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Time after Time – Desigualdade e crises financeiras | Vicente Ferreira

 “Ser radical é compreender a raiz das questões.”

Karl Marx

O radicalismo, para Marx, consistia no estudo profundo dos problemas. Numa carta a Ludwig Kugelmann, em Julho de 1868, Marx escrevia que “(…) assim que as causas profundas são compreendidas, a crença na necessidade de manter as condições existentes colapsa, antes mesmo de estas colapsarem na prática”. Para compreender a origem da recente crise financeira de 2007, propomos um estudo das suas causas profundas, em particular o aumento da desigualdade de rendimento e riqueza que marcou o período antecedente. Comecemos, então, pela raiz.

Evolução da desigualdade

A divisão da sociedade em classes não é um fenómeno recente – constitui, como sabemos, um dos traços fundamentais do capitalismo, desde a sua origem no Reino Unido por volta dos séculos XVII / XVIII. A constante acumulação de riqueza tem sido acompanhada por uma tendência para a produção e reprodução de desigualdades sociais, que resultam da organização do processo produtivo e das relações de poder que influenciam a distribuição dos recursos pelas diferentes classes. No entanto, a desigualdade não tem evoluído de forma igual, nem ao mesmo ritmo, em diferentes países e momentos históricos. Importa, por isso, que aprofundemos o estudo da desigualdade a partir dos anos 80 do século passado.

Quando olhamos para a distribuição do rendimento nas décadas que antecederam a crise de 2007, poucas dúvidas restam: a desigualdade aumentou consideravelmente durante este período.

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Figura 1 Fracção dos salários no PIB em alguns países desenvolvidos.Fonte: Stockhammer (2013), p. 8 

O gráfico da figura 1 mostra-nos a tendência de diminuição dos salários em percentagem do PIB nas principais economias, o que significa que uma parte crescente do rendimento total gerado nestas economias passou a ser atribuída ao capital, em vez de o ser ao trabalho. Esta tendência foi acompanhada, como se poderia prever, de um aumento da concentração de riqueza no topo. Veja-se, por exemplo, o gráfico da figura 2:

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Figura 2 Percentagem do rendimento do 1% do topo da distribuição, nos mesmos países. Fonte: World Top Incomes Database

A diminuição dos salários reais foi, por isso, acompanhada de níveis historicamente elevados de acumulação de riqueza no topo. Esta transferência de rendimentos do trabalho para o capital estará sobretudo relacionada com a viragem política do início dos anos 80, e com a ascensão do neoliberalismo como doutrina hegemónica, que marcou o início da implementação de políticas hostis ao trabalho, como a flexibilização do mercado laboral ou a dificultação do associativismo (a influência dos sindicatos, antes fundamentais na negociação salarial e na conquista de direitos laborais, diminuiu significativamente). A globalização e a mobilidade internacional de pessoas e capital acentuaram esta tendência, tanto pela promoção de uma ‘espiral descendente’ ao nível dos salários (pela competição entre os diversos países), como pela facilitação do aparecimento de paraísos fiscais.

Podemos concluir que desde o início dos anos 80 o fosso entre a elite e o resto da população aumentou, e de forma significativa. Um mundo cada vez mais desigual, e, como veremos, cada vez mais desequilibrado.

Tempos de prosperidade aparente

A experiência diz-nos que pessoas com menos dinheiro consomem uma parte maior do seu rendimento do que pessoas com mais dinheiro, pelo simples facto de que gastam a maior parte do rendimento em necessidades básicas, das quais não podem abdicar. O aumento da desigualdade devia, por isso, significar uma diminuição da procura global: afinal, havia cada vez menos dinheiro nas mãos de quem mais consome (proporcionalmente), e mais nas mãos de quem o pode poupar. No entanto, a procura agregada não sofreu uma quebra tão grande como se esperaria, e o consumo continuou a crescer. O que explica este aparente paradoxo?

A resposta é, na verdade, bastante evidente: as famílias, que viram o seu rendimento real (descontado o efeito da inflação) estagnar, foram incentivadas a recorrer ao crédito para não diminuir acentuadamente o seu nível de consumo. Para os bancos, o negócio corria bem: o número de empréstimos para consumo aumentou vertiginosamente, o que significava aumento dos lucros através da cobrança de juros. O sistema financeiro registou lucros historicamente elevados, e a confiança apoderou-se dos investidores: eram tempos de lucro, de expansão de negócios, tudo corria bem. Os bancos emprestavam, acumulando lucros (e risco), e as famílias podiam manter o seu consumo dentro dos padrões socialmente aceitáveis, acumulando dívida.

Eram tempos de prosperidade aparente.

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Hegemonia financeira

Não deixavam, porém, de ser tempos de crise anunciada. A dívida privada cresceu, neste período, para valores nunca vistos, como ilustra o gráfico.

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Figura 3. Evolução dos preços da habitação e da dívida das famílias. Fonte: Stockhammer and Wildauer, Debt-Driven Growth

A figura 3 é o resultado previsto: a dívida das famílias em percentagem do PIB registou um rápido aumento nos principais países, que compõe o estudo. No caso mais extremo, o britânico, o rácio passou de cerca de 40% em 1980 para mais de 110% em 2007 – o consumo foi financiado (e induzido) por crédito.

