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Marxismo e os media | Khawer Khan

Talvez nada provoque mais desentendimento e debate entre os marxistas e outros activistas de esquerda que uma discussão sobre os media. Não há dúvida que os mass media são omnipresentes, mediando todos os aspectos da nossa vida. A forma como interpretamos o mundo é maioritariamente influenciada (colorida) pela forma como os media nos informam. A desconexão entre o que está a acontecer no terreno e a forma como é reportado nos media torna-se ainda mais clara durante períodos nos quais os trabalhadores e os jovens se envolvem nas lutas de massas. Excluindo os que participam directamente no movimento Occupy, o público em geral apresentou um imagem um pouco distorcida do que estava a acontecer no local.

“Não há abrigo aqui, a linha da frente está em todo o lado” – Rage Against the Machine

Isto divide os activistas em dois campos amplos: um que procura atrair uma melhor cobertura dos media e outro que os vê como uma ferramenta da classe capitalista. O que é claro para ambos os grupos é que nos mass media nós temos o domínio, ou hegemonia, das ideias da classe dominante.

Noam Chomsky, no seu livro Manufactured Consent, argumentou que a propriedade corporativa (corporate ownership) resulta na representação nos media dos interesses da classe dominante. A sua teoria assume que a mera propriedade (posse, ownership) dos mass media determina o conteúdo dos mesmos.

Com certeza haverá alguma verdade nisto. Actualmente, nos Estados Unidos da América, a maioria vasta dos meios de comunicação pertencem às seis grandes companhias/empresas: General Electric, Comcast, Disney, News Corp, CBS e Time Warner. Estas companhias não só controlam a vasta maioria da televisão, rádio e os jornais, como também possuem a grande maioria da publicidade ao ar livre e têm aumentado a participação na internet.

Além disto, há outras grandes empresas que poderão não possuir directamente acções nos media, mas que são também dos principais interessados: as agências publicitárias (anunciantes). Em capitalismo, o público consumidor, ou melhor, a atenção do público é vendida pelos donos dos media às agências publicitárias como mercadoria.

Apesar da longa tradição da esquerda nos media impressos e alternativos (artigos, jornais, livros e online), a barreira para entrar nos meios de comunicação visual é demasiado elevada. Portanto parece haver uma correlação entre a posse dos media e a hegemonia da ideologia da classe dominante. No entanto, apesar destes elementos da verdade no modelo de consentimento fabricado (Manufactured Consent), tal análise é, em última instância, anti-dialéctica e não marxista. Como materialistas dialécticos devemos olhar para as contradições internas em qualquer fenómeno. Nada é estático e inalterável, e estas próprias contradições internas são a força motora para mudança e desenvolvimento. Pequenas mudanças quantitativas que se acumulam ao longo do tempo e levam a saltos qualitativos, alterando todo o carácter do sistema.

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O primeiro passo para se compreender os media de uma forma dialéctica é perceber que o conteúdo em si não é tratado directamente pelos chefes/patrões. Os jornalistas e restantes trabalhadores dos media – não os patrões – é que produzem o conteúdo dos media. Com excepção dos regimes totalitários, os patrões/chefes não andam em torno da redacção da imprensa a tratar da microgestão do fluxo de informação. Jornalistas, incluindo os capatazes dos jornalistas conhecidos como editores, gerem a produção das notícias e de outros conteúdos. O controlo directo exercido pelos proprietários do capital é sobre a forma como os media são distribuídos. Por outras palavras, os patrões controlam directamente factores como marketing, posicionamento e a direcção mais geral do media.

Por outro lado, esta direcção geral é limitada, na maioria dos casos, aos donos e gestores do media em questão, que ditam a orientação geral da organização. Por exemplo, o uso do termo “criadores de emprego” em oposição a “capitalistas”; o uso de “bairro judeu” em vez de “zona de habitação israelita na Cisjordânia ocupada”, etc. A história particular escolhida e o tratamento e balanço da mesma, é quase sempre feito pelo jornalista.

Esta orientação geral  não é, de todo, um controlo insignificante; tem um grande impacto no conteúdo. Em certos casos, como o do recente despedimento dos jornalistas da Fox News por reportar hiperligações sobre os produtos geneticamente modificados da Monsanto e o câncro que provocam, mostra que os direitos dos jornalistas são, frequentemente seriamente limitados pela burguesia.  No entanto, nove em dez vezes o controlo do produto final permanece com os trabalhadores.  O modelo conspiratório unilateral do Chomsky não consegue explicar adequadamente a situação.

