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Precisamos de um feminismo para os 99% | Angela Davis et al

A greve internacional das mulheres, a 8 de Março, avança a todo o vapor, com várias organizações nacionais e internacionais a aderirem e a concertarem-se. Em Portugal não será diferente, com as mulheres a entrarem em greve e a marcharem pelas ruas das principais cidades do país.

Um conjunto de ativistas juntou-se para publicar um manifesto, originalmente publicado no “The Guardian”, a apelar à participação de todas as mulheres na greve internacional. O manifesto foi subscrito por Angela Davis, Linda Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Rosa Clemente, Zillah Eisenstein, Liza Featherstone, Nancy Fraser, Barbara Smith e Keeanga-Yamahtta Taylor

As subscritoras defendem um feminismo para os 99% e não um das elites, um liberal, que se foque apenas em igualdade salarial e de acesso a cargos de direcção, mas um que interligue todas as lutas emancipatórias. Um que coloque em causa todo o sistema e que contribua para o derrubar, representando os anseios e necessidades de “mulheres negras e marrons, cis e bi, trabalhadoras lésbicas e trans, das pobres e de salários baixos, das cuidadoras não pagas, das trabalhadoras sexuais e migrantes”.

Aqui fica o manifesto. E que ajude à reflexão sobre a importância de se avançar com a greve internacional das mulheres no dia 8 de Março, mas principalmente com a emancipação das mulheres e de todos os oprimidos. Não numa perspectiva isolada, mas de interligação entre todas as lutas. Este é um apelo ao combate nas ruas e nos locais de trabalho contra a resignação.

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No ano passado, no 8 de Março, nós, mulheres de todos os tipos, marchámos, parámos de trabalhar e tomámos as ruas em cinquenta países em todo o mundo. Nos Estados Unidos, manifestámos, marchámos, deixámos as louças para os homens em todas as grandes cidades deste país e em incontáveis cidades menores. Interrompemos o funcionamento de três distritos escolares para provar ao mundo, mais uma vez, que enquanto sustentarmos a sociedade também teremos o Poder de fechá-la.

8 de março está a chegar novamente e as coisas pioraram para as mulheres deste país.

Num ano de administração Trump, não fomos apenas atacadas com abusos verbais e ameaças misóginas sob o disfarce de declarações oficiais. O regime Trump colocou em prática políticas que continuarão estes ataques contra nós de formas profundamente institucionais.

As reformas fiscais e do trabalho (Tax Cuts e Job Acts) destroem as isenções que beneficiam trabalhadores de salários mais baixos, cuja vasta maioria é composta por mulheres. Há planos para destruir o Medicaid e o Medicare, os dois únicos programas que restam neste cruel cenário neoliberal que protegem os idosos e os pobres, os doentes e os deficientes, o planeamento familiar e as crianças – e, portanto, as mulheres, as quais fazem a maior parte do trabalho de cuidados. Enquanto as reformas negam assistência médica para crianças imigrantes, introduz poupança universitária para “crianças não nascidas” [nascituros], uma maneira arrepiante de estabelecer por decreto legal “direitos” às “crianças não nascidas”, assaltando, desse modo, o nosso direito fundamental de tomar decisões sobre o nosso próprio corpo.

Mas esta não é a história por inteiro.

Com todas estas frentes de guerra abertas contra nós, não nos acovardamos. Retribuímos com luta.

Quando, no Outono passado, mulheres com visibilidade pública e acesso aos meios de comunicação social internacionais decidiram romper o silêncio sobre assédio e violência sexual, as comportas foram finalmente abertas e uma torrente de denúncias públicas inundaram a rede.

As campanhas #MeToo, #UsToo e #TimesUp tornaram visível aquilo que a maioria das mulheres já sabia: seja no ambiente de trabalho ou em casa, nas ruas ou nos campos, em prisões ou em centros de detenção do ICE [Immigration and Customs Enforcement], a violência de género com os seus diferentes impactos racistas assombram a vida quotidiana das mulheres.

