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A Bolsa de Bielsa e outras histórias para espreitar o futuro | João Carlos Louçã

Em Abril passado pude participar numa sessão que inaugurou uma exposição fotográfica. As fotografias foram tiradas em Abril de 1938, em Saint Lary Soulain, durante os 4 dias em que aquelas montanhas dos Pirinéus entre Aragão e a Occitânia francesa, viram cruzar a fronteira mais de 6 mil pessoas que fugiam do avanço das tropas de Franco. A Bolsa de Bielsa como esta história é conhecida, foi uma das muitas histórias da resistência ao avanço dos nacionais. Uma história de cumplicidade com a população que tinha visto em poucos anos todas as esperanças de mudança afundarem-se na guerra. No êxodo civil, que durou vários dias pelas montanhas com neve, a aviação de Hitler e Mussolini bombardeavam as aldeias abandonadas em dias alternados. No ensaio das novas técnicas de terror pelo ar, o resultado foi a mesma destruição que em Guernica. A fuga da população, evitou o pior.

Pouco tempo antes, a frente do Ebro tinha caído e as forças da República retiravam para os territórios onde ainda podiam combater: Catalunha e Valência. Bielsa era vale fronteiriço onde, nesta retirada, a 43ª divisão do exército republicano resistiu durante 166 dias e guardou livre o acesso à fronteira. Acharão estranho, ou algum capricho da História, um pequeno vale dos Pirenéus de Aragão, ter protagonizado a resistência extraordinária das causas perdidas – porventura só visivelmente perdidas a esta distância. 7 mil homens esgotados, mal armados e em risco de debandada, contra uma força 2 vezes superior, suportada pela aviação alemã e italiana, e com todas as armas modernas. A central eléctrica de Lafortunada justificava o interesse estratégico do vale. De tal maneira que perante a previsível retirada das forças republicanas, um accionista da sociedade de exploração da central reúne-se com Beltrán, comandante-chefe da 43ª Divisão, para lhe oferecer dinheiro em troca da preservação da central. Beltrán faz o contrário e, na retirada, dinamita a central, que por algum tempo, não poderá produzir electricidade.

Nesse sábado, conheci Martin Arnal Mur. Tem hoje 97 anos. Tinha 15 quando a guerra começou, 17 no episódio de Bielsa. Com a calma ganha com os anos, conta-nos que era demasiado jovem e que por isso, apesar de mobilizado na Brigada Mista que retirava de Huesca, não tinha um fuzil mas combatia com uma pá com que ora escavava trincheiras, ora sepulturas. Em Junho, é dos últimos a passar a fronteira depois de ter cruzado as aldeias destruídas. “Espectáculo dantesco”, garante. Como a outros combatentes que chegam a França, é-lhe dado a escolher reentrar em Irun, para território controlado pelos franquistas ou entrar pela Catalunha e voltar ao combate. Como quase todos os seus companheiros volta à guerra. Até à derrota se instalar por todo o lado. Cai Barcelona, cai Valência, cai Madrid. A República vai para o exílio. Nesse momento, Martin, volta a entrar em França onde escapa de um fuzilamento provável. Pouco tempo depois França é ocupada pelas forças do Reich e Martin junta-se à resistência. “Simplesmente não quis fazer o que Pétain nos exortou a fazer: obedecer ao inimigo”, contava, há menos de um mês. Como conhecia bem as montanhas, em 1944, tinha como função passar pessoas pela fronteira. Ali mesmo, na pequena aldeia onde estávamos, hoje transformada nessa espécie de parque temático em que a montanha é local de lazer citadino e reserva etnográfica de formas de vida passadas, ali mesmo onde o ski alpino garante as visitas e a economia local. Ali mesmo, numa casa refúgio da resistência, Martin descansava com os seus passageiros e preparava-se para a última jornada de 20 quilómetros pela montanha. Vincent era o cúmplice e quem lhes garantia uma porta aberta, uma bebida quente, uma cama com palha. Martin, levanta a cabeça, olha à volta e pergunta se Vincent ainda vive. Já não, respondem-lhe, mas que a sua viúva está ali mesmo. Os dois levantam-se e procuram-se no meio da assistência. Os braços que se abraçam no reconhecimento. As palavras que trocaram foram entre eles, a emoção foi partilhada por todos que estávamos naquela sala.

