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O (real) inimigo da Ciência | Irina Castro

Os “factos alternativos”, as “notícias falsas”, as “teorias da conspiração”, entre tantos outros fenómenos que questionam as raízes do “conhecimento” e que são hoje (como outrora) alvo de debates mundiais não se dissociam do mundo da ciência moderna. Exemplo disso é o mais recente livro dos cientistas e comunicadores de ciência portugueses, Carlos Fiolhais e David Marçal, que, na sua tradição popperiana, co-assinam a sua mais recente obra editada pela Gradiva (2017), “A Ciência e os seus Inimigos”.

Enquanto tentativa de produzir um exercício de debate sobre a atual crise do conhecimento, “A Ciência e os seus Inimigos” apresenta-se enraizada numa cultura científica própria cuja desejabilidade social apenas é adquirida no próprio exercício de comparação com outras culturas científicas ou tradições de conhecimento. Isto não significa, no entanto, que o julgamento moral que tecem sobre as outras formas de produção conhecimento não esteja baseado num exercício sociologicamente indolente. As categorias de inimigos apresentadas no livro resultam na verdade da insuficiência dos exemplos, recheados de idealizações forçadas e precipitadas, oriundas de uma compilação sem rigor ou critério de análise.

Hoje, muito se tem debatido a crise do conhecimento e exercícios como “A Ciência e os seus Inimigos” fazem parte desses debates. Debates que a meu ver estão mal posicionados, pois não abordam a crise da ciência como a crise de como podemos abordar a realidade e, por consequência, ignoram entender que a função da ciência enquanto construtor de história é em si um conceito político.

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Capa do livro “A Ciência e os seus inimigos”, de Carlos Fiolhais e David Marçal

As consequências são óbvias. Ao promoverem categorias absurdas de inimigos, Fiolhais e Marçal terminam não por abordar a complexidade da realidade, e com ela a sua crise, mas a reforçar o seu posicionamento enquanto indivíduos racionais cuja prática se traduz de forma presumida no reforço das suas capacidades de traduzir modelos teóricos e empíricos para a realidade do mundo, ocultando estrategicamente que múltiplas formas de produção de conhecimento são também elas dotadas de formas de validação e critérios de avaliação. No mesmo sentido, as categorias de inimigos apresentadas permitem que se jogue no tabuleiro do reducionismo uma narrativa que permite à ciência moderna apresentar-se – na sua natureza – como cristalina, objectiva, neutra e universal, remetendo todas as suas dissidências para o espaço da fraude ou da ingenuidade, esquecendo que a ciência é uma prática social situada e histórica.

Os princípios da indagação científica e o (des)interesse

Tomando em conta que não é objectivo deste texto a exposição exaustiva das várias formulações teóricas que se debruçam sobre a problemática da natureza da indagação científica como princípio da sua prática, importa para o objectivo do texto iniciá-lo na base de um debate capaz de expor as respectivas problemáticas, contradições e limites que emergem não só destes debates, mas também da forma como Carlos Fiolhais e David Marçal boçalmente troçam dos mesmos no seu mais recente livro. Partimos de Thomas Kuhn, intelectual e historiador de ciência com prévia formação em física. Recorro a Kuhn, pois ele, tal como os autores de “A Ciência e os seus Inimigos” provêm de uma família de cientistas “duros” que procuram promover um pensamento sobre a natureza da sua prática. Por outro lado, Kuhn apresenta-se como um ponto de partida para o questionamento dos princípios modernos da indagação científica, ao mesmo tempo que procura tecer uma crítica à perspectiva formalista da ciência inscrevendo-a como histórica. Abre-se assim campo para um entendimento da ciência como prática social por a mesma estar impregnada não apenas por elementos de “natureza científica”, mas também inscrita de forma dialéctica em factores sociais e materiais, resultando, portanto, no entendimento que o conhecimento produzido por esta prática resulta tanto do processo que gere a indagação como das relações sociais e produtivas particulares de um dado momento histórico. Se assim não fosse o próprio Popper jamais haveria fundado em conjunto com Friederich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman a Sociedade Mont Pèlerin.

Cabe-me realçar, no entanto, que tanto em Popper (sumamente referido no livro) como em Kuhn (descontextualizado no livro de Fiolhais e Marçal) a natureza da indagação não é abordada de forma material, mas dada como natural e espontânea, mantendo-a cerrada à problemática de como discernir a natureza exacta das dinâmicas históricas enquanto desafios à realidade, como diria o epistemólogo latino-americano Hugo Zemelman.

