Entrevistas

Danilo Moreira. “Recebo o ordenado mínimo, mas a empresa de trabalho temporário recebe o dobro” | Praxis Magazine

Começou a trabalhar em call-centers quando tinha pouco mais de 20 anos e desde essa altura já se passaram 22 anos. Hoje, é dirigente sindical do Sindicato de Trabalhadores de Call-Centers (STCC) e não tem medo de dar a cara para denunciar as injustiças que os trabalhadores sofrem no dia-a-dia às mãos das empresas de trabalho temporário, muitas delas de fachada. Contratos mensais, baixos salários e assédio são uma realidade que, apesar da geringonça, parece perdurar no sector. Uma realidade que afecta cerca de 100 mil trabalhadores de call-centers, distribuídos por 207 empresas de trabalho temporário, e onde a política do medo parece imperar. 

Apesar das pressões, há sempre alguém que diz não. Alguns trabalhadores avançam hoje com uma greve de três horas no call-center da Teleperformance em Setúbal. Decidida em plenário pelos próprios trabalhadores, diz Danilo Moreira, a greve será um escalar do confronto com o patronato, pois no ano passado uma outra greve obrigou o patrão a fazer concessões em termos salariais e conceder contratos efectivos a trabalhadores. 

Moreira diz-se desiludido com a actual solução governativa, referindo que existe um “contra-senso entre o que dizem e o que fazem”. O governo diz querer acabar com a precariedade, mas continua a promover situações de precariedade. “No caso do call-center querem acabar com a precariedade e as más condições, mas abrem um sector de call-center e têm os médicos a trabalho temporário”. 

Há vários anos que trabalhas em call-centers. Como caracterizarias o teu percurso laboral?

Trabalho em call-centers há 22 anos. Inicialmente era em part-time, mas nos últimos 12 anos tem sido a full-time e sempre foi um trabalho precário, bastante exigente, bastante controlado, com várias métricas de avaliação, desde tempo média e qualidade de atendimento e com muitas tarefas e temos de tratar de tudo com os clientes durante a chamada. Se for preciso perdemos os dados do cliente. Enfim, é muito controlado. Também somos auditados constantemente. Ao fim de uns dias, semanas ou meses o pessoal está todo a dizer a mesma coisa. Estamos todos com o mesmo discurso e as palavras utilizadas por mim e pelos meus colegas são exactamente iguais – até há clientes que dizem que somos todos iguais por dizermos sempre “correcto” e etc. Está tudo muito estruturado e às vezes somos penalizados por uma simples palavra fora da caixa.

As chamadas são gravadas não é?

Na maior parte dos sítios, sim. As monitorias em alguns sítios são mesmo à palavra. Uma vez fui penalizado por em vez de dizer “um momento” ter dito “um instante”.

Como é que és penalizado?

Podes ser penalizado ao ponto de se voltar a repetir seres despedido ou de não ver o contrato renovado.

Por uma simples palavra?

Às vezes pode acontecer. Ou até mesmo ter uma má avaliação numa campanha em que há prémios de qualidade de atendimento e perder. No caso dos intervalos, há sítios em que cada quatro horas a pessoa tem dez minutos de intervalo, outros são quinze, mas se tu te excederes um minuto que seja no intervalo és chamado à atenção pela supervisão e corres o risco de uma redução de carga horária forçada ou até mesmo de atribuição de menos projectos ou despedimento ou não renovação. Também há casos assim.

Disseste que a tua vida é muito precária,podes aprofundar?

Então, no primeiro call-center onde estive foi a contratos semanais e a qualquer momento podia-me ir embora. Bastava a campanha precisar de menos pessoas, por haver menos bases de dados de clientes ou uma alteração da política da empresa, e facilmente éramos dispensados. Tinha contratos semanais através de uma empresa de trabalho temporário, uma de fachada. Na altura quis denunciar mas não tive o apoio dos meus colegas.

