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O Dia da Mulher | Alexandra Kollontai

Hoje as mulheres marcham pelas ruas para exigirem os seus direitos contra uma sociedade que as oprime diariamente. Há 109 anos, em 1909, as mulheres marcharam pela primeira vez nos Estados Unidos. Hoje, será por todo o mundo. 

Em 1913, quando Alexandra Kollontai publicou o artigo “Dia da Mulher”, os debates no movimento socialista e feminista eram outros, que hoje estão, na sua grande maioria, ultrapassados. 

Para começar, a simples necessidade em Kollontai ter de explicar, perante o movimento socialista, a necessidade e legitimidade das mulheres terem um dia dedicado à sua luta pela emancipação. E do porquê desta luta não contribuir para a divisão do movimento socialista, mas para a sua união. 

Ainda que a maioria dos pontos abordados no artigo estejam ultrapassados e sejam, felizmente, entendidos como correctos, é sempre bom relembrar a História do movimento feminista e do combate de milhares de feministas socialistas pioneiras. Por fim, há um combate, desde que adaptado e contextualizado aos tempos que correm, abordado no artigo que ainda se mantém actualíssimo: a oposição ao feminismo liberal por ser insuficiente para libertar totalmente a mulher, descurando a vertente de classe. 

Nos últimas décadas, temos assistido ao fortalecimento do feminismo liberal na sociedade, atenuando, como se de uma auto-defesa evolutiva do sistema se tratasse, a oposição o sistema. Ora, o feminismo liberal, ao conceder pequenas migalhas para umas poucas mulheres, condena as restantes à miséria de um sistema económico cada vez mais selvagem. 

Não é por acaso que as grandes defensoras do feminismo liberal são mulheres com destaque na sociedade do espectáculo, mas, sobretudo, por integrarem parte da minoria privilegiada. Ora, as sufragetes a que Kollontai se refere não são nada mais que as feministas liberais de inícios do século XX. Podemos votar, mas continuamos a vender a nossa força de trabalho na esperança de um salário digno. A democracia não é só votar, mas também ter as necessárias condições materais para se ter uma vida digna e sem submissão. Falta ainda muito por conquistar. Nem mais uma.

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O que é o dia da Mulher? É realmente necessário? Será que é uma concessão às mulheres da classe burguesa, às feministas e sufragistas? Será que é nocivo para a unidade do movimento operário? Estas questões ainda se debatem na Rússia, embora já não no estrangeiro. A vida deu ela mesma uma resposta clara e eloquente a essas perguntas.

O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida ligação da mulher ao movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce a cada dia. Há vinte anos, as organizações operárias não tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários… Agora, os sindicatos ingleses têm mais de 292.000 mulheres sindicalizadas; na Alemanha são em torno de 200.000 sindicalizadas e 150.000 no Partido Operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no Partido. Em toda as parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estão-se a organizar a si próprias. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhão de membros. Uma força poderosa! Uma força com a qual os poderes do mundo devem contar quando se coloca sobre a mesa o tema do custo de vida, a segurança na maternidade, o trabalho infantil ou a legislação para proteger os trabalhadores.

Houve tempos em que os homens trabalhadores pensavam que apenas eles deveriam carregar, sobre os seus ombros, o peso da luta contra o capital; pensavam que apenas eles deviam enfrentar o “velho mundo”, sem o apoio das suas companheiras. Porém, com entrada de mulheres da classe trabalhadora nas fileiras daqueles que vendem o  seu trabalho em troca de salário, forçadas a entrar no mercado laboral por necessidade, porque o marido ou pai estava no desemprego, os trabalhadores começaram-se a aperceber que deixar para atrás as mulheres, entre as fileiras dos “nom-conscientes”, era prejudicar a sua causa e evitar que esta avançasse. Que nível de consciência possui uma mulher que se senta no fogão, que não tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela nom tem ideias próprias! Todo é feito como ordenam o pai ou marido…

O atraso e a falta de direitos sofridos pelas mulheres, a sua dependência e indiferença não são benéficos para a classe trabalhadora, e de facto são um mal directo para a luta operária. Mas, como entrará a mulher nesta luta, como acordará?