Os media são uma mercadoria incomum em capitalismo, uma vez que contém em si algumas qualidades do artesanato da sociedade pré-capitalista e algumas outras qualidades da produção moderna de mercadoria. Contrariamente à produção de artesanato, para a produção de mass media é necessária uma cooperação social e complexa entre os trabalhadores. Neste aspecto, lembra uma fábrica.No entanto, é bem diferente da mercadoria média na qual cada instância da produção de media – uma noticia particular, um filme particular, um videoclipe particular – é única. Uma notícia de ontem não irá ter tempo de antena hoje, a não ser que tenha sido re-filmada ou re-editada e lhe tenha sido atribuída um novo ângulo.

Existem mais coisas que não são usuais acerca desta mercadoria. Face a isso, quando compramos um jornal, acreditamos que comprámos uma mercadoria. Mas no entanto, a verdadeira mercadoria nesta transacção não é o jornal, mas antes o leitor.  Todas as notícias dos media – electrónicas ou de outro tipo – funcionam desta forma. A vasta maioria das receitas geradas nesta transacção não são de assinatura por cabo ou a pequena soma de dinheiro que o “consumidor” gasta para adquirir o jornal. Ao invés, são as grandes publicitárias que financiam os media que estão a comprar uma mercadoria. Essa mercadoria é a capacidade de atenção da audiência. Isto cria uma relação de forças pela qual qualquer desejo dos proprietários de direccionar o conteúdo do media está mitigado pelos gostos e preferências percebidas da audiência.

Além disso, contrariamente a outras mercadorias produzidas em massa, como um café, o dono do capital tem um controlo muito mais limitado na forma como cada produto é produzido. No caso do café, o detentor de capital pode ditar detalhada e diretamente a composição da mercadoria de forma a maximizar o lucro. O tamanho, peso, dimensões, materiais, cor, textura, design gráfico podem ser decididos em avanço. No entanto, no que toca aos média, os detentores do capital podem apenas fornecer as directrizes mais gerais, enquanto que os próprios funcionários dos media têm o “controlo criativo” de como o produto final é produzido e apresentado.

Além do mais e particularmente nos meios de comunicação, mas também nos media em geral, os prazos mitigam o controlo contemplativo da administração. Na melhor das hipóteses, as opções para um editor que se depara com uma peça que não queira transmitir ou imprimir são a destruição da mesma ou a sugestão de pequenas edições.

Com algumas excepções bastante notáveis, como a Fox News, a vasta maioria dos meios de comunicação capitalistas estão sujeitos a padrões como “profissionalismo” e “objectividade”. Na maioria das organizações de renome, existe um “muro entre a equipa editorial e a administração”, o que previne a intervenção diária dos patrão. Mais uma vez, o que os patrões controlam são o acesso e a distribuição.

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No entanto, é inegável o facto de que as ideias expressas nos meios de comunicação de massas não são as ideias dos trabalhadores que os produzem. Como explicamos esta situação desconcertante? Para um marxista, a explicação pode ser encontrada na analogia arquitectónica de base e superestrutura de Karl Marx. A base, ou fundamento, de qualquer sociedade, são os meios de produção e relações de produção que a ela correspondem.

Como Marx explicou n’A Ideologia Alemã: “As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como ideias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, portanto as ideias do seu domínio.”

Sendo assim, a sociedade burguesa cria instituições que apoiam o capitalismo e ideias idênticas, como “liberalismo”, “conservadorismo”, e o conceito abstracto de “liberdade”, que têm muito mais tempo de antena do que as ideias que vão contra esta linha. A ideologia capitalista é dominante nos media porque o capitalismo é dominante em todo o lado. Contrariamente à concepção mecânica de Chomsky, precisamos de olhar para o controlo dos media como uma conspiração de forma a obter uma explicação.

Como marxistas percebemos as principais contradições na base da sociedade capitalista. De forma a obter mais lucro, os capitalistas sentem-se na obrigação de criar cada vez mais “escavadores de cova” do seu sistema: o proletariado. A luta entre estas duas classes é irreconciliável. O proletariado tem os seus próprios interesses e valores que entram em conflito com a base e superestrutura capitalistas. A questão chave é se o proletário é ou não consciente de si mesmo como classe, e se pode então lutar como uma classe dentro dos seus próprios interesses.

