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Dois elefantes numa loja de louças, que alguma esquerda não quer ver | Luís Leiria

No intrincado labirinto político do Brasil atual, há dois elefantes numa loja de louças que alguma esquerda, dentro e fora do PSOL, persiste em ignorar. O risco é no final sobrarem apenas os cacos.

O primeiro elefante chama-se intenção de voto em Lula. A última pesquisa, divulgada em 31 de janeiro deste ano, mostrava que 37% dos eleitores tencionam votar no ex-presidente nas eleições de outubro deste ano.

Este é um facto com o qual a esquerda socialista tem de conviver e do qual precisa retirar lições, goste ou não dele. Porque esta opção de voto prova que, para um grande setor da classe trabalhadora e do povo mais pobre, a experiência com o lulopetismo ainda está longe de concluída, apesar de todo o rol de desastres de que os governos do PT são responsáveis. Os favorecimentos às empreiteiras, ao agronegócio e aos bancos; as alianças e parcerias com Temer, Renan Calheiros, Sérgio Cabral, Maluf, Delfim, Sarney e tantos outros; a manutenção do sistema de segurança pública militarizado e o aumento exponencial do encarceramento em massa; a permanência e ampliação do esquema de corrupção entre estado, partidos e empresas são exemplos desta herança maldita.

Uma vanguarda compreendeu que esta política leva à tragédia, rompeu com o PT e se lançou na construção de alternativas partidárias, de centrais sindicais combativas e de movimentos sociais de luta com resultados desiguais mas promissores. Porém, são ainda uma vanguarda. O elefante dos 37% está aí a demonstrá-lo.

A luta política não é outra coisa senão a disputa pela consciência das massas. A velha discussão entre os que defendem uma política para a vanguarda, por maior ou menor que ela seja, e os que defendem uma política para as massas volta a ter toda a acutilância no Brasil de hoje. Os que já têm a plena compreensão do que significou a política capituladora do PT ficam repugnados por este partido persistir nela, mesmo quando a elite dominante do país o expulsou do governo, prescindindo dos seus serviços. E têm razão. Só que a política não se faz com o fígado. Faz-se com inteligência e cabeça fria.

Numa situação de luta de classes muito mais aguda, no Portugal de 1975, quando existiam embriões de organismos de dualidade de poderes clássicos – comissões de trabalhadores, de moradores e de soldados, o dirigente trotskista Nahuel Moreno argumentava que não se podia fazer a revolução sem os trabalhadores do Partido Socialista, que naquele momento estava a ver-se privado do seu jornal, o República. Moreno colocava como prioritário este direito democrático, para muitos incompreensível, de o PS ter o seu jornal (que naquele momento se encontrava ocupado pelos trabalhadores de outras correntes políticas), afirmando que sem garantir este direito era impossível desenvolver o poder operário e popular, porque não se podia fazê-lo contra os trabalhadores que apoiavam o PS.

A mesma questão pode ser colocada hoje. É possível construir uma alternativa ao lulopetismo sem diálogo com os 37% que tencionam votar nele? Sem assumir uma posição clara a favor do direito de Lula ser candidato? Sem assumir cristalinamente ser contra a sua prisão? Parte da vanguarda que ganhou repugnância pelas práticas do PT acha que sim. Há quem chegue até a defender a prisão de Lula, mesmo diante da clara posição anti-PT e pró-PSDB da Lava-Jato. Mas isto é uma política de bolha, da vanguarda para a vanguarda. Uma política que encolhe os ombros quando se retira a 37% o direito a terem o seu candidato, argumentando que a decisão é da Justiça. A esquerda socialista não pode cair nesta tentação que a levaria/levará ao isolamento.

Para construir-se como alternativa, a esquerda socialista tem de mostrar como é possível conquistar o governo com uma política que não repita as alianças que o PT promoveu com a finança, com o agronegócio, com os caciques locais e nacionais. Mas tem de ter a inteligência de ser a vanguarda em unir a esquerda quando estão em causa liberdades democráticas.

É fácil pôr em prática estas políticas diferentes com equilíbrio? Não. Tem riscos? Sem dúvida. Mas quem não gosta de correr riscos fica em casa e faz um seguro. Não se mete na política, muito menos na política socialista.

