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Da ‘imaginação ao poder’ ao ‘Novo espírito do capitalismo’ | João Santos

Passados cinquenta anos da insurreição de Maio de 68 não há duvidas de que existem vários maios em maio. Para uns, 68 significou principalmente um confronto cultural, muitas vezes no campo do imaterial e do simbólico, levado a cabo sobretudo pelos estudantes através da sua negação da sociedade tradicional e conservadora. Para outros, representou a hipótese renovada de um derrube do capitalismo, sepultado pela mobilização massiva da classe operária e da sua articulação com os estudantes – vista sobretudo como a classe trabalhadora em formação. Sendo impossível desligar a ruptura cultural da ruptura material substanciada pela critica e mobilização de classe, gostaria de me debruçar sobre um ponto que é transversal a este(s) maio(s): a recuperação da imaginação e da criatividade.

A palavra de ordem ‘imaginação ao poder’ sintetizou a crescente crítica à sociedade disciplinar e fordista, revelando a ambição dos estudantes em não se tornarem meras peças de uma sociedade-máquina e, ao mesmo tempo, o desejo dos trabalhadores em irem além das reivindicações economicistas geridas pelo aparelho sindical, confrontando o ritmo da linha de montagem e o controlo que esta tinha sobre a sua vida. O ano de 1968 inaugurava assim um ciclo de lutas global que colocou em causa o funcionamento da sociedade-fábrica. Contudo, se em alguns momentos esta crise pareceu ser forte o suficiente para derrubar o sistema, assistimos pelo contrário àquilo que Boltanski e Chiapello denominaram como “novo espírito do capitalismo”. Absorvendo a crítica à fábrica e à disciplina da sociedade de massas, o capitalismo ‘descobriu’ a criatividade e a comunicação como dispositivos de controlo correspondentes às necessidades da sua fase neoliberal. Desta feita, e contrariamente ao seu significado inicial, podemos considerar que a imaginação chegou de facto ao poder, mas não no seu sentido emancipatório. A sua ascensão fez-se sobretudo a partir do interior do próprio sistema de exploração, tornando-se assim poder sobre o outro. A potencial derrota do capitalismo desembocou desta forma – utilizando o conceito desenvolvido por Foucault – na sua vitória biopolítica. A exploração do homem pelo homem, de que Marx falava, deu um salto qualitativo. Não basta agora disciplinar os corpos operários nas minas, em linhas de montagem ou em qualquer outro espaço de exploração absoluta. O novo período capitalista exige mais do que isso, sendo que se trata também de produzir modos de vida constantemente em mutação e com a capacidade de intervir no campo subjectivo de forma a apresentar uma realidade otimista e carregada de ‘singularidade’, mobilizando-a de forma a que se torne produtiva. Nesse sentido, a emancipação do mundo burocrático exigida pelos estudantes e operários pode ser apontada como o embrião do que hoje conhecemos como sujeito empreendedor, que incorpora o próprio capital – capital humano – e cuja imaginação e criatividade são as ferramentas de valorização de si mesmo enquanto empresa no interior do sistema capitalista.

Cinquenta anos passados, encontramo-nos perante um impasse que tem revelado a incapacidade de descobrir formas organizativas duradouras e com potencial para romper com esta nova forma de exploração. A ideologia da criatividade multiplica-se e domina todos os campos da nossa vida. É este o grande desafio lançado pelas comemorações de Maio e que provavelmente será remetido para um canto, subsumido por aquilo que nos é quotidianamente apresentado como a eterna urgência táctica e imediatista.  No que toca às comemorações propriamente ditas, a esquerda institucionalizada certamente que despenderá todos os seus esforços para o celebrar a rebeldia de Maio, mas tudo fazendo para evitar praticar a crítica radical que ali se desenvolveu. A paisagem política deixa-nos facilmente antever esse destino, revelando sobretudo como a imaginação radical celebrada e elogiada se encontra, na verdade, refém do inimigo de classe. Saímos à rua no 1º de Maio não para avançar nas lutas e formas de organização contra o capitalismo, mas para reproduzir um ritual em que as palavras de ordem se encontram derrotadas na prática e sem luz ao fundo do túnel; dirigentes de esquerda falam-nos de socialismo, mas não o conseguem imaginar para além de um Estado Social eficiente – a ironia!

No entanto, e contrariando o quase sempre certeiro pessimismo da razão,  Maio de 68 não é apenas refém do nosso presente, e deve ser pensado enquanto potência emancipatória. Apesar de não ter derrubado o sistema capitalista, deixou-nos duas lições bastante claras e sobre as quais não basta refletir, mas também agir: 1) o capitalismo, longe de estar sempre à beira do seu ‘fim’, tem a capacidade de se relançar a partir desse mesmo ‘fim’, demonstrando uma enorme capacidade de reapropriação e inversão das reivindicações anti-sistémicas; 2) num momento em que a tese do fim da História se mostra cada vez mais descredibilizada, abrem-se novas potencialidades emancipatórias. Torna-se essencial imaginar e colocar em prática novas formas de poder que possibilitem a ruptura com o capitalismo. Não existem dúvidas de que não será um caminho fácil e muito menos que permita a mera aplicação de receitas pré-definidas. No entanto, as celebrações de Maio de 68 (re)apresenta-nos a urgência de – parafraseando Sophia de Mello Breyner – navegar sem o mapa que fazemos.

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