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Afrin, a resistência de uma era | Bruno Garrido

Desde 2012 que, no norte da Síria, resiste uma região autónoma conhecida por Federação Democrática do Norte da Síria, vulgo Rojava. Esta terra, habitada por povos de diferentes etnias e religiões, colocou em prática um novo modelo de organização social ao qual chamam Confederalismo Democrático. Este modelo, baseado nos princípios de Abdullah Öcalan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), têm como pilares centrais, o comunalismo, ecologismo e a Jineoloji – a ciência das mulheres curdas. A região é dividida entre os cantões de Afrin, Kobane e Jazira.

Desde o dia 20 de Janeiro, no noroeste de Rojava, o cantão de Afrin encontra-se cercado e debaixo de uma agressão militar levada a cabo pelo exército turco e suas proxies jihadistas Ahrar al Sham, Partido Islâmico do Turquestão Oriental, Tahrir al Sham, etc. — que são grupos locais da Al-Qaeda que estiveram também anteriormente em aliança com o ISIS. Geograficamente, este cantão encontra-se cercado a norte e oeste pelo exército turco, a sudeste pelo Exército Árabe Sírio (SAA), a leste pelo Exército Livre da Síria (FSA) (vulgo “rebeldes moderados” corta-cabeças) e a sul por Idlib – o maior feudo de jihadistas da Síria.

Com pouco mais de um mês e meio da operação Rama de Oliveira, pelo menos 350 pessoas perderam a vida segundo a Heyva Sor Kurd (Cruz Vermelha Curda) e mais de 30 mil foram forçadas a fugir para as montanhas. Centenas de habitações foram destruídas como consequência directa do bombardeamento a zonas residenciais e serviços públicos, tais como a barragem de Maydanki, que se encontra em risco de colapso e poderá inundar o norte de Afrin. Devastador têm sido também a destruição de património histórico e cultural, como o templo de Ain Dara ou a zona arqueológica de Nabi Hori. Como Sivan Zerdesti, membro do Congresso Nacional do Curdistão (KCK), apontou numa oportuna crónica no Jornal Público, publicada no passado dia 28 de Fevereiro,”a política de terra queimada aplicada pelo regime do AKP deixou as cidades de Mus bedlîs, Sûr, Dersim, Farqîn, Cizîr, Sirnex, Bîsmîl, Silopîya, Nisêbîn, Sêrt, Gever, Colemêrg, Hezex completamente destruídas, provocando deslocações massivas de refugiados”.

concentração em Genebra em frente à sede da ONU

Se dúvidas restavam da veia genocida e expansionista do regime governado pelo AKP, com o apoio do MHP (extrema-direita turca), foram removidas depois das atrocidades cometidas em Afrin pelo exército turco e as suas proxis, tais como a mutilação do corpo da guerrilheira curda Barin Kobane ou a execução de um agricultor curdo por um grupo da operação “Rama de Oliveira” (ambos os momentos capturados em vídeo) ou mesmo a própria retórica de Erdogan nos meios de comunicação turcos, onde ameaça constantemente a zona de limpeza étnica. Segundo o mesmo, o exército turco só vai sair da zona quando “o último guerrilheiro curdo for morto” e, não se ficando por aqui, afirma que “vai controlar Afrin como fez com Jarablus, al-Rai e Al-Bab”.

Entre a NATO e o dinheiro – “As montanhas são as nossas únicas amigas”

O xadrez geopolítico em que se encontra o movimento curdo faz ressaltar um dos ditados mais populares daquele povo: “as montanhas são as nossas únicas amigas”. A Operação Rama de Oliveira iniciou-se depois da luz verde dada pelas grandes potências internacionais – Rússia, Estados Unidos e alguns países da União Europeia.

A Rússia, que controla o espaço aéreo de Afrin e que tinha até há pouco tempo bases militares na zona, permitiu a entrada da aviação turca em território sírio, ao mesmo tempo que tem aumentado as suas relações bilaterais com a Turquia em assuntos como armamento, gasodutos, etc. A Turquia torna-se assim um aliado central para os interesses russos no controlo do sul do Mar Negro. Por outro lado, os EUA, que, até então vinham apoiando as milícias curdas na luta contra o ISIS, rapidamente se distanciaram e declararam que o seu aliado da NATO tem “razões legítimas de preocupação com as suas fronteiras”. Demonstrador disso mesmo é também o facto de um dos braços da maior máquina de guerra do mundo – a CIA – ter declarado pela primeira vez o PYD (partido associado ao federalismo curdo) como organização irmã do PKK e portanto também uma organização terrorista. O isolamento internacional confirma-se ainda com a recente prisão de Salih Muslim, ex co-presidente do PYD e actual diplomata curdo na República Checa, a mando dos serviços secretos turcos, que exigiam a sua extradição para a Turquia. Nas primeiras semanas da operação foram divulgadas fotos que mostravam tanques produzidos na Alemanha e vendidos ao regime turco a ser utilizados para o massacre de Afrin.

barin kobane guerrilheira mutilada pelos jihadistas

Os principais meios de comunicação social do Ocidente, treinados e ordenados, rapidamente começaram a fazer circular informação falsa e a silenciar o massacre que o segundo maior exército da NATO está a cometer em Rojava. Da omissão da chacina que Erdogan comete em Afrin até à fabricação de noticias, onde se misturam zonas geográficas e grupos ideologicamente distintos, tudo numa clara tentativa de branquear o massacre de Afrin. Exemplo disso é uma notícia publicada pela Reuters nos primeiros dias da operação, onde indicavam que a Turquia já tinha morto “pelo menos 260 guerreiros do Estado Islâmico Curdo”.