Apesar de tudo, e tendo em conta o facto de que os autores de “A Ciência e os seus Inimigos” desenvolvem as categorias de inimigos com base num exercício sociológico preguiçoso, o seu livro abre paradoxalmente importantes questões não sobre a construção do conhecimento, mas sobre a construção da ignorância, ou hoje conhecida como agnotologia. Este mesmo interesse foi perseguido pelos historiadores de ciência Londa Schiebinger e Robert Proctor, cujo estudo da produção da ignorância não se dissocia de um questionar crítico e uma análise material da natureza da indagação. Partindo de uma posição histórico-materialista da produção de conhecimento Schiebinger e Proctor apresentam uma proposta taxonómica alternativa a Fiolhais e Marçal baseada na proposta categórica da agnotologia, um neologismo usado para conceptualizar o estudo de políticas de produção de (des)conhecimento. Um estudo onde “A Ciência e os seus Inimigos” se encaixa enquanto objeto que cai não sobre a categoria de ignorância como estado nativo para o processo de descoberta, mas como ignorância selectiva ou de construção passiva. Isto significa que Fiolhais e Marçal ao escreverem “A Ciência e os seus Inimigos” mais do que elucidarem um público geral sobre o que é (são) a(s) ciência(s) e os seus problemas terminam por produzir uma forma de ignorância inscrita na geografia política da ciência moderna, que eu, tal como muitas e muitos consideramos hegemónica e neoliberal. Isto porque, não basta ser-se cientista para se estar capacitado para descrever com o mesmo rigor que advoga nas suas ciências a natureza complexa da produção de conhecimento. Entender a produção de conhecimento como a instituição que apelidamos de ciência implica entendê-la como prática social e estudar com rigor e seriedade a mesma, sem a reduzir. O que terminam por fazer no seu livro Fiolhais e Marçal é um exercício reducionista e instrumental, mesmo que não de forma propositada, da complexidade do que é a ciência. Mas este reducionismo estratégico não intencional tem por base as próprias disciplinas de Fiolhais e Marçal subsumidas ao longo da História aos interesses do capital.

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Karl Popper ( àesquerda) e  Friedrich Hayek (à direita)

Poderá isto significar que nenhuma ciência é na verdade desinteressada? Este é um ponto fundamental da nossa discussão e na forma como Fiolhais e Marçal apresentam a taxonomia dos inimigos da ciência. Em todos parte-se do princípio de que os inimigos têm interesses externos aos que movem internamente a ciência. Mas então quais são os outros interesses internos que fazem mover a ciência? E são estes interesses interno desinteressados? Robert King Merton diria que o desinteresse provém dos interesses internos daqueles cujos processos não resultem no benefício directo do investigador enquanto individuo, mas no benefício da comunidade científica, resultando assim numa forma de conhecimento comunal, ou seja, sem propriedade e por consequência desinteressada. A questão que se coloca é se podemos hoje – se é que em algum momento da história o pudemos – manter tal premissa para a prática científica? Na minha opinião, todo o conhecimento é interessado, e neste sentido e em diferentes graus todas e todos cientistas somos “oportunistas” no sentido em que nos convertemos ou subsumimos (com maior ou menor grau de consciência) a determinados critérios ou regras com o sentido de favorecermos a nossa prática científica no quadro da sua instituição, ou até mesmo com o sentido que simplesmente nos deixem em paz.

Por outro lado, enquanto cientistas partilhamos a missão de descobrir, e todas as descobertas alteram qualitativamente o mundo concebendo um antes e um depois do seu processo. Neste sentido, não há nenhuma ciência que não seja interessada, o que não significa que isso coloque em questão a sua objectividade. A assumpção que todo o conhecimento é um conhecimento interessado leva-nos a determinar que a produção de conhecimento não pode em si mesma ser geradoras de conhecimentos irrelevantes. Todo o conhecimento é assim relevante pois a sua produção está ancorada em orientações, ferramentas conceptuais, actividades e sínteses que constroem o presente social e projectam o futuro.

Apesar de tudo, e mesmo na presença de teorias como a agnotologia, seguimos incapazes de descreve de que forma a produção de conhecimento está ancorada na sociedade e esta na produção de conhecimento, resultando muitas das vezes na passagem da responsabilidade da aplicação prática do conhecimento para fora da esfera da “comunidade” que a produz. Coloco comunidade entre aspas pois mais à frente neste texto ir-me-ei debruçar sobre este tema.

Até à data, e nos limites do meu conhecimento e debilidades da minha prática de produção de conhecimento, os conceitos que melhor nos poderão guiar no entendimento do que é a ciência moderna e assim entender a sua realidade provém de Karl Marx. Dispersos nas obras do mesmo, os conceitos de subsunção real e formal usam-se duplamente com o sentido de subordinação e inclusão do trabalho imediato ao capital, e na proposta do marxista mexicano Jorge Veraza também do consumo, demonstrando assim que o capital pode subsumir outros âmbitos exteriores ao processo de trabalho e assim promover a aceitação de racionalidades intrínsecas ao capital.

