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Reino Unido. As lições da greve dos mineiros | Henry Gray

A Greve dos Mineiros de 1984-85 é correctamente entendida como um dos grandes acontecimentos da luta dos trabalhadores da História britânica. Durante um ano, mais de cem mil mineiros do carvão entraram em greve sob a enorme pressão do governo de Margaret Thatcher, conservadora conhecida como “Dama de Ferro”, empenhado na destruição total da força dos trabalhadores da indústria pesada britânica.

Eles resistiram a todos os ataques contra a classe dominante Britânica. De agressões policiais brutais, intervenção do exército, confisco de financiamento, passando por uma enxurrada de ataques diários nos meios de comunicação nacionais e, pior de tudo, às contínuas traições da ala direita do Partido Trabalhista e da liderança do sindicato nacional. Ao mesmo tempo, a greve contou com a enorme solidariedade de outras fracções da classe trabalhadora britânica e também internacional, apesar da cobertura mediática adversa. Com outra liderança à frente da classe trabalhadora britânica, a greve poderia ter sido e tido desfechos muito diferentes.

Por um lado, a greve demonstrou o extraordinário heroísmo da classe trabalhadora. Os próprios mineiros tiveram de suportar a maior parte da greve sem o financiamento do sindicato, que havia sido sequestrado pelo governo. Sem a base de apoio que tiveram entre as pessoas comuns, que doaram milhões de libras e montanhas de comida para a causa, teriam morrido de fome. Enquanto isso, numerosos actos de coragem por parte de outras fracções da classe trabalhadora fortaleceram a greve. Os trabalhadores ferroviários de Leicestershire, a sul de Notthingham, arriscaram os seus próprios empregos para enegrecer o carvão a caminho de um poço que estava a ser trabalhado por trabalhadores feridos. Os trabalhadores de uma gráfica em Londres interromperam a impressão de uma manchete do jornal The Sun quando este comparou Arthur Scargill, o líder da greve, a Adolf Hitler. O jornal foi vendido com uma primeira página totalmente em branco naquele dia.

Durante um período da greve, houve uma grande possibilidade da açção se espalhar para outros sectores. Os estivadores pareciam determinados em avançar para greve, o que faria colapsar a tentativa do governo em minar as empresas extractoras de minérios ao importar carvão da Polónia. Essa possibilidade foi deliberadamente rejeitada pelos próprios líderes sindicais dos estivadores, bem como pela liderança do sindicato nacional.

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Um mineiro a desafiar os polícias durante a greve de 1984-85

Por outro lado, a greve revelou a verdadeira face do capitalismo britânico em todo o seu horror. A aparência respeitável da democracia parlamentar foi substituída por uma frente comum de ódio impetuoso de classe, dirigida aos mineiros por todas os sectores da classe dominante britânica. Cerca de dez mil mineiros foram presos durante o período da greve. Um, Chris Herriot, descreve visualmente como foi “arrastado da sua cama no meio da noite”, em frente à sua família. Outro, John Dunn, lembra-se de ter sido atacado na parte detrás da cabeça por um polícia montado a cavalo na parte de fora da fábrica de cobre em Orgreave. A “batalha de Orgreave”, em junho de 1984, está ligada a outro evento particularmente terrível na mesma década: o desastre de Hillsborough, em 1989, que destaca a verdadeira natureza do Estado britânico. Cenas horríveis de polícias a espancarem arbitrariamente os manifestantes indefesos e as suas famílias, sendo que as imagens foram alteradas pela BBC antes de serem transmitidas na televisão. Estas retratavam os mineiros como os agressores na batalha. Após o violento confronto, a primeira-ministra Margaret Thatcher descreveu publicamente os mineiros como o “inimigo interno”. Dois foram mortos pela polícia durante a greve e os responsáveis nunca foram levados à Justiça. Esses eventos foram uma verdadeira guerra de classes, exposta para que todos a pudessem ver.

No entanto, sempre que falava sobre qualquer aspecto da greve, Neil Kinnock, líder do Partido Trabalhista, que em teoria se opunha a Thatcher, desgraçadamente acovardou-se pelo facto de a União Nacional de Mineiros não ter votado nacionalmente pela greve. Essa patética desculpa pela traição ignorou 171 minas de carvão, que inicialmente conseguiram uma maioria democrática em favor da greve dentro dos seus próprios sindicatos. A actuação da liderança trabalhista de Kinnock e dos seus aliados à frente dos sindicatos na Grã-Bretanha levaram, em ultima analise, à derrota dos mineiros.

Todavia, se uma maioria a favor da greve foi de facto alcançada com pequenos avanços, uma votação nacional teria posto de parte a base constitucional para o jogo de palavras parlamentar. Kinnock e sua laia teriam, portanto, sido expostos como os traidores que eram para o público britânico e para a base de outros sindicatos. Um escrutínio bem-sucedido teria também imposto a greve em Nottinghamshire, cuja maioria furou a greve, provando ser um catalisador para a sua derrota. Apesar desse erro, não há dúvida de que Scargill e os outros líderes de esquerda do Sindicato Nacional dos Mineiros posicionaram-se de cabeça para cima e acima de outros líderes sindicais, como um exemplo brilhante para os trabalhadores hoje em dia.