A social-democracia estrangeira não encontrou imediatamente uma solução correcta. As organizações operárias estavam abertas às mulheres, mas só umas poucas entravam. Porquê? Porque a classe trabalhadora, ao começo, não se apercebeu  que a mulher trabalhadora é o membro mais degradado, tanto legal quanto socialmente, da classe operária, que ela foi espancada, intimidada, encurralada ao longo dos séculos, e que para estimular a sua mente e o seu coração precisa de uma aproximação especial, palavras que perceba como. Os trabalhadores não compreendem que, neste mundo de falta de direitos e de exploração, a mulher é oprimida não apenas como trabalhadora, mas também como mãe, mulher. Porém, quando omembross  do partido socialista operário entenderem isto, participarão arrojadamente na luta pela defesa das trabalhadoras como assalariadas, como mães, como mulheres.

Os socialistas em cada país começam a exigir uma protecção especial para o trabalho das mulheres, segurança para as mães e os seus filhos, direitos políticos para as mulheres e a defesa dos seus interesses.

Quanto mais claramente o partido operário percebeu esta dicotomia mulher/trabalhadora, mais ansiosamente as mulheres se uniram ao partido, mais apreciaram o partido como o seu verdadeiro defensor e mais decididamente sentiram que a classe trabalhadora também lutava pelas suas necessidades. As mulheres trabalhadoras, organizadas e conscientes, fizeram muitíssimo para esclarecer este objectivo. Agora, o peso do trabalho para atrair as trabalhadoras para o movimento socialista reside nas mesmas trabalhadoras. Os partidos em cada país temêm os seus comités de mulheres, com os seus secretariados e bureaus para a mulher. Estes comités de mulheres fazem trabalho entre a ainda grande população de mulheres não conscientes, elevando a consciência das trabalhadoras em seu redor. Também examinam as demandas e questões que afectam mais directamente a mulher: proteção e provisão para as mães grávidas ou com filhos, legislação do trabalho feminino, campanha contra a prostituição e o trabalho infantil, a exigência direitos políticos para as mulheres, a campanha contra a subida do custo de vida…

Assim, como membros do partido, as mulheres trabalhadoras lutam pela causa comum da classe, enquanto ao mesmo tempo delineiam e põem no centro da questão as necessidades e as exigências que mais directamente lhes dizem respeito como mulheres, como donas de casa e como mães. O partido apoia estas exigências e luta por elas. As necessidades das mulheres trabalhadoras são parte da causa dos trabalhadores enquanto classe.

No dia da mulher as mulheres organizadas manifestam-se contra a falta de direitos. Mas alguns dirão, por quê esta separação das lutas das mulheres? Por que é que há um dia da mulher, panfletos especiais para trabalhadoras, conferências e comício? Não é, enfim, uma concessão às feministas e sufragistas burguesas? Só aqueles que não compreendem a diferença radical entre o movimento das mulheres socialistas e as sufragistas burguesas podem pensar desta maneira.

Qual o objectivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmos direitos na sociedade capitalista que os seus maridos, pais e irmãos têm agora. Qual o objectivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária é-lhe indiferente se o seu patrão é um homem ou uma mulher.

As feministas burguesas exigem a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respondem: exigimos direitos para todos os cidadãos, homens e mulheres, mas não somos apenas mulheres e trabalhadoras, também mães. E como mães, como mulheres que virem a ter filhos no futuro, exigimos umha atenção especial do governo, protecção especial do Estado e da sociedade.

As feministas burguesas estão a lutar para conquistar direitos políticos: também aqui os nossos caminhos se separam. Para as mulheres burguesas, os direitos políticos são simplesmente um meio para conseguir os seus objectivos mais comodamente e com mais segurança neste mundo baseado na exploração dos trabalhadores. Para as mulheres operárias, os direitos políticos são um passo no caminho rochoso e difícil que leva ao desejado reino do trabalho.

Os caminhos seguidos pelas mulheres trabalhadoras e as sufragistas burguesas separaram-se há muito tempo. Há uma grande diferença entre os seus objectivos. Há também uma grande contradição  entre os interesses de uma mulher operária e as donas proprietárias, entre a criada e a senhora… portanto, os trabalhadores não devem temer que haja um dia separado e assinalado como o Dia da Mulher, nem que haja conferências especiais e panfletos ou imprensa especial para as mulheres.

Cada distinção especial para as mulheres no trabalho de uma organizaçom operária é uma forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras daqueles que estão a lutar por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a auto-consciência da mulher trabalhadora estão a servir a causa, não com divisão, mas com a união da classe trabalhadora.

Deixem que um sentimento de alegria em servir a causa comum da classe trabalhadora e de luta pela sua emancipação inspire trabalhadoras a juntarem-se à celebração do Dia da Mulher.

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