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Populares a lerem notícias sobre o golpe de Estado do general Francisco Franco

Houve outros testemunhos de gente que fez aquela travessia. Lágrimas com as memórias dolorosas, de quem era criança e viu o seu mundo acabar de repente, fugir das bombas que caíam dos céus, do exército de mouros como eram conhecidas as tropas franquistas, das atrocidades da vingança sobre as populações que lutaram ao lado da República, que acreditaram que as pessoas eram iguais e que a terra podia ser repartida. Lágrimas de quem se lembra ainda da recepção solidária da população daquele lado da fronteira e dos comboios que nos dias a seguir os conduziram para campos de refugiados a que chamaram “campos de concentração”. Muitos preferiram voltar nos meses a seguir, ou anos. Outros ficaram por França porque tinham familiares e amigos que nunca consideraram realmente aquela fronteira uma separação eficaz entre os povos da montanha. E lágrimas também das crianças francesas, hoje octagenárias, que viveram aqueles dias em que a aldeia se encheu de gente do outro lado, e o quotidiano foi subitamente interrompido pela brutalidade e desespero que presenciavam sem entender.

E outros relatos, mais actuais: António Escalona, como todos de Bielsa, filho e neto de refugiados, primeiro alcaide da democracia, eleito pelas listas do PSOE em 1979. Até 1982, diz, já era autarca há 3 anos, era parado pela Guardia Civil, a cada vez que entrava no carro para sair de Bielsa, arma apontada à cara, interrogatórios à maneira franquista. Uma transição onde as armas ficaram todas do mesmo lado, a impunidade também.

No dia em que tive o privilégio de assistir a esta sessão, celebrava-se o 88º aniversário da proclamação da República, essa república efémera que viu acontecer um processo revolucionário ao mesmo tempo que travou e perdeu uma guerra, antecâmara da outra mundial que veio logo a seguir. Que na realidade teve ali um dos seus primeiros episódios: com a sublevação franquista em Marrocos e o apoio da Europa fascista, com a hipocrisia inglesa e francesa refugiadas numa neutralidade impossível, com a cumplicidade activa de Salazar. Mas também com a solidariedade proletária que combateu em todas as frentes através das Brigadas Internacionais, com milicianos e milicianas que fizeram das armas a sua utopia concreta.

Conta quem sabe, que na construção da central eléctrica de Lafortunada, em Bielsa, inaugurada em 1923, os senhoritos que vieram de Barcelona e Madrid, com os planos e a responsabilidade da obra, faziam um homem e um burro subir todos os dias por uma pista de montanha, 6 horas para cima e outras tantas para baixo, só para lhes ir buscar o gelo com que gostavam de beber o café e as copas antes da sesta. Os magos da energia de então, construtores da industrialização da costa basca, de Zaragoza e de Barcelona, não se privavam dos privilégios de classe que, sob muitos aspectos, eram ainda os do antigo regime.

88 anos depois, nesse dia 14 de Abril de 2018, enquanto estava eu em Saint Lary, duas carrinhas de polícia deslocaram-se em urgência a uma destas aldeias para retirar e lavrar o auto de desobediência a alguém que, na sua janela, colocou a bandeira tricolor da República. Pouco tempo antes, Manuela Carmena, alcaidesa eleita pela esquerda, via a 10 de Abril, o tribunal administrativo nº 8 de Madrid decidir que não podia mudar a toponímia da cidade mexendo nos nomes do antigamente. No caso, calle «Caídos de la división azul”, a legião de voluntários falangistas que combateu sob o comando nazi na frente oriental da II guerra mundial, e a que Hitler chamava com carinho “maltrapilhos impávidos”. A operação Barbarossa, que o antropólogo Eric Wolf definiu como exemplo da utopia racial do nacional socialismo na sua pretensão de instituir a imaginária comunidade do Volk.

