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O trambolho e a austeridade permanente | Carlos Carujo

Para a direita era uma geringonça. Uma máquina esquisita feita de partes que pareciam não se encaixar. A designação-julgamento tinha muito de wishful thinking. Procurava tornar-se a profecia auto-realizável de que o governo do Partido Socialista, apoiado parlamentarmente por BE, PCP e Verdes, estaria condenado a desfazer-se a curto prazo. Com as vantagens do mesmo sound bite introduzir a ideia de que esse governo seria um corpo estranho à política “normal” (falho da “legitimidade” dos “vencedores” das eleições) e, pelo caminho, estigmatizar um mecanismo destinado fatalmente ao descontrolo pela força do radicalismo.

Contudo, a história do sucesso da palavra “geringonça” no discurso político-mediático português é a mesma história do falhanço destes efeitos/previsões. Apropriada e expropriada das suas intenções, tornou-se uma caricatura de si própria. E o discurso do “novo PREC”, que tinha até tudo para funcionar, empanou apenas no detalhe absurdo da teimosia da realidade.

A questão é que, vista da esquerda, a geringonça é afinal um trambolho. A palavra trambolho, no sentido original, não implica um julgamento estético sobre algo supostamente feio nem remete para a instabilidade do que seja desengonçadamente pesadão. Um trambolho é um objecto que se pendurava num animal para o impedir de se afastar para muito longe de casa. É, portanto, uma ferramenta rudimentar mas eficaz de domesticação.

A geringonça é afinal um trambolho porque capturou a capacidade reivindicativa da esquerda parlamentar portuguesa e várias das possibilidades de mobilização extra-parlamentares no âmbito das limitações próprias de um governo conformado aos tratados europeus austeritários.

A geringonça é afinal um trambolho porque o peso das suas conquistas – sobretudo a famosa “recuperação de rendimentos” cuja explicação governista procura obliterar a conjuntura económica actual, tudo fazendo para evitar quaisquer comparações com o que se passa na Europa sobretudo no Estado Espanhol – tem como contrapartida que a esquerda não se possa afastar daquela casa de partida.

A geringonça é afinal um trambolho porque obrigou a esquerda à esquerda do PS a desdizer-se: da ideia que seria impossível um governo de “austeridade inteligente”, à ideia de que um governo que não resolvesse os problemas da dívida, do euro, da banca ou do modelo produtivo do país seria um governo que continuaria a afundar o país.

A geringonça é afinal um trambolho porque implica uma contradição no que é dito entre a crítica das “limitações” e o elogio dos resultados obtidos de que tem saído claramente vencedor o elogio. Induz também a percepção popular do aumento da distância entre “o dito e o feito”, remetendo parte significativa do discurso esquerdista para o domínio do protesto simbólico (“afinal, digam o que disserem, depois votam no orçamento e apoiam o governo”).

Estas contradições permitem que haja quem tire a conclusão de que a dimensão mais “radical” desses discursos seja apenas uma espécie de tentativa de salvar a face – e assim poder-se-ia acreditar que, por detrás de protestos mais ou menos tímidos, os partidos mais à esquerda esconderiam uma rendição total à solução geringonça. Permitem também, obviamente, o inverso: que haja quem veja essa dimensão “radical” como a sua verdadeira face que mais tarde ou mais cedo se irá revelar. Seja como for, a tensão entre estes elementos joga a favor da defesa do mínimo denominador comum social-liberal, da “unidade da esquerda”, da “estabilidade”, do “pragmatismo”. Consolidam-se ideias como “se assim resultou porquê ir mais além?” e/ou “se fossem eles a mandar o euro acabava e o colapso viria, não cumpriam as regras e éramos expulsos da União Europeia etc.”

A geringonça é afinal um trambolho porque alterou a forma como parte da esquerda anticapitalista é  vista: de alternativa política global passou a poder ser mais facilmente encaixada no papel de mera negociadora dentro do sistema.

A geringonça é afinal um trambolho porque prendeu a esquerda por quatro anos a um cenário político e económico que só era válido no pós-eleições (o projecto negativo de acabar com a parte mais abertamente escandalosa da austeridade). E, somando ganhos da situação económica internacional com o pecúlio acumulado dos cortes, Centeno brilha no Eurogrupo como o bom aluno que foi promovido temporariamente ao papel de assistente.

A geringonça é afinal um trambolho porque resultou sobretudo num governo com o qual estão completamente confortáveis tanto os donos de Portugal, quanto os tecnocratas de Bruxelas, quanto os capitalistas dos países mais poderosos da Europa. Um governo que não coloca em causa o colonialismo da dívida, nem a ditadura financeira internacional, mantendo a legislação de trabalho da troika e o modelo de baixos salários.

A geringonça é um trambolho porque é a aceitação da normalização da austeridade agora e um fardo pesadíssimo para o futuro da esquerda que não se conseguirá libertar tão cedo da marca de ter aceitado votar orçamentos com níveis de investimento público em mínimos históricos e que continuam a sufocar o Estado Social, nomeadamente o Serviço Nacional de Saúde e a Educação. A pergunta que pairará doravante será sempre a mesma: se aprovaram no passado porque se queixam agora?

A geringonça é um trambolho porque ao peso da Europa da tirania da austeridade permanente se soma o contra-peso da celebração das pequenas conquistas para não deixar fazer caminho um projecto político alternativo ao social-liberalismo. Claro que as jogadas político-mediáticas institucionais, a gestão esperta dos ciclos políticos, a racionalidade do “tudo o que está mal foram eles, tudo o que está bem fomos nós”, o arrastar-se tacticamente sob o jugo dos trambolhos poderão até render votos a curto prazo. Mas é preciso bem mais. É preciso outra ferramenta que não uma geringonça ou um trambolho. É precisa uma recuperação de atrevimentos para chegarmos ao mínimo exigível. E, cinquenta anos depois das revoltas do Maio de 1968 terem sacudido um mundo que parecia estagnado, pode-se dizer que há uma escolha a ser feita entre um realismo que nos amarra e um realismo que nos deixa bailar. Porque hoje mais do que nunca a única forma de ser realista é exigir o impossível fim deste sistema que nos oprime.

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