Este aumento do endividamento das famílias no período anterior à crise, possível devido à canalização da poupança dos mais ricos, contribuiu por sua vez para uma maior necessidade de serviços financeiros intermediários. Eram necessárias instituições bancárias para a concessão de crédito, o que fez aumentar a importância e poder do sector – a estrutura económica tornou-se cada vez mais dependente da finança, e cada vez mais vulnerável a crises. Como resultado deste processo de financeirização, a actividade financeira desenvolveu-se rapidamente, os lucros financeiros passaram a constituir uma fracção cada vez maior dos lucros totais, e a dívida total de empresas e famílias atingiu valores nunca vistos.

Além disto, a concentração de riqueza no topo tem também um contributo importante para o aumento do peso da finança. No gráfico em baixo, podemos ver a evolução da riqueza do grupo dos HNWI (High Net Worth Individuals, que correspondem a indivíduos com património líquido igual ou superior a 1 milhão de dólares). Por simplificação, referimo-nos a este como o grupo dos super-ricos.

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Figura 4. Valores dos activos e riqueza líquida dos HNWI, Índice (1997=100). Fonte: Goda et al (2014), p.14

A crescente concentração de riqueza no grupo dos super-ricos tem diversas origens, entre as quais o aumento da fracção do rendimento atribuída ao capital (e a diminuição da parte atribuída ao trabalho), ou a subida de preços de activos detidos por este grupo. A riqueza acumulada permitiu-lhes investir cada vez mais nos mercados financeiros mais desenvolvidos, como o norte-americano e o britânico, procurando activos financeiros de risco elevado que fossem mais rentáveis. Esta dinâmica ajuda a explicar a pressão para a inovação financeira, e o desenvolvimento de activos cujo risco era de difícil avaliação (geralmente chamados produtos derivados, entre os quais os CDO’s – collateralized debt obligation), e cujo valor atribuído não correspondia ao seu valor real. Como sabemos, a queda do preço destes activos seria, mais tarde, o ponto de partida da crise internacional.

É o tempo do domínio da finança sobre o regime de acumulação capitalista.

As contradições deste tempo

A desigualdade tem, pelo que vimos, um duplo contributo para explicar o período pré-crise: se por um lado as famílias, que viram os seus salários reais estagnar, tinham de recorrer a crédito (empréstimos bancários) para não verem o seu nível de vida diminuir significativamente, por outro as classes mais altas, que viram a sua riqueza (e, por isso, as suas poupanças) aumentar, procuravam canalizar o dinheiro para investimentos que lhes permitissem rentabilizar a poupança.

A contradição torna-se clara: existe uma tendência para o acentuar das desigualdades sociais no capitalismo, que por sua vez contribui para a ocorrência de crises do próprio sistema. O aumento da concessão de crédito foi a forma de contrariar a pressão da desigualdade e expandir artificialmente o mercado, o que permitiu sustentar a realização de lucro.

Existe, contudo, um último aspecto que ainda não explorámos: o papel da liberalização do movimento de capitais para a compreensão da crise. A liberdade de circulação do capital, promovida a nível global desde o início dos anos 80 do século passado, permitiu a países com excedentes orçamentais (como a China, o Japão, ou países emergentes) canalizar esses excedentes para países deficitários com mercados financeiros desenvolvidos, como o Reino Unido e os EUA. Este movimento permitiu aos últimos manter a dinâmica de endividamento crescente até ao período da crise. No caso português, a integração europeia permitiu a canalização de excedentes alemães, por exemplo, que alimentaram o crescimento da dívida (maioritariamente privada). Os desequilíbrios internacionais entre países que acumulavam excedentes e países que acumulavam dívida são, também, resultado do processo de financeirização.

Assim, a origem da crise é a combinação do processo de desregulação financeira com o enorme aumento da desigualdade de rendimento e riqueza.

A próxima crise – ainda vamos a tempo?

Há mais de 60 anos, Chet Baker interpretava o tema da repetição e da recorrência na célebre música Time after Time. A sua lição, sensata, era a de que existem fenómenos que se repetem invariavelmente, à medida que o tempo passa. Poderemos aplicá-la às crises do capitalismo?

Se olharmos para os principais factores que estiveram na origem da crise – o aumento da desigualdade, a desregulação financeira, o crescimento da dívida e a especulação –, concluímos que todos se mantiveram (ou acentuaram) na década que passou. Segundo dados da OCDE, a desigualdade de rendimento aumentou mais entre 2007 e 2010 do que nos 12 anos anteriores à crise. Os salários reais continuaram a diminuir (sobretudo em países que adoptaram políticas de austeridade), e o fraco crescimento económico tem sido apropriado sobretudo pelo 1% do topo, através da recuperação do preço dos activos financeiros detidos por este grupo. A este facto podemos acrescentar o aumento do endividamento (o rácio da dívida sobre o PIB mundial aumentou em 38% desde 2008), e o aumento da especulação financeira através de instituições não reguladas (a chamada finança-sombra, que não aprofundaremos aqui).

O cenário é, no mínimo, pouco promissor. A década que passou depois da crise parece apenas ter lançado as sementes para um novo colapso, o que apoia a ideia de que o ciclo é o resultado do próprio funcionamento do sistema capitalista, e que as crises se repetem. Tal como nos diz a música.

Embora seja incapaz de prever o futuro, a economia pode ajudar-nos a aprender com o passado. Compreender a origem da crise do subprime é fundamental para saber avaliar os recentes desenvolvimentos da finança e fazer as escolhas necessárias. O papel de uma esquerda que não desiste de se bater por alternativas é o de enfrentar o poder do sistema financeiro, principal responsável pelo actual regime de acumulação que reproduz e acentua as desigualdades.

Como sempre, a chave está na raiz.

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