Depois na PT tive uma série de contratos mensais renováveis e quem não atingia os objectivos podia passado um mês ou dois ser dispensado. Se houvesse redução de números de pessoas por necessidades da campanha, quem tinha o maior tempo de atendimento, mesmo que fosse um excelente trabalhador, podia ser dispensado. Quem tivesse menor qualidade de atendimento também era dispensado. Agora, nos últimos anos, estive com contrato a tempo incerto e passei a efectivo através da empresa de trabalho temporário, mas já trabalho na PT há cerca de 12 anos, sempre por via de empresas de trabalho temporário. Só para teres uma noção, na altura me que a Randstad assumiu o projecto éramos 180 na campanha e chegámos a ter 250 trabalhadores, todos a contrato a termo incerto, e ao fim de cinco anos estávamos cinquenta e desses que podiam passar a efectivos a empresa começou a dispensar faseadamente. Ficámos cinco. Entre os que foram dispensados havia pessoal que nunca tinha faltado, uns eram superiores, outros técnicos de qualidade. Não foram renovados [os contratos] depois da caducidade do e, entretanto, contrataram novas pessoas para colmatar essa situação.

Qual foi a tua pior situação laboral?

Houve várias, mas uma marcou-me bastante. Estive cinco anos no departamento de qualidade e formação e dei uma formação em que eram cerca de 16 trabalhadores e já tínhamos alertado a coordenação de que estavam a contratar muitas pessoas e que passados alguns meses podia não haver lugares para todos. Basicamente houve pessoal, bons trabalhadores, que ao fim do mês foram dispensados. Não por terem feito um bom trabalho, mas por não haver necessidade. Fiquei frustrado por o pessoal depois não ter acompanhamento. Na altura senti-me tão mal que fui falar com o pessoal para tentar pelo menos ajudá-los a inscreverem-se noutros sítios.

Foi aí que nasceu a ideia de criar um sindicato e a necessidade de?

A ideia de se criar um sindicato já tinha surgido. Aliás, não foi por mim, mas em Coimbra. Na altura nem conhecia alguns colegas da direcção. Surgiu em Coimbra por alguns trabalhadores terem tido um problema laboral, pediram ajuda ao sindicato e depois não tiveram uma resposta adequada. Isto porquê? Porque a nossa realidade dos call-centers é muito especifica e na altura o sindicato não deu uma resposta capaz no entender desses trabalhadores. Acharam que devia ter havido outro desfecho e foi nessa altura que se pensou em criar um sindicato.

Já tinha tido algumas situações no âmbito do call-center em que nem o sindicato nem a ACT [Autoridade para as Condições do Trabalho] tinham dado uma resposta adequada. Foi daí que surgiu. Inicialmente nem éramos um sindicato, mas um movimento de trabalhadores. Aliás, começou com a criação de um boletim – na altura ainda não fazia parte – chamado PT-precarizações para denunciar situações de precariedade. Um folheto distribuído à porta da PT para sensibilizar os trabalhadores para o que não estava bem. Mais tarde, esses colegas vieram para Lisboa, conheceram outras pessoas em call-centers e depois decidiu-se criar o “Tás Logado?” por o boletim ser apenas direcionado para a PT. Antes de ser sindicato conheci o “Tás logado?” à porta do meu call-center quando recebi um folheto e achei que aquilo era diferente. Então, mais tarde criámos o sindicato.

Quais foram as maiores dificuldades que encontraram ao criarem o sindicato?

A criar legalmente o sindicato não tivemos muitas, até porque tivemos a ajuda de um professor do ISCTE-IUL, Paulo Alves, que nos ajudou a criar os estatutos e etc. A parte mais complicada foi ver quem é que iria integrar o sindicato, quem estava na disposição de dar a cara pelo sindicato.

Há um clima de medo nas empresas, não é?