E não posso deixar de pensar nesse outro relato, o testemunho de David Rousset, trotskista francês que em Agosto de 1936, em Marrocos, conheceu Omar Abjeli e Mohamed Wazzani, dirigentes do movimento nacionalista marroquino[1]. Com eles viajou para Barcelona e estabeleceu contactos com o POUM e com o Comité Central das Milícias, organismo dirigido pela CNT e pela FAI. Durante o mês de Setembro desse ano, negociaram e estabeleceram um protocolo, aceite por todos os partidos catalães, para a independência dos territórios espanhóis do RIF. Em contrapartida deste reconhecimento, do fornecimento de dinheiro e armas, os dirigentes marroquinos comprometiam-se a atacar a retaguarda de Franco e também sua base logística. Mas o acordo, celebrado em Barcelona, tinha que ser aprovado por Madrid: A República acossada e pressionada pelo governo francês, não estava pronta para se desfazer dos territórios coloniais. Dinheiro e armas para atacarem Franco ainda podia ser, independência é que não. Goradas as hipóteses, os dois marroquinos desinteressam-se do plano. Rousset ainda argumenta que melhor é fazerem o acordo, levarem as armas e depois fazerem com elas aquilo que bem entendessem, mas entre uma República colonial e um general de bigode que a representava no território africano ocupado, os dirigentes marroquinos preferiram seguir o seu caminho, alheios aos destinos da Europa.

O episódio dá-nos talvez um vislumbre do que podem ser os caminhos de uma História que podia ter sido uma coisa mas que foi outra, dos “ses” intermináveis que nos fazem pensar nas circunstâncias e nas pessoas que foram protagonistas e que em larga medida determinaram o mundo que veio a seguir e aquele em que vivemos hoje. O “se” desta história marroquina, podia ter mudado o curso da guerra. É um “se” gigantesco, capaz de nos fazer formular outras perguntas. E se a guerra de Espanha tivesse significado uma derrota, das forças fascistas na Europa? E se Madrid e Valência nunca tivessem caído, e se Estaline nunca tivesse tomado o controlo de Barcelona, acabado com as milícias e decapitado o POUM e a CNT? E se Picasso nunca tivesse tido de pintar Guernica? E se a Legião Condor, Hitler e Mussolini tivessem tido em Espanha a sua primeira derrota? E se o êxodo da população de Bielsa nunca tivesse acontecido e hoje não houvessem filhos de refugiados mas filhos e netos de quem tivesse conseguido expulsar os fascistas das suas terras?

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“Guernica”, de Pablo Picasso, pintado em 1937

E se Mário Dionísio, por cá, ouvido colado à rádio, a ouvir Rafael Alberti declamar o seu “Romance em defesa de Madrid”, sentindo essa guerra como sua, apesar ou talvez por causa do “país agrilhoado, esvaziado, dos amigos presos e torturados”, nunca tivesse desesperado com o No Pasáran?

E “se” tanta coisa… Mas a história não se faz no condicional e os seus sentidos serão talvez melhor entendidos se olharmos os momentos que não se cumpriram, as promessas de um futuro que não aconteceu. Nesses vislumbres desfocados, estarão as utopias dos séculos anteriores que fizeram a guerra de Espanha e que fizeram o Martin, e tantos outros da sua geração, combater sempre, sem desistir.

Chegando aqui, cabe perguntar, serão as utopias dos séculos XIX e XX responsáveis pelas atrocidades das guerras e do mundo caótico em que vivemos? Serão estas o pecado original de todos os conflitos, nas suas aparências políticas ou religiosas? Será Rafael, o viajante português, personagem de More, que nos conta a vida na Ilha da Utopia, um verdugo disfarçado para os tempos que estavam para vir?

O futuro é um país estranho, lembra-nos Josep Fontana ao mesmo tempo que exorta, cientistas sociais e historiadores em particular, “ para a tarefa de reinventar um novo futuro, que é ainda um país desconhecido”[2]. “Experiência” e “expectativa” são o par de conceitos que Paula Godinho, no seu último livro, nos faz considerar a partir da relação entre o antigo e o futuro, a recordação e a esperança[3]. Para a antropologia que olha o futuro como uma hipótese de construção colectiva e não como um destino selado, ou para quem procura uma ideia do tempo histórico, teremos de “prestar atenção às rugas de um ancião ou às cicatrizes em que está presente um destino da vida passada”, como nos lembra Reinhard Koselleck.[4] “ Não se pára de idealizar e de pensar o futuro”, relembra-nos ainda Paula Godinho, mesmo quando nos dizem constantemente que o futuro está suspenso.

