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O lugar do Feminismo na Esquerda | Mulheres de Armas

Na corda bamba

O feminismo é o patinho feio da política de esquerda; é aquele tema em que os partidos políticos tocam ao de leve com receio de o aprofundar e ter de atingir as questões fulcrais em que estão em falta (e convenhamos, todos os partidos estão em grave falta para com o feminismo), e que urge serem trazidas para a agenda política da esquerda.

Um mero cartaz acutilante no Primeiro de Maio coloca a discussão ao rubro nas redes sociais e, oportunamente, revela as múltiplas fragilidades de uma discussão – em torno do trabalho reprodutivo – para a qual a maior parte dos intervenientes se revela impreparado, profundamente desinformado e imbuído de machismo internalizado a um nível quase molecular. Este episódio, em conjunto com diversos outros que têm animado o debate, põe a nu de forma muito evidente a forma como o feminismo se encontra num equilíbrio instável entre quem o procura reduzir a uma parcela menor e lateral da luta de classes e quem o encerra sobre uma pequena parte de si mesmo, incapaz de traçar recortes e intersecções alargadas. Neste texto, pretendemos alegar que ambas as posturas, que podíamos sintetizar como o reducionismo classista e o feminismo liberal, estão profundamente erradas e derivam de noções incompletas da própria realidade do feminismo.

Por um lado, o feminismo, enquanto luta complexa contra opressões múltiplas, não pode ser encarado como um ponto de fragmentação dentro da classe trabalhadora. Nem o tema é possível de equacionar de forma estanque e alheia a toda uma miríade de conflitos convergentes, difusos e de limites permeáveis, como a questão racial, a identidade sexual, ou privilégios de cariz económico e cultural, entre outros, nem a sua distanciação da luta proletária é minimamente racional. O capitalismo funda-se e alimenta-se da opressão particular das mulheres, como a discussão sobre o trabalho reprodutivo demonstra. Uma mulher trabalhadora não é trabalhadora antes de ser mulher, não actua em espaços enquanto unidade de produção da força de trabalho ou enquanto pessoa de género feminino, mas enquanto mulher e trabalhadora simultânea e indivisivelmente. Da mesma forma, a tentativa de continuamente protelar as reivindicações feministas sob a absurda noção de não carecerem de tratamento prioritário, é só mais uma forma de opressão, agravada por tantas vezes se verificar no seio de grupos que se definem como na vanguarda da luta pelo socialismo, mas que em concreto convivem pacificamente com a hierarquização de causas para secundarizar as opressões contra as mulheres. Esta assumpção parece-nos um mero artefacto intelectual revelador de uma compreensão limitada e errónea do tecido social da classe ou uma manifestação desonesta, porém por demais conspícua, da invisibilização constante das opressões femininas.

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Dito isto, a “questão feminista” não é resolvida com uma revolução socialista que vire os pólos à luta de classes. Em qualquer contexto de desigualdades sociais, às mulheres acresce a pressão omnipresente de uma sociedade globalmente patriarcal, com normas sociais, percepções e constrangimentos diferenciados. A luta contra o machismo é uma luta em todas as suas frentes: machismo estrutural, laboral, sexual, institucional, judicial, privado, quotidiano, interpessoal, etc. Se o machismo é uma parte indissociável do capitalismo, não é redutível a este, abarcando relações de poder que claramente o extravasam. Um feminismo centrado na esfera da economia e nas reivindicações – que de resto são genericamente aceites – de igualdade laboral, jurídica, familiar e luta contra a violência física de género é um feminismo que não cobre todas as pautas, deixando de parte uma miríade de questões ligadas à identidade, ao espaço privado e às micropolíticas de desigualdade. Arrumar esta parte do feminismo como irrelevante, menor, ou passível de ser resolvida ‘mais tarde’ é um erro crasso. O modo irónico como o feminismo é despachado enquanto incómodo que radica de políticas identitárias ou pós-modernas revela uma incapacidade, ou melhor, prova um desinteresse na luta pela emancipação da mulher, toda a emancipação, de todas as mulheres.