A ciência como prática social de produção de conhecimento

As e os cientistas modernos – refiro-me a indivíduos subsumidos a formas de organização de produção de conhecimento orientadas pela racionalidade e pelo positivismo ético popperiano – não deixam de ser, só pelo mero ato de evocação, atores sociais de um sistema económico que pela sua realidade presente são influenciados e co-criados com o mesmo. Apesar de tudo, e entre os múltiplos ciclos contemporâneos de cientistas emerge, no entanto, um ethos compartido (ainda que por vezes imaginário) que a ciência moderna é motora do progresso social e por isso a sua objectividade é lhe atribuída não pela sua neutralidade, mas por uma ética de honestidade e robustez de um pensamento racional e metodológico. Este ethos entra em crise conjuntamente com a crise da legitimidade da sua produção, em si dependente de factores económicos subjacentes à mesma e mitigados por exercícios de política por vezes contraditórios. São exemplos não só os que podemos associar à biomedicina, como também os que se esculpem nas ciências ómicas e até económicas e que são em “A Ciência e os seus Inimigos” tratadas como cúmplices do obscurantismo. Por outro lado, mas no mesmo sentido, é na base da crise das condições da produção de conhecimento que se explicam os tresmalhados, e não no exercício descritivo-reducionista elaborado por Fiolhais e Marçal.

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Ludwik Fleck

Neste sentido, e tendo em conta que este artigo procura responder à falácia das categorias de inimigos apresentados por Fiolhais e Marçal, um estudo sério sobre a ciência e os seus inimigos exigiria que tratássemos de entender a Ciência como trabalho socializado cujas relações de produção correspondem ao processo produtivo capitalista.

A figura do cientista moderno como um individuo unicamente interessado no contínuo movimento do progresso do conhecimento, e por consequência como produtor de conhecimento cumulativo, é uma ficção produzida retrospectivamente como forma de se distanciar da sua estreita relação com as formas de governação económico-políticas do tempo em que esta produção se inscreve, legitimando-se assim a farsa da neutralidade. Por outro lado, a figura e a farsa, ganham corpo não no individuo, mas na utopia da comunidade. Comunidade esta que se constrói com base em princípios liberais de igualdade (ela mesma em si anti comunitária) desconectando-se da diferença e exercendo um poder autoritário sobre os demais. Ignora-se assim, que mais do que “a comunidade” existe na Ciência, como diria Fleck, colectivos de pensamento cujo estilo constitui o edifício teórico destes e é diretamente influenciado tanto pelas dinâmicas internas ao colectivo como entre interacções dissidentes ou entre estilos e as formas de organização das instituições de ciência e da sua produção.

Até certo ponto a necessidade de construir uma comunidade depende da visão da História. Actualmente as contradições da prática científica promovida pela acção burocrática são tantas que a ideia de comunidade se constrói unicamente num campo semântico que lhe confere legitimidade, isto é, a linguagem comum da comunidade desconexa por práticas burocratizadas sob regimes democráticos contraditórios. Para a ciência ser verdadeiramente comunitária, livre e democrática implicaria uma prática científica em si mesma comunitária, livre e democrática, visão conflituante com os actuais arranjos institucionais, organizações científicas, dependências económicas. No mesmo sentido, as actuais formas de avaliação da prática científica não têm nada de democráticas. O peer-review não é um ato democrático, muito menos quando submetido a mega editoras que detêm o monopólio das publicações e, com ele, o das avaliações. Neste sentido, a aceitação de ideias científicas difere radicalmente da praxis democrática. Situações proliferam em que o espírito competitivo da ciência promove a exclusão de muitas investigadoras, incluindo as mais novas ou sem doutoramentos, ao mesmo tempo que os financiamentos, que procuram afirmar a existência de uma comunidade, orientam a prática da mesma para o mercado promovendo assim uma prática individualizada e apenas igual e livre perante as regras de um mercado livre – tal como Popper o desenhou.

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“O grupo de Piltdown”, quadro de John Cooke

Se existe um inimigo da Ciência categoricamente dado, esse é a burocracia. Sobre a égide de um pensamento racional e optimizador dos recursos e, como forma de controlar os impulsos egoístas, a burocracia transformou-se no tecido vascular da ciência moderna e é hoje responsável por irrigar os seus principais órgãos: financiamento e avaliação.

Se vivemos hoje uma crise do conhecimento, essa crise deve-se às contradições internas de uma prática de conhecimento subsumida ao capital e à crise da legitimidade das suas aplicações, bem como a um processo de produção cada vez mais orientado por uma energia destrutiva e não produtiva. Resulta, pois, que “A Ciência e os seus Inimigos” não vinga em apresentar princípios comuns que permitam entender de facto a crise da Ciência e, neste sentido, as categorias resultam de um processo incompleto e de uma análise imperfeita que deve ser revista, sob risco do exercício se tornar uma mera especulação de filósofos de bancada.

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