Sim, há. De qualquer das formas conseguimos e essa parte até correu bem, conseguimos reunir as pessoas para criar o sindicato, nem todas estavam muito activas, por causa das limitações laborais. Inicialmente, como era uma coisa nova, havia pessoas que trabalhavam no call-center e a empressa nem sabia que eram associados, muito menos da direcção, mas íamos a outras empresas, ou seja, fazíamos o cruzamento. Por exemplo, “eu vou à tua empresa, tu vens à minha distribuir folhetos”. Depois começámos a ter um papel mais activo. Fiz questão, na minha empresa, de dar a cara e de distribuir, embora tivesse um contrato precário também. Mas ainda assim, como as represálias eram tantas, os vínculos laborais eram tantos, que mesmo para os aderentes darem entrevistas, dar a cara, eram poucos os que o faziam. No nosso site ainda não temos as fotografias dos trabalhadores porque até há bem pouco tempo os membros estavam com muito receio. No último ano, houve alguma mudança: o Manuel [Afonso], que está na Teleperformance, dá a cara, eu também, o Bruno, que está na EDP, e a Ângela também. As empresas já sabem que somos dirigentes.

“No nosso site ainda não temos as fotografias dos trabalhadores porque até há bem pouco tempo os membros estavam com muito receio”

E já foram vitimas de represálias?

Sim. Por exemplo, podemos tirar quatro dias por mês como dirigentes sindicais e esses quatro dias são remunerados, não podem ser descontados pela empresa. Somos todos trabalhadores, não temos ninguém a 100%. O que acontece é que há regularmente penalizações nos salários e temos que pedir correcção. E até ser corrigido… Eu até há pouco tempo só tirava um dia de vez em quando, mas a partir de Novembro é que comecei a tirar os quatro dias. O Manuel começou a tirar a meio do ano passado, há um colega da EDP que tirava de vez em quando. Há sempre aquela represália do “Estás a tirar uns dias de dirigente” e “Tens de ver isso, precisamos de pessoal”, ou seja, há sempre aquela pressão. Depois, pensam que nós andamos a “brincar” quando estamos a tirar os dias de dirigente sindical, quando a maior parte do nosso trabalho até agora é feito fora do horário de trabalho. Aliás, se não fosse assim não conseguíamos fazer as coisas que fazemos.

Quais têm sido os problemas com que se têm confrontado?

Um dos problemas que temos é o de manter uma direcção. No início conseguimos mantê-la, mas, devido ao desgaste da profissão, os membros acabam por não se aguentarem. Por exemplo, houve uma colega que acabou por sair da direcção porque já se esgotava com o trabalho e depois ainda ter de ir às reuniões… Fazia-lhe confusão, porque era mais massacre. Há desgaste emocional. O pessoal tem saído da direcção, não porque as coisas não estão a correr bem, mas porque o pessoal ao fim de um ano está desgastado. Houve alguns que conseguiram outras oportunidades na área, porque muitos têm cursos superiores e são formados nas áreas, e por causa do desgaste tem havido alguma rotação. Mesmo para arranjar uma direcção não é fácil. Vamos agora fazer eleições, conseguimos reunir as pessoas porque nestes últimos anos fomos quatro pessoas.

Já sabemos que os patrões não gostam de trabalhadores sindicalizados, principalmente os dos call-center. Da tua experiência de trabalhador e sindicalista, quais são as principais práticas que o patronato faz para evitar a sindicalização?

Desde um folheto a criticar a postura dos sindicatos, por exemplo. A Teleperformance fez, aqui há dois anos, um folheto a dizer que os sindicatos estavam a destruir a economia, a deturpar a informação junto dos trabalhadores. Depois dizem que os partidos não valem nada e que os sindicatos são dos partidos e que têm interesses por detrás. Dizem que os dirigentes são remunerados . Isto é para desmobilizar o pessoal de aderir ao sindicato. Depois, quando vamos distribuir à porta das empresas pelas primeiras vezes, as pessoas têm receio de receber um folheto que seja. Se o supervisor/coordenador vir, pode causar represálias. Há sempre represálias. Por exemplo, fazer mais pressão como “Deixa de ler isso, trabalha mas é!”, “Tens é que aumentar os teus resultados”, “Tens é que reduzir o teu tempo médio de atendimento, não penses nisso”, “Se te quiserem despedir não vais ter ajuda nenhuma do sindicato”. Tudo no sentido de desmobilizar. Para nós, enquanto dirigentes, é complicado porque depende dos vínculos. Tivemos uma colega que acabou por não ver o contrato renovado por causa disto. Aliás, essa situação provavelmente até vai a tribunal.

