Entrevistas

Viola Carofalo. “Tem faltado uma organização política que consiga falar e organizar-se junto dos trabalhadores” | Praxis Magazine

Desde do fim do histórico Partido Comunista Italiano, em 1991, que a esquerda italiana entrou num processo de fragmentação constante. Um breve sopro de esperança ganhou força com a formação do Partido da Refundação Comunista nos anos a seguir ao fim do Partido Comunista, mas as expectativas saíram defraudadas nos anos que se seguiram.

No seguimento das eleições legislativas de 2006, o Refundação Comunista entrou em negociações e formou governo numa coligação com Romano Prodi, do partido A Oliveira, que, mais tarde, veio dar origem ao Partido Democrático, apoiando o refinanciamento da presença da força militar italiana no Afeganistão. Desde desse momento que a Refundação é uma miragem do que foi e poderia ter sido, fragmentando novamente a esquerda radical italiana.

Hoje, a esquerda radical italiana está a passar por um processo de reorganização programática, estratégica e organizacional. O aparecimento da coligação Potere al Popolo, criada em Novembro passado e que atingiu os 1% dos votos nas últimas legislativas, é o exemplo mais marcante. O Praxis Magazine falou, por email, com a porta-voz nacional da coligação, Viola Carofalo, sobre esta nova força política, as suas expectativas e quais os seus próximos passos numa Itália onde as forças de extrema-direita têm ganho crescente força.

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O Potere al Popolo surgiu depois de vários anos em que a esquerda radical teve muito maus resultados em Itália. Qual a importância da criação do partido?

Criámos o Potere al Popolo não depois de vários anos em que a esquerda radical teve maus resultados, mas sim depois de ter desaparecido completamente do plano eleitoral. Pensámos que os trabalhadores, estudantes, desempregados não podiam viver mais tempo sem terem representantes ou pelo menos sem alguém que pudesse falar com e sobre eles. Obviamente que isto não quer dizer que não tenham existido ou existam movimentos de esquerda radical. Itália está repleta de movimentos. Centros sociais, comités que trabalham diariamente para e com os trabalhadores, mas isso não é suficiente. Infelizmente, os cenários políticos italiano e europeu mostram como a direita e a extrema-direita estão a ganhar consentimento e, portanto, entendemos que era necessário lutar também no plano eleitoral para não o deixar vazio mais uma vez.

Quais são as influências políticas do vosso partido movimento?

O Potere al Popolo é composto por várias organizações, partidos, movimentos e associações e todos temos as nossas influências, mas podemos dizer com toda a certeza que somos socialistas e comunistas que vêm de uma tradição e educação marxista e leninista.

Como é que o partido movimento se organiza?

Ainda somos um partido movimento muito jovem. Nascemos em Novembro, então ainda estamos a discutir e a experimentar as melhores formas para nos organizarmos. Temos a certeza que queremos evitar transformar-nos num partido tradicional, com uma direcção que decide e onde o resto apenas segue ordens. Tentámos e estamos a tentar – e acreditamos verdadeiramente nisto – que cada núcleo pode ser o centro das decisões no seu território. Têm reuniões onde discutem e decidem o que fazer e qual a estratégia a usar, de acordo com os princípios do partido movimento.

O que achas que falhou nos últimos anos para se ter uma união das lutas políticas e económicas?

Achamos que a esquerda em Itália perdeu o contacto com o povo. Nos últimos anos todas as organizações, sindicatos e partidos, não conseguiram falar com o povo sobre como lidar com as transformações no mercado laboral e na sociedade como um todo. Em vez de experimentarem novas práticas e linguagem, preferiram usar as velhas estruturas para sobreviver.

Que análise fazem da vossa campanha eleitoral e resultados? Ficaram satisfeitos?

Atingimos mais de 1%, mas não foi suficiente para conquistarmos representantes no parlamento. Ainda assim, estamos satisfeitos com os resultados se tivermos em conta que somos um novo partido movimento, que não tivemos pessoas famosas nas nossas fileiras, que não tivemos – nem temos – dinheiro. Este resultado é positivo. Queremos ainda ver os nossos resultados num panorama geral.

