nota-se que existe uma correlação forte entre as crises económicas e uma maior taxa de suicídio. Distinguiremos as suas possíveis causas para duas classes sociais diferentes: o proletariado e a burguesia.

Em qualquer crise económica, o proletariado – ou seja , os trabalhadores – serão sempre os mais prejudicados num sistema capitalista. A necessidade de manter as taxas de lucro por parte das empresas leva a uma desconsideração total pelo fator trabalho. O desemprego, que tende a subir nesses períodos económicos, coloca a maioria dos proletários em condições de fragilidade económica e social, associadas ao seu crescente isolamento por estarem fora do processo de socialização que é feito através do trabalho. Exemplificando com um caso bem recente, os períodos de pós-crise de 2008 e a austeridade e desemprego durante a vigência do memorando de entendimento com a Troika levaram a que, em 2014, Portugal registasse um aumento significativo da taxa de mortalidade. Segundo os dados do relatório “Saúde mental em números”, publicado pela Direção Geral de Saúde, a taxa de suicídio passou de 10,1 em cada 100 mil habitantes para 11,7 entre 2012 e 2014. Mesmo os trabalhadores que continuaram empregados não ficaram à margem. Queda dos salários e do consequente poder de compra levou a que a alimentação se degradasse, causando mais doenças. Assim, os níveis de saúde física e mental agravaram-se seriamente nesse período levando, inevitavelmente, ao aumento das taxas de suicídio.

A relação da burguesia com as crises económicas é claramente diferente. Surpreendentemente, e apesar de em proporções claramente menores, a burguesia também tem um aumento nas taxas de suicídio durante as crises. Tal deve-se, em primeiro lugar, ao medo de um processo revolucionário e ao confronto social que aumenta inevitavelmente durante as crises de sobre-produção capitalista. Para além disso, a maior parte das suas empresas vêem o diminuir das suas taxas de lucro e o aumento do número de falências de empresas.  No caso dos pequeno-burgueses com ambição de prosperar num mercado capitalista, o facto de verem os seus pequenos negócios falirem e a sua crescente proletarização pode levar a duas consequências distintas. Em primeiro lugar, e com base na teoria do fascismo de Leon Trotsky, origina sentimentos nacionalistas e de ódio para com os restantes proletários, nomeadamente contra os imigrantes e pessoas com etnias diferentes das da dominante na sociedade. A pauperização desta camada da população origina, atualmente, fenómenos como o aumento em toda a Europa fustigada pela crise de partidos fascistas e de extrema-direita que disputam o poder. Em segundo lugar, um sentimento de frustração e de auto-culpabilização pela sua situação . É também entre esta camada de pequenos empresários que vêm os seus objetivos económicos falhar que se instalam uma grande parte dos fenómenos de suicídio.

Do ponto de vista psicológico, o suicídio é visto pela sociedade regularmente  como um sinal de fracasso pessoal e de uma desistência da sua vida. Esta auto-culpabilização pelo fracasso pessoal e consequente suicídio é parte integrante da ideia de individualismo patente na ideologia neoliberal . Durante a crise de 2008, a ideia de culpa  pessoal pelo falhanço pessoal levou à quebra de transferências sociais da parte do estado. Isto levou à ainda maior fragilidade das comunidades cd mais baixa capacidade económica o que levou ao seu desespero. A culpabilização destas pessoas pela sua situação económica faz com que estas sintam que o suicídio é a única alternativa que têm.  

Quando falamos de suicídio importa, igualmente, reconhecer o papel da religião enquanto conjunto de visões morais e éticas da vida humana. Neste âmbito, Émile Durkheim, filósofo francês do século XX, é sem dúvida uma das referências. Nas análises feitas, Durkheim observou que as taxas de suicídio eram ligeiramente inferiores no caso dos católicos e dos judeus face aos protestantes. Primeiramente, tentou-se ligar esta diferença à forma como as diversas religiões olham para a questão da morte. No entanto, e tendo em conta que todas as religiões anteriormente referidas são abraâmicas e têm uma visão do suicídio como “pecado mortal”, tal não ajudaria a tirar qualquer conclusão. A conclusão a que chegou parte do conceito de “integração social” , ou seja, o contacto do indivíduo com o resto da sociedade. Durkeim dizia que níveis extremados de integração social  ( quer positiva quer negativos)conduzem a números elevados de taxa de suicídio.

A verdade é que, no contexto da tradição protestante, o crente liga-se menos à igreja e ao resto da comunidade que o envolve. Neste sentido, é normal a verificação de mais suicídios nos protestantes conforme os resultados obtidos por Durkein.

O suicídio tem, desta forma, razões que entroncam na formação do ser humano como ser social: a sua relação familiar, a sua relação económica e a sua relação religiosa. Estas entrecruzam-se e são inteiramente interdependentes o que , por vezes, criam dificuldades na definição da verdadeira causa de suicídio. O tema do suicídio vai continuar a suscitar as maiores paixões e a fazer-nos interrogar qual o sentido da existência humana.

Numa sociedade socialista, os casos de suicídio vão continuar a acontecer, pois, apesar de podermos estimar as suas causas e assim eliminá-las, cada caso será um caso e continuará a ser um mistério o que leva uma pessoa a acabar com a sua vida.

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