“O pessoal tem saído da direcção, não porque as coisas não estão a correr bem, mas porque o pessoal ao fim de um ano está desgastado”

Há uma politica do medo?

Há, bastante. Aliás, o medo é constante, desde que tu entras. Se não tens bons resultados na formação não te integras, e as formações, geralmente, são reduzidas e más face às exigências que são feitas. Durante os primeiros dias há os falsos contratos de estágio/formação, aquilo é chamado trabalho efectivo, no qual o pessoal não tem acompanhamento. Até teres uma prestação, às vezes mínima, dependendo dos serviços, demoras um bocado de tempo. Acontece muitas vezes, quando estás perto de ser efectivo, eles despedem-te para o evitar. Além dos próprios contratos mensais e das empresas de trabalho temporário, sai uma entra outra. O grande problema nos call-center neste momento não são os recibos verdes, mas o excesso de empresas de trabalho temporário, e algumas são fachada. Os call-center trabalham com várias empresas. Na PT já estive em três empresas de trabalho temporário, há quem tenha estado em mais. Há ainda casos a recibos verdes. Não é a maioria, mas o problema tem-se acentuado muito com as empresas de trabalho temporário.

Falámos do medo dos trabalhadores. Como é que tu caracterizarias os trabalhadores no geral?

São desinformados. E, quando informados, a maior parte não quer reivindicar os seus direitos por medo e represálias, tanto no imediato como no futuro. Já aconteceu o caso de dizermos a um trabalhador “Tens razão e vamos fazer isto e isto” e ele responde “Não, porque mesmo eu sendo desta empresa, mais tarde posso vir a ter a necessidade de ter um trabalho nesta área e fecho as portas nesta empresa”. Isto acontece. Tem muito a ver com o medo, mesmo quando dizemos que o podemos fazer sem que as empresas se apercebam de quem foi o denunciante. Ainda assim há alguns corajosos, e nestes casos ainda há sítios onde conseguimos melhorar as condições. Tem que ser alguém de dentro para nos explicar a situação, embora saibamos que são gerais muitas das condições, mas há determinados pormenores que são específicos de uma campanha  ou empresa.

“O medo é constante, desde que tu entras. Se não tens bons resultados na formação não te integras, e as formações, geralmente, são reduzidas e más face às exigências que são feitas”

Há trabalhadores que são despedidos, não porque não fizeram um bom trabalho ou não têm o tempo médio de atendimento que eles consideram, por cada linha ter o seu tempo médio, mas por causa do inquérito de satisfação. Às vezes os clientes estão zangados com a empresa e dão uma má avaliação ao serviço na globalidade, depois dizem-te que “não atingiste os parâmetros de qualidade pelo cliente, não vais ver o teu contrato renovado”. Tens também casos de trabalhadores que chegam a falar com 100 ou 200 clientes num dia. Também não há tempo entre chamadas. Em Espanha, conseguiram entre uma chamada e outra terem o mínimo de 15 a 25 segundos. Em Portugal temos entre 1 a 3 segundos, nem isso.

Há umas décadas atrás os call-center eram muito poucos. Hoje, banalizaram-se e com eles a precariedade. De acordo com a tua experiência laboral, quais são as grandes transformações que o sector dos call-center sofreu nos últimos anos?

