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Os “novos” fascistas em Itália | Rosaria Bonomo

No dia 3 de fevereiro em Macerata, no centro de Itália, um militante de extrema-direita disparou contra seis imigrantes negros, ferindo-os. Detido pela polícia, decidiu cobrir-se com a bandeira italiana e fazer a saudação fascista. Chama-se Fabrizio Traini e é militante da Lega Nord, um dos principais partidos italianos de direita. Em 2017, foi o candidato dessa organização fascista à Câmara Municipal de Macerata.

Traini justificou os seus actos por um desejo de vingança após a morte de Pamela Mastropietro, uma rapariga de Macerata assassinada, cortada e feita em pedaços, provavelmente por um ou mais “dealers” da Nigéria, sendo que a investigação da polícia ainda decorre. Aquilo que aconteceu é muito grave, mas tragicamente comum. Todos os anos morrem em Itália mais de 100 mulheres. 73,1 %, números do Instituto Italiano de Esatística de 2016, dessas mulheres são assassinadas pelo marido, ex-marido, namorado ou ex-namorado ou até por familiares. 92% dos assassinos são italianos, dados do Eures.

As reacções dos partidos da extrema-direita ao atentado terrorista foram de justificação ou até mesmo de apoio total. Para Matteo Salvini, líder da Lega Nord, “a responsabilidade moral de cada acontecimento de violência que acontece em Itália é daqueles que a encheram de clandestinos”. Já o Forza Nuova, partido neofascista, ofereceu-se para pagar as despesas legais de Traini, afirmando que “isto acontece quando os cidadãos se sentem sozinhos e traídos, quando o povo vive no terror e o Estado preocupa-se apenas em reprimir os patriotas e a defender os interesses da imigração”.

No clima “quente” da última campanha eleitoral, o ex-primeiro-ministro Renzi, líder do Partido Democrático, e também de Luigi Di Maio, do Movimento 5 Estrelas, convidaram ao “silêncio” e à não instrumentalização do crime. Um convite ao silêncio que visa apagar qualquer forma de reacção a um acto cometido não por um qualquer doente mental mas como consequência da política de ódio contra imigrantes e da tolerância para com formações neofascistas em Itália.

A manifestação antifascista

Logo após o atentado, a Associação dos Partisans (ANPI), a Associação Antifascista (Arci), o sindicado CGIL e a Libera, uma associação contra as máfias, convocaram uma manifestação antifascista para o dia 10 de fevereiro na cidade de Macerata. O apelo recebeu o apoio imediato de muitas associações e movimentos sociais por todo o país. Ainda assim, o Presidente da Junta de Macerata pediu o cancelamento da manifestação para permitir à cidade “recuperar” da dor daqueles dias e para se evitar mais episódios violentos e divisões. Foi com este pedido como pano de fundo que o ministro do Interior, Marco Miniti, decidiu proibir a manifestação, com as associações organizadoras a acatarem a decisão.

Se para os antifascistas a liberdade de manifestação foi restringida, já para os neofascistas a História é bem diferente. Na mesma semana, e em Macerata, os partidos neofascistas da Forza Nuova e Casapound puderam manifestar-se com toda a liberdade, espalhando a violência e o ódio que os caracteriza. É ainda de referir que o presidente da Câmara da cidade pertence ao Partido Democrático de Renzi, o mesmo partido que, perante atentados fascistas e racistas, prefere remeter-se ao silêncio, tal como os restantes do sistema, em vez de se opor à ódio contra os imigrantes. Tudo por ter receio de vir a perder votos por causa de um tema tão sensível em Itália como o é a imigração. Os partidos do centro político não são apenas responsáveis pela ascensão do fascismo com as suas políticas neoliberais, mas também responsáveis por nada fazerem contra uma ameaça que, segundo eles próprios, coloca em causa a democracia-liberal que tanto defendem.

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Manifestação em Macerata, 2018

Apesar da proibição do presidente da Câmara e do “boicote” da CGIL, ANPI, ARCI e Libera, outras organizações e independentes antifascistas decidiram avançar com a manifestação. Perante o consenso geral e na véspera da manifestação, as autoridades policias acabaram por autorizá-la. Uma decisão que desde o primeiro momento teve a oposição dos principais meios de comunicação social, que criaram um clima de medo em torno desse direito constitucional. Recomendaram o encerramento de todas as lojas na tarde da manifestação por alegadas preocupações sobre a “provável” violência antifascista, que poderia “destruir a cidade à maneira dos black blocs”.