Poderíamos facilmente chamar a notável greve dos mineiros de “a greve que terminou todas as greves”, o que na Grã-Bretanha, infelizmente, se tornou verdade. Na realidade, a greve marcou o fim de um período de intensa luta de classes na Grã-Bretanha, o início de uma futura degeneração no movimento operário britânico.

É importante realçar o que a greve representou para a classe dominante britânica. O governo conservador de Thatcher estava determinado em derrotar os mineiros por causa do papel que desempenharam no derrube do anterior governo conservador, ao fazerem greve em 1974. Mas, mais do que isso, o encerramento dos depósitos de carvão, juntamente com outros sectores da indústria britânica, era uma questão económica por o capitalismo britânico procurar reduzir os custos ao usar mão-de-obra mais barata vinda do exterior.

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Quatro mineiros em piquete de greve

No entanto, as consequências dessas políticas, particularmente desde o início da crise do financeira de 2007-08, vieram para ficar. Ao exportar os custos da mão-de-obra da indústria pesada, o capitalismo britânico importou o desemprego crónico e o trabalho informal não-especializado, baseado em salários baixos, e a economia tornou-se cada vez mais dependente das bolhas especulativas no sector financeiro.

Essa situação foi sustentável nos anos 90 e início dos anos 2000, antes de as dívidas infrutíferas expusessem as contradições subjacentes do sistema. Mais uma vez, foi a classe trabalhadora que suportou o impacto da crise. Na Grã-Bretanha, os sucessivos governos desencadearam uma série de cortes no sector público ao alargá-los para além dos limites razoáveis e ao deteriorar os direitos e condições de vida dos trabalhadores.

Um clima de raiva acumulou-se foi-se acumulando lentamente e, em 2015, esse sentimento encontrou a sua expressão política na eleição de Jeremy Corbyn, o outsider à esquerda dos blairistas, para a liderança do Partido Trabalhista. Ainda assim, o clima encontrou expressões  distorcidas na onda de apoio à independência escocesa e ao voto do Brexit.

Hoje, à luz das condições a que estão sujeitos e à crescente confiança na sua classe, uma nova geração de trabalhadores britânicos, especialmente entre os jovens, está, mais uma vez, pronta para a luta. Em meados da década de 1980, todas as condições objectivas da sociedade estavam contra os mineiros. Hoje, se uma greve semelhante ocorresse, muito estaria a seu favor. Com um movimento de massas de esquerda que dominae o Partido Trabalhista, uma grande greve num sector poderá facilmente espalhar-se, ainda que a liderança sindical esteja degradada, e poderia derrubar o enfraquecido governo conservador da primeira-ministra Theresa May.

Na Grã-Bretanha, temos assistido ao aumento da militância sindical. Um aumento evidente não apenas em sectores tradicionalmente fortes da classe trabalhadora, como os trabalhadores ferroviários, mas também entre professores, funcionários das universidades e até mesmo médicos e advogados!

A greve dos médicos juniores de 2015-16, a primeira desse tipo na história britânica, foi um momento marcante, apontando o caminho a seguir para todos os outros elementos da classe trabalhadora. Ainda mais recentemente, a greve maciça no ensino superior, por causa dos cortes de pensões no início deste ano, foi um grande passo para o que antes era um sector relativamente conservador da classe trabalhadora. Este chegou até a detestar auto intitular-se de trabalhadores. A transformação tem sido tão grande que a filiação de trabalhadores de base no sindicato da Universidade e dos Colégios está agora no processo de derrubar a sua própria liderança, que prematuramente terminou a greve, dando grandes concessões aos patrões das universidades.

Para esses trabalhadores e para todos os trabalhadores internacionalmente, as muitas lições da Greve dos Mineiros são fonte de lições para as lutas de hoje. A ousada e decisiva liderança demonstrada por Arthur Scargill e muitos outros à frente do sindicato nacional dos mineiros deve ser um exemplo para outros membros na liderança de diferentes. Em última análise, a liderança de uma greve tem um papel enorme a desempenhar no seu resultado. Ao não entrar em cedências com o governo conservador, a liderança do sindicato dos mineiros encorajava outras secções da classe trabalhadora britânica a juntarem-se, cujas lideranças de partido e de sindicatos eram a única barreira para uma onda de acção solidária.

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As mulheres estiverem na linha da frente na luta dos mineiros contra o governo neoliberal de Margaret Thatcher

Além disso, as iniciativas pró-ativas dos mineiros no terreno, onde os piquetes e a confraternização com os trabalhadores dos transportes ajudaram a espalhar e solidificar a greve, devem ser tidas em conta nas lutas de hoje. O papel indispensável das esposas dos mineiros, na liderança na recolha de recursos e muitas vezes também a encorajar os seus maridos para os piquetes – politizando-se pelo resto das suas vidas – demonstra os benefícios de ter mulheres à frente da luta de classes.

No entanto, o erro da liderança de não avançar com uma votação nacional para a acção grevista ilustra cruelmente como a estratégia e a tática são importantes para o sucesso da luta de classes.

No entanto, e Independentemente deste erro, não pode ser negado o efeito que o estudo da História deste grande movimento de desafio dos mineiros britânicos poderá ter hoje sobre as acções da classe trabalhadora em qualquer parte do mundo.

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