Os que surgiram nos finais dos anos 80 e 90, como a EDP e PT, empregavam maioritariamente mulheres, cerca de 90% dos trabalhadores eram do género feminino. Eram também maioritariamente jovens, estudantes que estavam a pagar as propinas.

Actualmente, ainda continuam a ser maioritariamente mulheres, mas entre 60% e 70%. Quanto à faixa etária, neste momento entras num call-center e vês trabalhadores de todas as faixas etárias. Não há aquela situação de ser só o estudante a pagar as propinas, existem famílias a trabalhar em call-center e pessoas com 40 a 60 anos. Houve um caso de uma colega que estava reformada, mas o filho ficou no desemprego. Então arranjou um part-time num call-center. Há trabalhadores que tinham empresas e que as perderam, que tinham trabalho noutros sítios e que os perderam. Hoje, vais ver os jornais para procurar emprego e a maior parte são em call-centers, tudo o que tu vês é nessa área, ou então em restauração e ramos do turismo, como motorista.

Outra mudança que aconteceu foi quando surgiu a banca e o apoio técnico a nível informático. Isto fez com que houvesse uma mudança no paradigma dos trabalhadores. Por exemplo, passaram a haver mais trabalhadores do género masculino. Hoje em dia, a banca vive quase à base dos call-centers; cada vez há menos balcões de atendimento, as coisas são online, o centro de atendimento está cheio de trabalhadores de call-center. Os call-center vieram para ficar. Eu, por exemplo, estou a trabalhar ao fim-de-semana ligado à banca, através da Konecta, e aquilo antes era feito por bancários. A diferença é que os bancários tinham uma carreira e um salário que era o dobro, e nós recebemos o ordenado mínimo sem promoção salarial, sem nada. As seguradoras também passaram a ter call-centers, quaisquer serviços ou empresas hoje em dia têm call-center. Há casos em que as empresas têm poucas chamadas e aí o trabalhador representa várias entidades em quatro horas de trabalho. Já aconteceu representar três e quatro entidades.

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Por outro lado, inicialmente, as campanhas de call-center eram mais de vendas e inquéritos, actualmente são mais de apoio ao cliente. Actualmente, as pessoas ligam mais para os sítios do que vão ao local. Houve uma outra alteração bastante acentuada à escala internacional: os portugueses têm mais habilitações a nível de línguas, o que tem atraído muitas empresas estrangeiras, ao mesmo tempo que há cada vez mais trabalhadores estrangeiros. Por exemplo, estás a pagar a um trabalhador alemão 2000€ enquanto podes deslocar para cá e pagar 1000€.  Isto cria clivagens entre os trabalhadores estrangeiros e os portugueses, porque às vezes estão a fazer a mesma campanha e o mesmo trabalho, mas com uma diferença salarial brutal. Já tivemos uma reunião na ACT por causa dessa situação e disseram-nos que isso era a lei do mercado, é a lei da procura-oferta, e que legalmente não podem fazer nada porque, para todos os efeitos, é uma competência que o trabalhador tem. Muitas vezes só querem uma pessoa que fale uma língua, fazem entrevistas via Skype e depois dão o contrato em português, quando dão, e por vezes habitação, um quarto como complemento. Depois quando são despedidas dizem “Vais ter que deixar o quarto até amanhã porque estás despedido”.

Alguns teóricos, entre os quais Guy Standing, afirmam que se formou uma nova classe salarial, o precariado. Concordas?

Concordo plenamente. As empresas agarraram-se ao salário mínimo, mesmo que possam pagar mais, só temos aumento quando há aumento do salário mínimo. Esta situação do precariado faz todo o sentido pela quantidade de empresas de trabalho temporário que existem. São umas 200 ou 300 a nível nacional. Muitas delas nem são de trabalho temporário, em que em vez de duas semanas são um, dois, dez anos. Há trabalhadores que estão há 25 anos a trabalhar num call-center no mesmo serviço e estão a trabalho temporário, ou seja, esta questão é o grande problema dos call-centers. Isto interessa às empresas porque acabam por se desresponsabilizar, criam a divisão entre os trabalhadores de contratação directa e os temporários. Há um regime de tensão constante e o trabalhador está sempre com medo. É uma instabilidade total. Como é que é possível planear-se comprar uma casa ou ter filhos com um contrato mensal ou semanal? Por muito que te esforces, não é fácil atingir os objectivos. Estou há 12 anos num departamento de retenção de clientes e posso dizer que não é fácil para mim atingir os objectivos e nem sempre os atinjo, apesar de me esforçar, mas há coisas que me transcendem.