Diz-nos o relatório do Future Today Institute que a inteligência artificial é a tendência declarada das mudanças tecnológicas que temos pela frente. Que a biotecnologia, através da nano-medicina, pode vir a significar cuidados de saúde personalizados através de tatuagens de pele artificial que libertam medicação por nano-tubos e avaliam a reacção do paciente por micro-sensores. Que as tecnologias de reconhecimento facial, os óculos de realidade aumentada, são já realidades utilizadas no controlo de populações. Que o dinheiro líquido vai desaparecer em 2030 no espaço europeu e antes disso na China e na Índia. Julio Verne e Orwell numa fusão da realidade que é simultaneamente um sinal da crise planetária, dessa barbárie que vaticinava Rosa Luxemburgo, quando o capitalismo era muito mais o cheiro da pólvora do que microships. Ter hoje um computador, um tablet e um telefone androide parece-nos natural. E continua a parecer-nos natural quando temos de mudar de aparelho cada dois ou cada três anos. Não queremos ser obsoletos ou mesmo se não nos importarmos muito, há a obsolescência programada dos materiais feitos para não durar. O outro lado disto são cidades, por exemplo no Ghana, um subúrbio de Agbogbloshie, onde cerca de 20 mil pessoas vivem do lixo tecnológico que lhes chega diariamente em contentores. Queimam o plástico a céu aberto e da cinza fumegante, retiram com os dedos minúsculos circuitos de cobre e de ferro com que fazem bolinhas que vendem a peso. Vivem do lixo de uma civilização tecnológica, constroem cidades de lixo onde vivem. Na utopia de consumo em que vivemos, outros vivem do nosso lixo, sentados numa montanha que cresce cada dia.

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Cartaz do POUM do tempo da Guerra Civil Espanhola

Nos territórios que já são chamados a Lapónia espanhola – o abandono e deserto demográfico – procuro sinais do que pode vir a ser, vislumbres de um futuro ainda que improvável. Procuro-os no Porto também, onde os efeitos da última crise – última?! – levaram muitas pessoas a procurar alternativas nos recursos disponíveis, sem nada esperarem do estado, sem ficarem à espera do ciclo favorável da economia que não chega nunca. Sem a certeza das grandes utopias que esperam transformar o mundo. Talvez só, como sugere a filosofa Marina Garcês, quando reflecte sobre o seu próprio percurso na sua Barcelona natal dos anos 90: “nenhum relato de progresso se aplica a estes tempos, mas poderemos manter uma atitude emancipatória sempre que pensarmos que o vivido não é uma etapa em direcção a um futuro melhor, mas antes uma ferramenta para uma vida mais digna”[5].

Na utopia concreta de Ernst Bloch, a esperança é projecto de luta e ruptura que assenta na história de uma força social e do seu papel, ainda que pouco reconhecido. A esperança perigosa, a esperança possibilidade, a esperança emoção serão assim um programa possível, certamente necessário, para os tempos que vivemos.

Este texto resulta de uma comunicação preparada para o Seminário Memória, Cultura e Devir realizado na FCSH a 12 de Maio 2018 e, em versão anterior, antecipada no Museu do Neo-Realismo no colóquio “O sentido precário da História: Utopias, Ideias e Modelos Políticos”, a 28 de Abril. Comunicação originalmente publicada em castelhano pelo EL Salto na sua versão online a 6 de Julho.


Notas:

[1] Miguel Romero. La Guerra Civil Española en Euskadi y Catalunya: contrastes y convergencias. Editorial Silone. Barcelona, 2016

[2] Josep Fontana. El futuro es un país extraño – una reflexión sobre la crisis social de comienzos del siglo XXI. Passado y Presente, Barcelona, 2013

[3] Paula Godinho. O Futuro é para Sempre. Experiência, Expectativa e Práticas Possíveis. Letra Livre, Lisboa, 2017

[4] Reinhard Koselleck. Futuro Passado – Para una semântica de los tiempos históricos. Paidós Barcelona, 1983 (1979), citado por Paula Godinho, O Futuro é para sempre…. p. 147

[5]Marina Garcês. Ciudad Princesa, Galaxia Gutenberg, Barcelona, 2018. p. 41

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