Afrin nas páginas da História: A “resistência sem fim”

De Afrin, a cada dia que passa, chegam mais relatos da heróica resistência que o povo curdo tem demonstrado. Com a ocupação militar, centenas de habitantes de Afrin e vários voluntários e voluntárias dos quatros cantos de Rojava juntaram-se à resistência, assim como pessoas de várias cidades da Síria, como Manbij (o próximo alvo da ofensiva, segundo ameaças de Erdogan), Tabqa ou Raqqa – todas cidades previamente libertadas do ISIS – juntaram-se às Unidades de Protecção Popular (YPG) e Unidades de Protecção da Mulher (YPJ). A 8 de Fevereiro, o movimento de mulheres curdas Kongreya Star lançou a campanha #WomenRiseUpForAfrin, um apelo global por solidariedade com a resistência das mulheres curdas, no mesmo dia em que em Tirbesipiye, no cantão de Cizre, milhares de mulheres saíram à rua numa enorme manifestação de solidariedade com as guerrilheiras de Afrin.

Uma nova prova de solidariedade deu-se no fim de Fevereiro, quando as Forças Populares Sírias (NDF) – Unidades Populares criadas em 2012 para resistir ao ISIS – vieram dar apoio na batalha contra a ocupação do exército turco. Circularam vídeos da chegada destas milícias a Afrin onde se ouvia: “Viemos para lutar e ajudar os nossos irmãos e irmãs, e vamos ficar por aqui até expulsar o invasor otomano”. Um outro vídeo, partilhado pelas forças populares que chegaram de Aleppo, na sua maioria curdos, yazidis e assírios, afirmam que vieram trazer “saudação do povo sírio aos nossos valentes irmãos e irmãs de Afrin. Afrin recebe-nos entre canções e com os braços abertos. Os invasores vão ser expulsos de toda a Síria”.

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A chegada das NDF de Nubl e Zahraa (povoações vizinhas) é também um momento muito simbólico desta solidariedade. Esta milícia, composta na sua maioria por pessoas xiitas que estiveram sob cerco do ISIS e debaixo de fogo durante três anos, conseguiram sobreviver graças ao apoio logístico de Afrin. Embora sejam unidades menos treinadas, o conflito sírio têm demonstrado que as minorias que se encontram em risco costumam ser boas na sua auto-defesa, exemplo disso são as milícias cristãs no Norte de Hama em Suqaylabiyah e Mhardeh, também algumas minorias que formaram unidades do Norte de Latakia, assim como, os yezidis que formaram as suas próprias unidades de defesa pessoal.

Perante o silêncio da comunidade internacional, a solidariedade internacional tem de se erguer

Ecos da solidariedade global começaram a sentir-se após os primeiros apelos do movimento curdo. A 27 de Janeiro, milhares de pessoas tomaram as ruas dos quatro cantos do mundo numa grande demonstração de solidariedade. têm sido realizadas manifestações semanais em vários países e, a 4 de Março no “Dia Mundial Pela Resistência de Afrin”, milhares voltaram às ruas como forma de rejeição da agressão militar a Afrin. De destacar a grande marcha começou dia 8 no Luxemburgo em frente ao Conselho Europeu de Justiça  e, terminou a 17 de Fevereiro em Estrasburgo com uma manifestação que juntou mais de 30 mil pessoas, em solidariedade com o povo curdo. Uma comitiva de 11 pessoas de Portugal também esteve presente nesta grande marcha na qual também foi organizada uma concentração em frente à sede das Nações Unidas em Genebra. Uma nova acção que merece ser seguida é o Tribunal Permanente Popular, que se vai realizar em Paris de 15 e 16 de Março e julgará os crimes que o regime turco cometeu contra o povo curdo, tais como as violações do direito internacional e de direitos humanos, especialmente em Bakur (Sudeste da Turquia).

Mais do que nunca, o movimento internacionalista necessita de erguer-se em solidariedade com o povo curdo e, perante o silêncio das instituições, demonstrar a sua total rejeição pela perseguição genocida ao povo curdo e a violação da integridade territorial da Síria. É necessário que mais pessoas e colectivos se juntem a esta causa e façam ouvir a sua voz junto dos organismos internacionais, das instituições públicas e demais espaços para que se multipliquem as acções e mostras de solidariedade para com um povo que se quer libertar das amarras do colonialismo e propor-se enquanto uma das soluções para alcançar a paz no Médio Oriente.

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