Nas últimas eleições todos os partidos “esquerdistas” tiveram maus resultados, enquanto as organizações de direita racista alcançaram um ainda maior consentimento. Apesar dos 1%, conseguimos ganhar muito mais: temos camaradas por todo o país  que estão a trabalhar para construir este novo movimento, conhecemos mais jornalistas, a nossa página de facebook fortaleceu-se imenso e ,para quem veio de um percurso em centros sociais, aprendemos muitas coisas novas.

Neste momento não existe ainda um governo em Itália. Que solução achas que vai surgir? Qual é a tua perspectiva?

Acho que os principais partidos vão chegar a um compromisso de alguma forma. Ninguém quer realmente disputar novas eleições, nem a coligação de centro direita. E se não se chegar a um compromisso, o Fundo Monetário Internacional e o presidente italiano, Sergio Mattarella, vão encontrar uma solução.

Como caracterizas o escalar da violência relacionada com forças políticas neofascistas, como o CasaPounde, e forças populistas de direita racista?

Isso acontece por haver muita ignorância, nomeadamente por as pessoas não saberem a verdade e acreditarem na única interpretação que lhes é dada: que os imigrantes são os seus inimigos e que o problema em Itália são eles.

Há imensas fake news sobre os imigrantes e de como cá vivem e isto acontece todos os dias e a toda a hora. Obviamente que as pessoas depois passam a acreditar nisso. Não são apresentados outros pontos de vista nem perspectivas. E claro que que atingem um “inimigo” fácil e fraco como os imigrantes. Tudo é mais fácil e a própria discussão é mais facilmente compreendida, mesmo que não seja verdade.

O que achas ser necessário para os trabalhadores reconquistarem o papel de liderança que hoje não têm?

Se os trabalhadores já não têm o papel que antes desempenhavam e que deveriam ter, é por causa de como a política está a ser conduzida. Por um lado, os sindicatos, principalmente os maiores em Itália, que se esqueceram do significado de defender os interesses e direitos dos trabalhadores. Os sindicatos têm-se limitado a não serem obstáculos aos políticos e patrões e, portanto, não se têm oposto, de forma séria, às reformas do mercado laboral das últimas décadas. Por outro, existe a questão da ascensão de movimentos de direita e fascistas que nos fazem acreditar que o nosso inimigo é o “outro”, ao mesmo tempo que os partidos de direita nos levam a crer que os trabalhadores e os patrões estão do mesmo lado da barricada e que deveriam trabalhar em conjunto para “salvar a Itália”.

Da nossa parte, entendemos que tem faltado uma organização política que consiga falar e organizar-se junto dos trabalhadores, afirmando-se como uma referência para eles e para os sindicatos. Uma que tente avançar com a luta.

No final de março, em Roma, a vossa coligação abriu uma Casa do Povo para dar resposta às necessidades de desempregados, famílias e precários, entre outros. Está nos vossos planos abrirem mais casas deste género por todo o país? Qual é a sua importância?

Abrir Cadas do Povo é o principal objectivo do Potere al Popolo. Abrimos uma em Roma, mas também em Florença, Nápoles onde uma já existia, mas também em muitas outras cidades e vilas onde temos camaradas a trabalhar politicamente para criarem actividades sociais e estratégias para responder às necessidades da classe trabalhadora.

Quais serão os vossos próximos passos? E expectativas?

Ainda estamos a tentar construir o movimento. Temos a certeza de que precisamos de uma estrutura e organização mais fortes, além de termos de crescer, conhecer mais pessoas e envolver mais activistas. Já realizámos uma reunião nacional no passado dia 18 de Março e o próximo grande passo será entre 26 e 27 de Maio, em Nápoles, onde reuniremos todos os activistas para discutir a nossa estratégia política. Em Setembro teremos uma outra reunião que se debruçará sobre como podemos fortalecer a nossa estrutura de movimento da melhor forma.

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