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Santander na Europa das Maravilhas | Izaura Solipa

A regra do sistema bancário, excepção no resto da economia, é absolutamente anormal: os bancos são os únicos dentro das actividades económicas no sistema capitalista que sobrevivem (e prosperam) com apenas 10% de capital. Funcionar com apenas 10% de capital significa que apenas possuem um décimo do dinheiro que necessitam para cobrir todas as actividades que desenvolvem. Qualquer outra empresa com tão pouca cobertura de capital estaria tecnicamente falida. Qualquer banco com 10% de capital está a cumprir com os seus rácios, tecnicamente estável e quiçá, avaliado em baixo risco.

O porquê desta anormalidade é relativamente simples de entender: os bancos funcionam à base de confiança. Não precisam de ter capital que assegure a sua actividade porque os investidores e clientes sabem que, no dia em que o capital do banco falhar, lá estarão os bancos centrais (e os governos) a assegurar que eles sobrevivem, ao contrário de qualquer outro negócio.

Também é relativamente simples de compreender, que quanto maior for um banco, maior será a sua queda e menos provável é que o deixem cair. A teoria “demasiado grande para falhar” (too big to fail) exprime isto mesmo: as instituições financeiras demasiado grandes e por consequência demasiado interligadas entre si tornam-se excessivamente poderosas ao financiarem a grande maioria das famílias, das empresas e até de outros bancos. Tornam-se tão grandes que a sua queda seria desastrosa para a economia e por isso qualificam-se para receber ainda mais apoios governamentais, de forma a que nunca caiam.

Nos últimos dez anos, os reguladores empurraram os bancos a tornarem-se mais pequenos e mais simples, e faria sentido que assim fosse. No rescaldo da crise, por sua vez produto de sucessivas inovações financeiras e desregulamentações, era imperativo tornar o sistema bancário mais robusto e menos frágil – e a fragilidade diminui a par com a dimensão.

Então, o que se passa com o Santander? Só nos últimos três anos, o banco espanhol liderado por Ana Botin, absorveu em Portugal dois bancos que entretanto sucumbiram, o Banif e o Popular – este último pela mágica e módica quantia de um euro. Em Janeiro, comprou as operações polacas do Deutsche Bank. Tornou-se o maior banco da zona euro e a maior empresa bolsista espanhola. Se há instituição financeira que esteja a tornar-se demasiado grande para falhar é esta, contradizendo qualquer lógica de simplificação e redução que tinha sido então aplicada. Podíamos dizer que, como banco privado, está a operar no mercado e a fazer as suas próprias opções estratégicas. Mas erraríamos.

O Santander faz parte de um plano europeu de consolidação bancária, acabando assim com bancos e banquinhos e criando bancos pan-europeus. Faz parte do pacote da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu de uniformizar a Europa – primeiro o euro, depois a supervisão bancária, agora o mercado de capitais e em última instância, a ultra união bancária, composta por um só banco. Um plano que fortalece os grandes detentores do capital (os países do euro “forte” e a alta finança), contribuindo cada vez mais para aumentar a tão já vincada divergência entre os países. O ímpeto é tanto de prosseguir este objectivo que o publicitam a quem os tenha que ouvir, sem vergonha nem descaramento.

O caso Banif é notório deste fenómeno. Aquando a sua venda, Daniele Nouy, presidente do Concelho de Supervisão Bancária do BCE, ordena a Portugal que nem tentasse passar outras propostas, pois a decisão da Comissão era clara e irrevogável. E assim o foi, estendendo um tapete vermelho, a Europa entregou o Banif ao Santander.

banco-santander

Poderíamos igualmente achar que a proposta do Santander era a melhor e por isso a Comissão Europeia a defendeu tão intransigentemente, mas estaríamos novamente enganados. Mais propostas havia, algumas bem mais avultadas que as do banco espanhol. Afinal, o Banif tinha caído mas as suas contas estavam muito acima da média dos outros bancos. Com a injecção de capital estatal num montante de 3 milhões de euros, os rácios de capital aumentaram para cerca de 40%, 5 vezes os rácios mínimos e muito acima dos usuais 10%. O Banif tinha caído mas estava supercapitalizado. Tinha, portanto, vários pretendentes, mas por ordem expressa da Comissão Europeia foi vendido ao desbarato ao nosso vizinho espanhol, a um preço muito inferior ao seu valor contabilístico.

Talvez olhando para fragilidade do Santander em 2016, ano em que deteve uma elevada e preocupante exposição a “CoCos” (títulos de dívida que se convertem em capital se alguma tragédia ocorrer, de risco muito elevado), por sua vez desvalorizados para ¼ do seu valor original, se perceba melhor. O filho pródigo do projecto europeu estava em apuros e como boa matriarca, a União Europeia não podia deixar de o ajudar.

As razões que fazem com que seja a própria Comissão Europeia a promover o crescimento de um banco já monstruoso podem ser lidas à luz da promiscuidade e relações de poder que sempre caracterizaram as suas interacções com a finança. Não é de estranhar, que quando se cria um sistema regulatório e fiscalizador da exacta matéria com que são feitos os bancos, não demore muito tempo até que os interesses de ambos se alinhem. Não é de estranhar, também, que da crise até agora muito pouco mudou estruturalmente na forma como os bancos actuam, forma essa que nos levou à crise. Nem tampouco se estranha quando o próximo vice presidente do BCE a tomar posse em Junho, o espanhol Luis de Guindo, liderou a Lehman Brothers na Península Ibérica até 2008.

À medida que o Santander cresce (e lucra), o risco para nós aumenta. Temos uma concentração bancária que não lembra nem às ditaduras nem às democracias, tornando todo o sistema sucessivamente mais frágil.  Entretanto, a vida sorri para todos aqueles que apostam com os milhares de milhões de dinheiro público que terão de ser injectados, inevitavelmente, no Santander, quando a próxima crise bancária estalar. Sorri para Nouy, sorri para Botin, sorri para Guindos, que em conjunto desenham o destino do povo europeu. Um povo permanentemente submisso à finança e aos grandes interesses. E não há qualquer tipo de futuro para uma Europa assim.

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