Concordas que a divisão entre precários e trabalhadores com vínculo cria uma divisão que apenas beneficia o patronato?

Concordo. O patronato ri-se com qualquer divisão, seja entre trabalhadores ou vários sindicatos dentro do mesmo sector que estão a trabalhar individualmente em vez de colectivamente.

A precariedade veio ocupar espaço no sindicalismo a nível global. Tens falado muito sobre a crise do sindicalismo, como é que a vês?

Os sindicatos têm que se inovar, têm que se aproximar dos trabalhadores. Algumas técnicas que foram utilizadas no passado continuam a ser actuais, mas a realidade mudou. Hoje em dia há um conjunto de ferramentas que os sindicatos devem aproveitar, como a internet. Poderiam também utilizar uma linguagem menos formal, mais factual. Isto porque, às vezes, as pessoas lêem o comunicado de algum sindicato e não percebem o que está lá. A linguagem utilizada deve ser mais directa e clara. Uma coisa é estar a discursar para os entendidos na matéria e outra é para os trabalhadores.

Hoje em dia as coisas mudam de uma forma diferente e é preciso haver uma actualização. Até há bem pouco tempo muitos sindicatos não gostavam de sindicalizar trabalhadores precários com vínculos temporários por dar mais trabalho. As probabilidades de ter problemas são muito mais elevadas do que com um trabalhador com contrato efectivo. Devem-se inovar no sentido de se aproximarem da realidade dos trabalhadores. Não ter aquela parte institucional e burocrática e ser mais rápidos, as coisas agora são mais rápidas e como são estruturas por vezes muito grandes, não conseguem tomar decisões mais rápidas.  Uma outra coisa que os sindicatos têm de fazer é aprender a trabalhar em rede. Nós já enviamos estratégias para outros sindicatos para se construírem estratégias em conjunto nos pontos que temos em comum, embora haja divergências, e houve alguns que nem responderam.

“O patronato ri-se com qualquer divisão, seja entre trabalhadores ou vários sindicatos dentro do mesmo sector que estão a trabalhar individualmente em vez de colectivamente”

Pegando nessa deixa. Existe alguma ideia de unir organizações de precários sob uma plataforma sindical conjunta?

Há um ano integrámos um grupo que se chama A CASA. Este projecto pretende unir vários sindicatos, comissões de trabalhadores, historiadores, médicos e fazer acções conjuntas. Isto é uma necessidade, porque hoje há greve dos médicos, amanhã há greve dos auxiliares, professores, etc. Do meu ponto de vista isto não faz sentido; faz muito mais sentido fazer uma greve de todos. Este projecto da CASA pretende dar uma resposta que as estruturas sindicais não estão a dar. Caso haja uma greve dos estivadores, faz sentido ligar a outros sectores dos transportes e, neste caso, ligar aos sindicatos dos transportes.

Como vês a actuação da CGTP?

A nível geral precisam de se adaptar e trabalhar mais em grupo. Acho que tanto os sindicatos da UGT como os da CGTP estão demasiado fechados em si próprios. Para resolver o problema do sector faz todo o sentido juntar o máximo de organizações possíveis, independentemente de pertencerem à CGTP ou não. Depois, há outra questão que é a de haver acções concertadas; acho que faria sentido haver mais acções conjuntas às que tem havido.

Qual seria o programa mínimo que o STCC acha fundamental apresentar em termos de reividicações?