E esta questão leva-nos ao segundo elefante que está à solta dentro da loja de louças. Chama-se neofascismo.

O segundo elefante

Também aqui há factos conhecidos. Um deputado assumidamente neofascista, Jair Bolsonaro, tem uma intenção de voto entre os 15% e os 20%. Os assassinatos de lideranças sociais e políticas vêm num crescendo, e deram um salto de qualidade com a execução de Marielle Franco, a primeira parlamentar de uma capital importante a ser morta por encomenda; os tiros disparados sobre a caravana de Lula também abriram um precedente gravíssimo.

Além disso, os apelos ao regresso da ditadura militar, embora minoritários, estiveram presentes nas manifestações pró-impeachment de Dilma (sem serem incomodados por ninguém) e os pronunciamentos de militares pela prisão de Lula vêm num crescendo, culminando com as ameaças explícitas de golpe militar feitas pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general Villas-Boas. Além disso, o Rio de Janeiro, justamente o estado onde o PSOL tem mais implantação, está sob intervenção militar. (Não entro aqui na discussão do golpe ou não golpe. Na minha opinião, houve um golpe palaciano, sim. Mas o debate entre o golpe e o não-golpe já foi feito exaustivamente, e por isso os argumentos estão esgotados).

Para uma certa esquerda, isto não representa novidade alguma. Seria o business as usual. Quem sublinha estes elementos da realidade, dizem, está fazendo o jogo de Lula e do PT, que pretende supervalorizá-los para se vitimizar e assim não ter de dar justificativas da sua herança desastrosa.

Esta argumentação tem, como sempre, um elemento de verdade. O PT de facto exagera o uso do termo fascismo, correndo o risco da sua banalização, para justificar o regresso de todas as alianças espúrias de antes. Mas essa meia-verdade torna-se numa falsidade completa quando, a partir dela, se desvaloriza o peso e o papel de Bolsonaro e os outros elementos que mencionei.

Vejamos: que Bolsonaro é neofascista ninguém pode negar. Na verdade muito mais agressivo que os neofascistas europeus. Que não tenha uma organização com símbolo e uniforme próprios não lhe retira o caráter. Todos sabem que os bolsonaristas estão extremamente bem organizados e incidem sobre milhões de pessoas. São talvez o grupo mais influente na Internet, com a sua central ideológica e de produção de notícias falsas funcionando em pleno. Também é temerário achar que as suas propostas são malucas e ninguém as leva a sério: quando ele propôs metralhar a Rocinha para tirar de lá os “bandidos”, foi aplaudido por uma plateia de mil pessoas ligadas ao sistema financeiro. Acresce que, pelo andar da carruagem, não seria nada estranho se Bolsonaro chegasse ao 2º turno, dada a dispersão das candidaturas.

Acresce a isto que Bolsonaro dá o horizonte político para todos os elementos da extrema-direita organizados do país, das milícias aos bandos armados a serviço do agronegócio. E a sua defesa da intervenção militar estimula os pronunciamentos dos generais da reserva e agora, pelos vistos, também dos que estão em funções.

Devemos então ignorar o crescimento do neofascismo? Devemos tratar o assassinato de Marielle como “mais do mesmo”? Devemos enterrar a cabeça na areia diante dos pronunciamentos militares? Devemos calar-nos frente à evidente assimetria da Justiça que condena Lula pelo triplex do Guarujá e deixa Aécio solto e com mandato? Devemos lavar as mãos diante da eventual rejeição do habeas corpus e prisão de Lula?

Isto não quer dizer que estejamos à beira de um putsch fascista; mas o fascismo não se combate só nas vésperas da tomada do poder. Em 1928, os nazistas tinham apenas 3% dos votos na Alemanha, apenas cinco anos antes de Hitler assumir o poder. Bolsonaro não usa suástica nem uniforme, mas já tem pelo menos 15%. E os bolsonaristas estão por todo o lado. Não houve mudanças?

O segundo elefante já está partindo louça, mas há certa esquerda socialista que persiste em não querer enxergá-lo. Se todos os seguissem, no fim só restariam, mais uma vez, os cacos.

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