A luta entre as visões do mundo destas duas classes e a aparente primazia das ideias burguesas merece uma elaboração mais profunda. Existem dois pensadores em particular que dão modelos interessantes para entender o como e porquê de os jornalistas produzirem notícias com posições opostas aos seus interesses de classe. O primeiro é o filósofo “marxista” Louis Althusser. Famoso pela sua teoria do “Aparelho Ideológico do Estado”, Althusser surgiu da tradição do marxismo académico ocidental. Embora tenha cometido erros políticos significativos, e o resultado das suas ideias seja, em última instância, derrotista, Althusser oferece algumas ideias sobre como a ideologia capitalista permeia a sociedade.

Althusser não entendeu que o estado era apenas “um corpo especial de homens armados”, que ele chamou de “Aparelho Repressivo do Estado.” Também viu um elaborado “Aparelho Ideológico do Estado”, que inclui conceitos como a família, os media, religião, nacionalismo, sexo, género, etc. De acordo com Althusser, estes criam as condições pelas quais o capitalismo se reproduz. Por outras palavras, cada uma destas instituições na sua forma corrente reforça a ideologia do capitalismo.

Althusser acreditava que a ideologia era inescapável. Num exemplo conhecido, fala-nos de um polícia que para um cidadão na rua. No momento em que o policia chama “Hey, tu!” importa muito pouco o que o cidadão decide fazer a seguir. Quer o cidadão escolha responder ou ignorar o policia, ele está constituído como um sujeito criminal.

Para aplicar esta teoria a um trabalhador de um media, sempre que um jornalista tenta desafiar a hegemonia da classe dominante nos media, a autoridade do “profissionalismo” e “objetividade” entra em cena e “constitui” o esforço do jornalista como “activismo” ou “subjectivo”. Por outras palavras, se contares uma história do ponto de vista da classe dominante, és “objectivo”, mas se tiveres outro ponto de vista, és “subjectivo” e um “activista”.

Enquanto esta teoria conduzir, finalmente, ao derrotismo, destaca-se um ponto muito importante: não precisamos de imaginar os patrões a controlar directamente os media para que percebamos o porquê dos media produzidos pelos trabalhadores serem poluídos por uma ideologia de classe alienígena (capitalista). Não precisamos de olhar para o modelo empírico e mecânico do Consentimento Fabricado para entender como os media apoiam a classe dominante.

Um outro, e mais fluído, pensador marxista foi o fundador do Partido Comunista Italiano, António Gramsci. Muitas vezes mal entendido pelos académicos como um tipo de reformista, muito do seu trabalho foi escrito enquanto estava preso pelo regime fascista em Itália na década de 1920, sendo, portanto, marcado por uma unilateralidade, dada a situação na qual escreveu.

No entender da sociedade de Gramsci, um fenómeno superestrutural conhecido como “hegemonia” cria condições que permitem o controlo da sociedade capitalista sobre o trabalhador, não apenas por meios coercivos, mas também pelo uso de condutas culturais. Elaborando a compreensão de Marx sobre a dialéctica da sociedade capitalista, ele mostra-nos como as ideias e os valores das duas principais classes concorrentes estão bloqueados em conflitos perpétuos.

Gramsci argumentou que, ao elencar valores culturais burgueses como neutros, a classe dominante apresenta os seus interesses como interesses do público em geral e os seus valores como valores de “senso comum”. Por outras palavras, dado que as ideias burguesas estão bem desenvolvidas e promovidas, todas as classes da sociedade são encorajadas a aceitar estas ideias conforme apresentadas. Sendo assim, por exemplo, quando os trabalhadores – incluindo jornalistas – defendem “marcados livres”, eles fazem-no contra os seus próprios interesses por causa da “hegemonia” da classe alienígena, a classe dominante.

A diferença radical entre esta ideia e as ideias de Althusser e Chomsky é que Gramsci afirmou que a classe trabalhadora poderia contrariar essa hegemonia através da promoção da cultura  e dos valores contra-hegemónicos. Gramsci acreditava que desafiar a “normalização” da exploração capitalista era fundamental para a luta política.

O ponto importante a ter em conta é que, para Gramsci, a dominação da ideologia capitalista não é uma realidade inevitável; não é determinado automaticamente pela base material, isto é, a propriedade privada dos meios de comunicação.

Portanto, a erradicação de ideias e valores burgueses só pode começar com a luta de massas dos trabalhadores contra uma sociedade capitalista, e esta pode ser completada, em última análise, apenas com o fim dessa sociedade.

A segunda parte do artigo está disponível aqui.

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