Primeiro, regulamentar o sector e restringir as empresas de trabalho temporário. Depois, é a questão do tempo de intervalo, haver mais tempo. Temos uma petição de seis minutos por hora, devido ao ritmo de trabalho. Há também a questão dos contratos de estágio e formação, que muitas das vezes é fachada e a formação on job (falsa formação), porque a ACT não os pode defender. Prolongam a probabilidade de serem efectivos ou de terem um contrato mais estável e não descontam para a Segurança Social. Reivindicamos também o dignificar da profissão, porque muitas pessoas têm o estigma e de dizerem que trabalham num call-center. Temos estado a fazer trabalho nesse sentido. No Brasil, a jornada completa são seis horas de trabalho sem perda de remuneração, e nós aqui pedimos que 25% do tempo seja feito em diversificação de tarefas. Isto porque, às vezes, o trabalhador passa 8h a fazer o mesmo, não tem pausa porque há chamadas em espera; ou às vezes entra-se às 9h da manhã e almoça-se às 13h e eles dão a pausa ao 12h30.

Essas reivindicações foram mais facilmente alcançadas desde que a geringonça se formou?

Aumentou a probabilidade, agora se vai ser ou não, essa pergunta é muito complexa.  Isto porque mesmo depois da geringonça se ter formado, o Estado, ao mesmo tempo que quer acabar com a precariedade, reabriu no ano passado um call-center com trabalho temporário. Há outros sectores do Estado que estão ligados a call-centers com trabalhadores a ser explorados por empresas de trabalho temporário e aquilo não tem nada de temporário. A geringonça melhorou uma pouco as condições dos trabalhadores desta área, mas podia fazer muito mais. Regularizar a actividade das empresas de trabalho temporário é fulcral. Neste momento temos médicos, entre outros profissionais, a trabalharem via empresas de trabalho temporário. No estrangeiro, a única coisa que as empresas de trabalho temporário fazem é o recrutamento e ganham uma comissão por isso, depois disso “fechou a loja”. Aqui não.

Segundo um relatório do CES de Coimbra, os contratos de precariedade tornaram-se a regra e não a excepção nos últimos anos de geringonça, tendo em conta a aprovação à alteração ao Código de Trabalho no governo de PSD/CDS. Concordas? 

Sim, continua. Tenho alguns colegas que estão a fazer trabalho efectivo em faculdades e outros sectores do Estado e estão com bolsas de formação. Estava com muito mais expectativas em relação à geringonça e há um contrassenso entre o que dizem e o que fazem. Querem acabar com a precariedade, mas dentro do próprio Estado continuam a haver situações precárias. Foi preciso haver uma campanha de fora, lançada pelos Precários Inflexíveis, para sensibilizar os precários do Estado a deixarem de o ser, quando devia ser de dentro. No caso do call-center, querem acabar com a precariedade e as más condições, mas abrem um sector de call-center e têm os médicos a trabalho temporário, quer dizer, há aqui um contra-senso entre o que dizem e o que estão a fazer. Depois, como as empresas pagam às empresas de trabalho temporário, temos aqui duas direcções a ganhar dinheiro, algumas delas têm sede no estrangeiro, logo descontam menos e os trabalhadores recebem menos.

Por outro lado, o Estado tem uma ferramenta que é a ACT. Devia apostar mais numa questão pro-activa do que reactiva, há denuncias que são feitas dos trabalhadores e dos sindicatos à ACT e esta avisa as empresas antes de lá ir. Quando chegam, detectam irregularidades graves e ainda dão dias à empresa para as resolver e as multas são simbólicas. Se o Estado quer acabar com a precariedade tem de dar mais meios e organizar melhor a ACT. Aqui o crime compensa, porque se sou apanhado ainda me dão tempo para regularizar a situação, a taxação é simbólica. Por cima disto, se os trabalhadores com medo ainda fazem queixa e não têm feedback, acabam por não confiar no sistema. Há empresas que têm toda a estrutura dirigida para o “mal” de forma consciente, porque sabem “as regras”.