Igual erro cometemos quando deixamos a descoberto a oportunidade de o tema ser apropriado por movimentos de elites com particular visibilidade por pertencerem à classe dominante e terem acesso a presença e promoção privilegiada no quotidiano (através da comunicação social, por exemplo). Um feminismo centrado apenas sobre si próprio e nas reivindicações da classe média, que não atenta nas intersecções com outras formas de opressão, económica ou racial é, por seu turno, um feminismo que não abrange todos os seus sujeitos, que deixa de fora imensas mulheres, que se limita a exigir igualdade para as fêmeas da mesma classe, brancas, com educação privilegiada, um feminismo heteronormativo, que traça uma linha clara de exclusão. O feminismo burguês, na sua exclusividade, não só falha na inclusão de batalhas das mulheres menos privilegiadas (não brancas, pobres, bi ou homossexuais, trans, de minorias religiosas, etc.) e na sua representação, como falha ainda e sobretudo nos objectivos subjacentes. Não nos iludamos: a burguesia jamais lutará pelo seu fim, como parece flagrante, pelo que não é aceitável qualquer tentativa de purplewashing, ainda que revestida de complacência pelo povo.

Face ao reducionismo classista e ao feminismo branco liberal, ambos incapazes de combaterem todas as opressões sofridas por todas as mulheres, propomos um feminismo que se assume plenamente como uma luta pela liberdade, emancipação e direitos de todas, que engloba várias pautas, e interseccional, que assuma as fronteiras fluidas com outras opressões, sabendo que estas têm de ser consideradas e levadas em linha de conta para se efectivamente abrir espaço para uma transformação que sirva todas as mulheres. O conceito de interseccionalidade, ou seja, a ideia de que coexistem na sociedade opressões múltiplas que devem ser consideradas conjuntamente e que tendem a sobrepor-se e multiplicar-se, é essencial para uma visão completa do feminismo e do seu lugar na luta social.

O que eu andei para aqui chegar

A própria história do feminismo mostra-nos, de forma precisa, como este caminho decorreu, desde sempre, na corda bamba. A narrativa fundacional prevalecente do movimento tende a frisar precisamente esta diversidade de pautas e arenas de luta. É comum situar o começo do feminismo naquilo a que se convencionou chamar a primeira vaga, a sufragista, na viragem do século XX, embora com antecedentes dispersos no passado, ainda antes do cunho da própria palavra feminismo. A luta das mulheres desta altura decorria a par com as diversas lutas em torno do movimento operário – no qual também foram protagonistas activas, ainda que frequentemente silenciadas pelos seus camaradas e pela História. O feminismo aparece assim como uma ocorrência lateral naquilo que hoje chamamos de “velhos movimentos sociais”, centrados na esfera da economia e dos direitos. A ridicularização sofrida por essas mulheres é hoje vista como inacreditável e o sufragismo aparece-nos legitimado como causa séria e evidente.

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A segunda vaga aparece em meados do século XX, pelos anos 60, no momento de explosão daquilo a que a sociologia chamou os Novos Movimentos Sociais, onde as reivindicações classistas construídas em torno do movimento operário foram substituídas por movimentos com reivindicações mais parciais e identitárias, aquilo que depois se veio a chamar de políticas da identidade (feministas, estudantis, pacifistas, anti-racistas etc.). O feminismo de segunda vaga estende-se para lá das questões do voto e engloba todo um conjunto de reivindicações face a outras formas de discriminação, com destaque para a inclusão do espaço privado enquanto arena política. Finalmente, a terceira vaga, que coexiste criticamente com a segunda, visa reagir e colmatar falhas da segunda vaga: um centramento nas questões da classe média branca e uma certa visão essencialista do próprio feminino e do que é adequado para as mulheres. Coexiste com aquilo a que se chamaram os Novíssimos Movimentos Sociais, que se caracterizam, entre outras coisas, por propor novas sínteses entre as reivindicações económicas e laborais e as identitárias, rompendo com a dicotomia vigente. Esta visão mais optimista que prevalece entre algumas teorias dos movimentos sociais, esbarra, no entanto, nas concepções comuns que ainda tendem a, tal como identificámos inicialmente, encaixar o feminismo e a luta contra várias opressões como uma questão identitária, por oposição aos temas do foro económico e classista.