Nada se colocou à frente da determinação dos antifascistas e na tarde de 10 de fevereiro, sábado, mais de trinta mil pessoas desfilaram pacificamente por Macerata sob o lema “Movimentos contra cada fascismo e racismo”. Entre a divisão histórica da esquerda italiana, o combate contra o racismo e fascismo representa uma causa comum, ultrapassando todas as divisões. O inimigo é comum, obrigando à unidade na acção. Foi sob esta orientação política que os principais movimentos e partidos da esquerda “antagonista”, como a Federação Italiana dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas, pertencente à CGIL, mas também partidos como Liberi e Iguali, Potere al Popolo, PC e Per Una Sinistra Rivoluzionaria. A oposição ao fascismo em Macerata não foi caso único nesse dia, com manifestações e concentrações significativas por várias cidades italianas. Numa destas, em Piacenza, norte da Itália, foi organizada uma manifestação para evitar a abertura de uma sede da Casapound, terminando em confrontos violentos entre os manifestantes e a polícia. Perante a ameaça do fascismo, já sabemos para que lado pende as forças de segurança do Estado.

Velhos e novos fascistas

Mas quem são os “neofascistas”? Actualmente, em Itália, os principais partidos “neofascistas” são a Casapound e a Forza Nuova. Nas últimas eleições legislativas recusaram quaisquer coligações e disputaram sozinhos o eleitorado. Claro que também existem outras organizações mais pequenas. Estes partidos, que nasceram em períodos diferentes, o Forza Nuova em 1997 e o Casapounde em 2003, assemelham-se pela prática política. São claramente partidos neofascistas.

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Membros do fascista Casapound a desfilarem nas ruas italianas

Definem-se oficialmente como “neofascistas” e não fascistas por, segundo a Constituição italiana, ser proibido recriar o partido fascista, embora muitas vezes deixem também cair esta aparência. Na verdade, não recusam fazer em público as saudações do regime fascista de Benito Mussolini e de se declararem abertamente fascistas. Para além disso, os factos falam por si: registam-se em toda Itália agressões, ameaças e ataques com bombas incendiárias por parte de aderentes ou simpatizantes destes partidos, como se pode ver também no Mapa das Agressões Fascistas, feita pelo colectivo Infoantifa ECN.

Velhos fascistas ou “novos” fascistas? A dúvida termina no preciso momento em que se começa a perceber melhor os elementos das suas respectivas lideranças. Entre os vários casos conhecidos, o mais escandaloso é sem dúvida o de Roberto Fiore, secretário do Forza Nuova e condenado em 1985 por associação subversiva e pertença a “grupo armado”, que fugiu para o estrangeiro para evitar a prisão. Fiore pertenceu à organização terrorista de extrema-direita NAR (Núcleos Armados Revolucionários), responsável por um atentado bombista na estação de Bolonha a 2 de Agosto de 1980, matando 85 pessoas e ferindo gravemente outras 200. A espinha dorsal do movimento fascista italiano são pessoas que não temem a violência armada, bem pelo contrário, faz parte da sua visão do combate político.

Se num primeiro momento poderíamos pressupor que as reivindicações destas organizações se transformaram substancialmente com os anos, rapidamente constatamos que assim não é. As suas reivindicações nada têm de novo: defendem uma política mutualista e social com foco nos lemas “Deus, pátria e família” e “Devolver a Itália aos italianos”. O ponto central dos seus programas mantém-se inalterado: defender as raízes italianas, ocidentais e cristãs contra a ameaça dos imigrantes que vêm para roubar postos de trabalho, recursos e até a própria identidade nacional.

Os imigrantes, a emigração e o “perigo” do fascismo

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística de Itália, o número de estrangeiros residentes no país em 2017 rondavam os cinco milhões, cerca de 8,3% da população. Em 2016, os 2,4 milhões de empregados imigrantes produziram 8,9% do PIB. Por outro lado, a partir da crise, calcula-se que, em sete anos, meio milhão de italianos tenham emigrado, sendo que a maioria desta se encontra na faixa etária entre os 25 e os 34 anos. Hoje, mais de cinco milhões de estrangeiros residem no estrangeiro e o número continua a aumentar enquanto estas linhas estão a ser escritas. Apesar do elevado número, podemos afirmar que este se encontra subvalorizado por muitos cidadãos italianos não se registarem nas embaixadas. Os dados falam por si. Em Itália, a percentagem de emigrantes é bem maior que a dos imigrantes.