Referiste que as empresas de trabalho temporário se têm agarrado bastante ao salário mínimo. No 1º de Maio Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, exigiu um salário mínimo de 650€ em 2019. Achas que é possível?

É possível desde que haja interesse. Aliás, até deveria ser mais, porque se formos a ver, hoje em dia, é um escândalo. A empresas pagam mais do que isso às de trabalho temporário, muito mais. Aqui é uma questão de organização. Eu, por exemplo, recebo ordenado mínimo, mas se tivesse com contratação directa conseguia receber 800€ e a empresa pagar menos do que paga agora. Se calhar recebo o ordenado mínimo, mas a empresa de trabalho temporário recebe o dobro. Isto não é uma questão de “há condições”. Face à quantidade de empresas de trabalho temporário (há dois anos, 217) e de trabalhadores de call-center (80 a 100 mil), cerca de 70 mil destes trabalhadores estão a trabalho temporário, e os outros 30 estão em empresas de out sourcing. Esta questão é importante porque às vezes são as próprias empresas que criam outras. Se investigarmos como deve ser, secalhar podemos ver que as direcções e as moradas fiscais são iguais.

“Temos de perceber o que é que os trabalhadores querem, ouvi-los e actuar em conjunto. Os sindicatos devem apresentar propostas, mas também ouvir o que os trabalhadores têm a dizer e o que querem, dar-lhes margem para falar”

Quantos membros têm o vosso sindicato?

Neste momento estamos com 300 associados. Temos crescido sempre a nível de associados, alguns deles saem porque deixam de trabalhar na actividade, mas depois voltam. Vamos ter eleições a 12 de Maio, estamos a aumentar a equipa da direcção e vamos fazer uma greve na terça feira, dia 8 de Maio, em Setúbal. Esta greve vai ser de três horas.

Quais são as razões desta greve? Quantos trabalhadores aderiram a esta luta?

Menos assédio, aumento do salário e, sobretudo, o fim desta empresa de trabalho temporário de fachada. Esta greve é na Teleperformance de Setúbal. No ano passado fizemos uma greve e conseguimos que alguns trabalhadores que estavam através de empresas de trabalho temporário de fachada passassem a contratação directa e que a empresa aumentasse o salário.

No ano passado, a greve foi convocada unicamente para uma campanha e a adesão foi de 100%. Este ano, vai ser estendida a todas as campanhas do call-center de Setúbal, que deve ter à volta de 250 trabalhadores. Estes têm ido aos plenários e temos lá um delegado sindical. Nas eleições vamos integrar a nível da direcção três delegados sindicais, um no norte e outro em Beja, bem como o da Teleperformance de Setúbal. Nesta luta temos mais contactos entre 50 e 60 trabalhadores e com esta greve acreditamos que vamos conseguir chegar às campanhas todas.

Quais são as principais lições que tiras das diferentes lutas que têm havido pelos call-center?

Temos que ver a eficácia das greves. Na EDP têm sido feitas muitas greves, mas o que se tem conseguido dessas greves? Temos de parar para pensar. Temos falado de uma situação em que achamos que não importa o número das greves, mas a eficácia. Acho que no caso da EDP o número de greves que têm feito e face aos resultados que têm obtido, algo ali não está a correr bem ou que precisa de ser melhorada. No caso dos trabalhadores da PT, eles não estavam habituados a fazer greves, alguns têm aderido mas não tem sido muitos; mesmo em questões de plenários, alguns trabalhadores têm receio de ir.

Temos de perceber o que é que os trabalhadores querem, ouvi-los e actuar em conjunto. Os sindicatos devem apresentar propostas, mas também ouvir o que os trabalhadores têm a dizer e o que querem, dar-lhes margem para falar. Aí sim, consegues mobilizar. Agora se fores com o teu caderno criticar isto e aquilo e não abres espaço à discussão a luta não avança.

 

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