A narrativa do feminismo é ainda transposta noutra divisão muito importante, a ideia de que o feminismo tem diversas vertentes, algumas relacionadas com narrativas mais abrangentes que definem a sua própria posição face ao domínio da economia: feminismo marxista, anarco-feminismo, feminismo liberal, outras ancoradas na própria construção do género como o feminismo radical, outras ainda na exploração das fronteiras: feminismo negro, islâmico, interseccional, etc… Também as diversas vertentes se posicionam de diferentes formas face à dicotomia economia-identidade e ao lugar do feminismo na esquerda. São evidentes algumas linhas de fractura relevantes dentro dos próprios feminismos; podemos destacar, por exemplo, como tópicos particularmente quentes: a questão do trabalho sexual ou o posicionamento face aos papéis de género, com implicações na relação com o movimento trans.

Os dias feministas

Qual é então o lugar do feminismo na esquerda? Responder a esta questão é uma tarefa bem mais árdua do que aquela que nos propusemos até agora: a denúncia dos reducionismos atuais e históricos. Como desenvolver, na prática, um feminismo abrangente e interseccional? Procuramos contribuir com duas linhas de reflexão, uma centrada nas práticas feministas, outra nas pessoas que lhe dão corpo, nas redes que se constroem em torno do movimento e no lugar das mulheres feministas nessas redes.

Em primeiro lugar, propomos encarar o feminismo como uma práxis que engloba vários repertórios de acção e várias arenas de luta. Esta é, de resto, uma reivindicação antiga de um movimento que esbate as fronteiras entre o público e o privado. Por um lado, inscreve-se em arenas de contestação comuns a outras lutas: o mercado laboral, as leis que regem a vida em sociedade, a ocupação do espaço público e político, a luta contra a violência física. Por outro lado, penetra francamente no espaço privado onde põe a nu as desigualdades no espaço doméstico, nas relações interpessoais, nas normas sociais que procuram controlar os corpos físicos. A acção feminista é, assim, uma acção colectiva que percorre os repertórios de acção tradicionais dos movimentos sociais: a greve, a manifestação, o agit-prop, o lobby pela inscrição da agenda dos direitos das mulheres na agenda pública; mas é também uma acção que decorre no espaço privado, uma luta pelas palavras, pela liberdade sexual, contra a submissão dos corpos ao padrão, por relacionamentos livres de dominação e despojados de controlo.

Esta diversidade nega, todavia, a noção de que existem duas faces do feminismo, uma pública, outra privada, uma individual, outra colectiva, uma relevante, outra irrelevante, uma revolucionária, outra reformista. Rejeitamos, sobretudo, a dicotomia entre o bom feminismo e o mau feminismo. Se as várias faces da opressão se alimentam mutuamente, também o fazem as várias faces da luta e por isso mesmo, a luta feminista tem de ser uma luta prefigurativa, marcada por ciclos de protesto de grande visibilidade, mas também por uma desconstrução quotidiana em que as causas são vividas e incorporadas no dia-a-dia. O lugar do feminismo é a sociedade no seu todo.

Esta diversidade nos repertórios de acção está também presente nas protagonistas: as feministas marcham lado a lado com outras lutas que também são suas, por exemplo, nas reivindicações pelas alterações no plano do trabalho, da autonomia, da distribuição social da riqueza, mas também contra o fim das várias opressões estruturais (que penalizam, todas elas e de forma particularmente penosa as mulheres), pelo fim do racismo, da homofobia, etc…

Da mesma forma, acolhemos e necessitamos ao nosso lado de toda a sociedade, homens incluídos, assumindo que o capitalismo é, ele próprio, construído sobre a opressão particular das mulheres, do seu papel enquanto principais guardiãs do trabalho reprodutivo e que os efeitos do patriarcado penalizam também os homens e particularmente os que não encaixam nos ditames dos papéis de género socialmente construídos, ou seja defendendo uma transformação social radical que só pode ocorrer com o feminismo mas que não pode ser apenas feminista.