O que também se tornou claro é que o silêncio público sobre algo que sempre soubemos, suportamos e lutamos contra não existe apenas por termos medo ou vergonha de falar: o silêncio é forçado. O silêncio é imposto pelas leis do Congresso que fazem as mulheres passar quase um ano em aconselhamento obrigatório e mediação se ousarem avançar com uma queixa oficial. É afectado pelo sistema de justiça criminal que rotineiramente rejeita relatos de mulheres usando camadas adicionais de intimidação e violência. Em campos universitários, administradores dispostos encontram meios “legais” inteligentes para protegerem a instituição e o criminoso, enquanto atiram as mulheres aos lobos. Os fundamentos racistas desses procedimentos legais exigem uma resposta.

#MeToo, #UsToo e #TimesUp não expuseram apenas violadores individuais e misóginos, mas rasgaram também o véu que escondia as instituições e estruturas que os autorizavam.

A violência de género baseada em raça é internacional, como deve ser a campanha contra ela. O imperialismo norte-americano, o militarismo e o colonialismo fomentam misoginia em todo o mundo. Não é uma coincidência que Harvey Weinstein, nos seus longos anos em que tentava silenciar e aterrorizar mulheres, usou a empresa de segurança Black Cube, feita de ex-agentes do Mossad e de outras agências de inteligência de Israel. Sabemos que o mesmo Estado que envia dinheiro a Israel para brutalizar a palestina Ahed Tamimi e a sua família também financia as prisões em que mulheres afro-americanas, como Sandra Bland e outras, morreram.

Então, a 8 de Março entraremos em greve contra a violência de género – contra os homens que cometem violência e contra o sistema que os protege.

Acreditamos que não foi nenhum acidente terem sido as nossas irmãs com posição social destacada quem primeiro tornou visível aquilo que todas sabíamos. A capacidade delas para isso foi mais forte do que a das nossas irmãs de salários mais baixos, tantas vezes de cor, que limpam quartos naquele chique hotel de Chicago ou das nossas irmãs que colhem frutas nos campos da Califórnia.

A vasta maioria de nós não se manifesta porque nos falta Poder colectivo no nosso ambiente de trabalho, e porque nos são negados apoios sociais, como assistência médica gratuita, fora dele. O trabalho, com os seus salários baixos, com os seus gerentes assediadores e seus chefes abusivos, com as suas longas horas, torna-se a única coisa que tememos perder, porque é a única forma de dar de comer às nossas famílias e cuidados aos nossos doentes e enfermos.

Nós não nos calamos. Somos forçadas pelo capitalismo a calar-nos.

Então, a 8 de Março falaremos, pessoalmente, contra os abusadores individuais que tentaram arruinar as nossas vidas, e falaremos, colectivamente, contra a insegurança económica que nos impede de falar.

Entraremos em greve porque queremos expor os nossos abusadores pessoais. E entraremos em greve porque precisamos de programas de bem-estar social e trabalhos com salários dignos para alimentar as nossas famílias, bem como do direito de nos sindicalizarmos, caso formos demitidas por nos manifestarmos contra os seus abusos.

Então, a 8 de Março entraremos em greve contra o encarceramento em massa, a violência da polícia e as patrulhas de fronteira, contra a supremacia branca e o rufar dos tambores das guerras imperialistas norte-americanas, contra a pobreza e a violência estrutural mascarada que encerra as nossas escolas e hospitais, envenena a nossa água e comida e que nos nega justiça reprodutiva.

E entraremos em greve por direitos do trabalho, direitos iguais para todos os imigrantes, igualdade salarial e salário digno, porque a violência sexual no ambiente de trabalho é permitida quando nos faltam meios de defesa colectiva.

8 de Março será o dia do feminismo para os 99%: um dia de mobilização de mulheres negras e marrons, cis e bi, trabalhadoras lésbicas e trans, das pobres e de salários baixos, das cuidadoras não pagas, das trabalhadoras sexuais e migrantes.

A 8 de março, #EntramosEmGreve.

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