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Velhices | Antonio Gramsci

Antonio Gramsci, um dos principais teóricos marxistas do século XX, reflecte neste artigo, originalmente publicado no jornal italiano Avanti!, a 13 de julho de 1916, sobre a necessidade do “tudo ou nada” ser o “nosso programa de amanhã”.

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Fomos acusados de ser velhos. Até zombaram de nós porque não cumprimos todas as promessas, porque prometemos mais do que pudemos cumprir. Em certos momentos, imersos como estamos nesta vida tumultuada que nos envolve, sensíveis como somos às críticas, às faces iradamente zombeteiras dos nossos adversários, nós mesmos nos sentimos diminuídos; parecemos estar realmente decrépitos, parece que não somos capazes de fazer sair dos nossos lábios a palavra definitiva, a palavra que dê força aos nossos órgãos, que dê vigor aos membros retesados e que os torne elásticos, aptos para a luta e para conquista fecundas.

Mas uma breve reflexão esmaga esse pessimismo. Sentimo-nos velhos porque o destino perverso nos fez nascer velhos. É o ar que respiramos, são as instituições que nos dirigem, são os homens contra os quais lutamos que são velhos. A cada golpe vigoroso que desferimos contra essa podridão, um fedor de velharia entope-nos as narinas; todas as vezes que remexemos nesta matéria em decomposição experimentamos tanto nojo que, inevitavelmente, sentimo-nos por ela atingidos. Como o Lao-Tsé da lenda chinesa, somos velhas crianças, gente que nasce com oitenta anos. Um acumular de tradições pesa sobre nós e temos de enrijecer os ombros para poder carregá-lo. Leis centenárias vinculam a nossa actividade atual; e o esforço das gerações passadas, que não se preocuparam em combater por nós, em nos abrir um caminho menos povoado de turbulências, de obstáculos que nada são quando considerados um a um, mas que são formidáveis no seu conjunto. Foi preciso a guerra para que nos libertássemos desse macio colchão de preconceitos, para que pudéssemos fazer de tantos subtis fios de seda uma sólida rede.

Mas a nossa palavra não é uma palavra de desalento. Ao contrário: é preciso ter bem claro diante dos olhos lúcidos o conjunto dos obstáculos para que seja possível destroçá-lo com o golpe de clava. A visão da vida social, que agora se nos oferece de modo integral, renova a confiança e o propósito que, no passado, só poucos podiam ter. Até mesmo os nossos companheiros de luta nos chamaram de místicos da revolução; e o fomos no passado, já que tínhamos apenas uma intuição da realidade, não uma representação plástica, viva, daquilo que era preciso abater. Onde todos viam apenas “factos” singulares, apenas “posições” singulares a conquistar com paciência para finalmente chegar ao topo, nós víamos um muro compacto, contra o qual arremeter, com um acto enérgico, voluntário, a massa das nossas forças.

Ou tudo ou nada, dizíamos. E a guerra deu-nos razão. Ou tudo ou nada deve ser o nosso programa de amanhã. O golpe de clava, não a trituração paciente e metódica. A falange irresistível, não a luta de toupeiras em trincheiras fétidas. Somos jovens velhos. Velhos pelo enorme acumular de experiência que recolhemos em pouco tempo, jovens pelo vigor dos músculos, pelo desejo irresistível de vitória que nos envolve. É a nossa geração de velhos jovens que deverá realizar o socialismo. Nossos adversários se debilitaram no enorme esforço despendido para que cada qual defendesse o seu pequeno território. Pois bem: sobre esse tronco realmente decrépito, vamos desferir o golpe final da nossa calva e assim chegará a nossa hora, impulsionada pela nossa vontade certamente irresistível, mas reflexiva.

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