Propomos uma estrutura múltipla de relações em que, enquanto mulheres, assumimos a vanguarda dos assuntos que nos dizem respeito, pela preponderância que nos dá o lugar de onde falamos, considerando lugar de fala enquanto ferramenta que nos permite perceber o contexto em que as palavras são produzidas, com uma utilidade política óbvia, que é a da autonomia: as mulheres, por experimentarem na pele a opressão machista, falam sobre ela de um lugar diferente dos homens, da mesma forma que alguém que se tenha dedicado a estudar um tema fala sobre ele de uma forma necessariamente distinta de quem apenas tem uma visão impressionista sobre o assunto. Nesse sentido, e acreditando que as classes oprimidas devem ser o sujeito da sua própria libertação, o conceito de lugar de fala surge como determinante para identificar o lugar das vanguardas na luta. Tal não deve significar, no entanto, a ideia do lugar de fala como algo de que se é proprietário, e que conduz à hierarquização dentro do movimento e ao distanciamento face a outras falas que também devem ser consideradas.

Se futuro há para o feminismo, é este: romper com as dicotomias tradicionais dentro dos próprios movimentos políticos e inventar criativamente novas formas de fazer política de forma multivocal e reticular.

Desafios

Mais do que exigir a justa visibilidade ao feminismo na agenda política da esquerda, interceptando-o com todos os outros temas frequentes nos fóruns de discussão, a luta feminista, convergência de múltiplas opressões sistémicas, radicadas no modo de produção capitalista, num sistema moral paternalista e imbuído de referências judaico-cristãs, numa justiça burguesa, à medida dos poderes dominantes e, assim, grandemente prejudicial às minorias, na socialização profundamente patriarcal e falocêntrica, tem de se tornar prioritária.

É sobre esta urgência de debater e, sobretudo, actuar contra as opressões generalizadas de várias géneses e que se manifestam transversalmente que reclamamos para o feminismo um papel cimeiro na política. A acrescer a esta batalha primária, acresce ao feminismo interseccional e anticapitalista o desafio de superar os constrangimentos falsamente assentes sobre o receio de fragmentação da classe, de conquistar um lugar de relevo dentro das plataformas de acção política e social em que a esquerda actua, e em simultâneo deixar clara a distanciação do feminismo burguês, liberal e branco.

Nós, feministas de esquerda, exigimos que a nossa voz seja ouvida com clareza: não admitimos uma luta de classes que descure o feminismo interseccional; rejeitamos liminarmente a representação por parte de um autoproclamado feminismo de acesso exclusivo às elites privilegiadas e que, acomodado na classe dominante, é mais um agente de opressão da classe operária. Chamamos à acção movimentos irmãos na luta pelos direitos de todas as liberdades, sem abdicar do nosso lugar de fala. Repetimos amiúde o que consideramos ser a pedra basilar das causas que nos movem: não há feminismo sem luta de classes, não há luta de classes sem feminismo! A sensibilização para esta evidência está, inequivocamente, em défice profundo na discussão política portuguesa.

Não obstante alguns sinais positivos mais recentes da sociedade civil, muito há ainda por fazer. Não bastam expressões de indignação e repulsa moderadamente mobilizadoras perante o sexismo incipiente na educação das crianças ou perante sentenças judiciais vergonhosamente sediadas numa moral misógina e bafienta de inspiração cristã. É necessário imprimir na sociedade mudanças efectivas; é preciso mais, melhor, insistentemente presente e incisivo activismo feminista. É preciso concretizar inúmeras revoluções concretas, dentro dos locais de trabalho, nas relações sociais e familiares. Cada pessoa é uma potencial agente revolucionária, um foco de mudança. A luta não é só uma, mas cada luta é de todas.

As Mulheres de Armas são um colectivo feminista anticapitalista.

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