Se tentarmos apurar as causas para um tão elevado número de emigrantes, rapidamente constatamos porquê: falta de oportunidades de futuro em Itália. No início de 2017,o desemprego jovem rondava os 40%. Em 2018, o número desceu para os 32,7%, mas, em contrapartida, o número de quem não estuda ou trabalha aumentou, assim como a precariedade e a exploração. A economia italiana, com um crescimento económico de 1,5% do PIB e uma dívida pública na ordem dos 132%, está longe de ter recuperado os valores de antes da crise. Com base nestes números, não existem dúvidas de que os problemas em Itália não são os imigrantes, mas sim a fragilidade do sistema financeiro e a concentração de riqueza, com 1% da população a deter cerca de 25% da riqueza. As desigualdades continuam a aumentar a cada dia que passa e os neofascistas canalizam o ódio para os imigrantes.

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Manifestação nacional anti-racista em Florença, Itália, a 10 de Março de 2018

Os imigrantes são assim um bode expiatório não apenas para os neofascistas, mas também para os partidos que nos últimos anos têm governado o país. Se os imigrantes são os responsáveis, então não se olha para as verdadeiras causas da situação política, económica e social em Itália, caso contrário seriam ainda mais responsabilizados. É neste contexto que se consegue perceber a tolerância do Estado italiano para com o racismo e fascismo da extrema-direita no país. Ao mesmo tempo, tentam mostrar os antifascistas como pessoas lunáticas e extremistas. O antifascismo é, para o sistema, apenas a outra face do extremismo da extrema-direita.

Mas quais os números das forças neofascistas? O “perigo fascista” é uma ameaça real em Itália? Em termos de militância, o Casapound declara ter cerca de 100 sedes em todo o país, enquanto o número de inscritos não é divulgado há vários anos, mas em 2013 rondavam os dois mil. Números difíceis de confirmar por as fontes públicas afirmarem números bastante discrepantes: uma diz que tem entre dois mil a seis mil inscritos, enquanto outras dizem ter até um máximo de 20 mil inscritos. O facto da Casapound se recusar a divulgar dados oficiais permite perceber que não são muitos milhares. Ainda assim, não se deve menosprezar a força deste partido, tendo em conta que os seus militantes são muito activos na arena política, principalmente nas ruas italianas. Já a Forza Nuova tem cerca de 2500 inscritos. Em termos eleitorais, o Casapound alcançou uns míseros 0,9% e o Forza Nuova 0,37% nas recentes eleições legislativas. Ainda assim, é de referir que em 2017 os dois partidos juntos alcançaram cerca de 10% dos votos nas eleições para a câmara municipal de Ostia. Para além disso, quando olhamos a capacidade de mobilização destes partidos, vemos que não é assim muito forte. Assistimos a um exemplo na última campanha eleitoral: comícios de Casapound ou da Forza Nuova com vinte a trinta pessoas aproximadamente, e a polícia a defendê-los dos “ataques” de milhares de antifascistas em protesto. O mês de fevereiro foi marcado por inúmeras manifestações e iniciativas antifascistas contra a utilização de praças ou espaços pelos neofascistas. Em muitos casos, os agentes da policia entraram em confronto com as pessoas que protestavam, confrontos esses que acabaram por ser bastante violentos. Não obstante, seria um erro desvalorizar os neofascistas com apenas por causa dos seus números. As suas ideias e narrativas estão a granjear apoios na sociedade italiana, ao mesmo tempo que já têm implantação nacional.

No contexto da crise, de deterioração das condições de vida e da retirada de direitos, torna-se evidente que a resposta do Estado é a repressão. Nenhuma grande força política que se proponha a liderar a classe trabalhadora italiana oferece uma resposta alternativa à crise. A liberdade que é dada ao fascismo vai nessa mesma direcção. Independentemente da solução de impasse de governo agora em curso, qualquer partido ou organização que apoie a demagogia contra os imigrantes ou a exploração de homens e mulheres trabalhadores, será cúmplice deste processo.

O fascismo é claramente uma questão de classe, mas também de conservadorismo, racismo, machismo, entre outras vertentes, e as forças antifascistas apenas o poderão derrotar se saírem para as ruas com uma forte unidade entre os trabalhadores nacionais e estrangeiros. Para isso, é fundamental organizarem-se os homens e mulheres nos seus locais de estudo e de trabalho, sempre com uma perspectiva revolucionária. O fascismo não é mais que uma brutal resposta de um sistema que já demonstrou estar em degradação. Hoje, não há mais tempo para ambiguidade. Está na hora de agir.

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