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Antifascistas, além do preto e das máscaras | Praxis Magazine

Quando nos referimos à ascensão do fascismo na Europa quase que imediatamente nos vêm à cabeça Grécia, França, Ucrânia, Holanda e Estados Unidos. Raramente nos ocorre a Suécia, país onde, depois da II Guerra Mundial, a social-democracia se consolidou e construiu um Estado Social forte.

A última vez que o país recebeu a atenção do resto do mundo foi quando Donald Trump, então candidato à presidência dos Estados Unidos, disse num comício que tinha havido um ataque terrorista na Suécia para justificar as suas políticas anti-imigração. Trump tinha mesmo razão: houve mesmo um ataque terrorista na Suécia, mas contra refugiados. Três neonazis atacaram com uma bomba artesanal um centro de refugiados em Gutemburgo, resultando num ferido grave. Atentados terroristas que a cada dia que passa se tornam mais comum, mas ainda assim pouco referidos entre os media mainstream.

Nos últimos anos, também a Suécia foi alvo de uma ofensiva neoliberal em que o principal objectivo era enfraquecer o Estado Social com cortes fiscais para as empresas e privatizações, criando novos mercados com a Saúde e Educação. A direita neoliberal conseguiu colocar trabalhadores desempregados contra empregados. O modelo social do país vive hoje uma crise estrutural.

Formado em 1988 como organização que juntou ultra-nacionalistas e seitas fascistas, os Democratas Suecos emergiram subitamente na cena política sueca ao entrarem para o parlamento em 2006. Desde daí que o seu discurso político se tem focado quase exclusivamente na questão da imigração e nos alegados “riscos” que acarreta para a sociedade. Conseguiu colocar trabalhadores nacionais contra estrangeiros.

O partido conseguiu catapultar-se ainda mais para a ribalta – e alargar a sua base social de apoio – com a chegada de refugiados ao país. Desde 2009 que todos os anos chegam, em média, 100 mil refugiados ao país, sendo que em 2015 esse número aumentou para os 170 mil.

Relacionando a imigração com o aumento da criminalidade violenta no país, o DS conseguiu, com o seu discurso populista xenófobo, criar um sentimento de medo relativamente aos refugiados e imigrantes. Ao mesmo tempo, propagou a ideia de que seriam uma ameaça à identidade nacional dos suecos, onde há comunidades com mais de 90% de pessoas caucasianas. Agora, ocupa 20% dos lugares no parlamento e pressiona os partidos do “centro” na direcção de políticas xenófobas e anti-imigração. O país é um farol para os movimentos de extrema-direita tanto do outro lado do Atlântico como para o de cá; um laboratório para os movimentos de extrema-direita noutros países. Resta saber se o movimento antifascista também o é.

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Sempre que os fascistas avançam pelas ruas, determinados a triunfarem independentemente dos métodos empregues, e os antifascistas os confrontam, há sempre quem questione o uso da violência pelos antifascistas, mesmo quando o é em legítima defesa. Os argumentos vão desde a moral até à estratégia: “Não podemos ser iguais aos fascistas”; “Não convém porque seremos derrotados”; “Confrontá-los é dar-lhes a importância que não têm”.

O uso da violência tem sempre uma vertente de moral e de legitimidade, mas o que interessa, no que aos fascistas concerne, é que a moral deles é completamente distinta da nossa. Não têm qualquer pudor em utilizar a violência de forma indiscriminada como meio político privilegiado para conquistarem terreno e suprimirem as vozes divergentes. Na maioria dos casos, são sempre os fascistas a atirarem a primeira pedra, e não o contrário. Depende do campo antifascista escolher se prefere ser um sujeito independente, com formas de se auto-proteger se tal for necessário, ou um sujeito dependente da boa vontade e não violência do outro campo. Na luta de classes nunca se pode ficar refém do outro lado. Uma lição que tem, ao longo do tempo, custado a aprender.

Em muitos países, principalmente naqueles onde o fascismo não se assumiu até ao momento como uma força significativa nas ruas, o debate sobre o uso da violência contra os fascistas ainda se cinge aos seus aspectos morais, apregoando-se também um pacifismo desmesurado. Em 1934, Leon Trotsky escreveu que “nada é tão perigoso para o proletariado como o veneno dos fascistas do que o ‘pacifismo’ mole da parte das organizações operárias”. A ideia chave mantém-se actual. Para o revolucionário, o risco do pacifismo não deve ser descurado: “nada destrói tanto a confiança das classes médias [as quais é necessário conquistar para o socialismo] na classe operária como a contemporização, a passividade e a falta de vontade de lutar”.

Em Portugal, ainda é esse o caso: ou se desvaloriza qualquer acção organizada de fascistas ou se recusa, independentemente do contexto e das forças em confronto, qualquer acto de violência, mesmo que seja em autodefesa. Em parte, o debate encontra-se ainda num estágio pouco avançado pela falta de necessidade em aprofundá-lo entre a esquerda anticapitalista. Até ser tarde demais, principalmente quando se está a ocorrer mesmo sob os nossos olhos uma reorganização da extrema-direita direita com a Nova Portugalidade e Nova Ordem Social, do Mário Machado.

Nos Estados Unidos, porém, a situação parece ter-se alterado com o brutal ataque em Charlottesville, onde um supremacista branco dirigiu um carro contra uma multidão de manifestantes antiracistas, matando uma manifestante. No rescaldo do embate em Charlottesville, Noam Chomsky, um dos mais reputados intelectuais da esquerda norte-americana, afirmou que o movimento antifascista é “a maior prenda para a direita” e que “quando um confronto passa para a arena da violência é o mais forte e brutal que ganha – e sabemos quem é”. Uma posição que não acrescenta qualquer alternativa ao avanço violento nas ruas pela extrema-direita e que não tem em conta qualquer relação de forças entre os dois campos em disputa. Um exemplo concreto da afirmação de Trotsky. Também sabemos hoje que se não fossem os antifascistas, os manifestantes antiracistas teriam sido brutalmente agredidos em Charlottesville, com a polícia impávida e serena a assistir à distância.

No final de contas, a verdade é que os antifascistas têm preenchido um completo vazio à esquerda na luta contra a extrema-direita. Têm estado na linha da frente no combate. Se não fossem eles e elas, os fascistas avançariam pelas ruas sem qualquer oposição, ganhando cada vez mais confiança e força. Uma vez conquistadas, seria difícil reconquistar-lhes as ruas – e a história prova-o demasiadas vezes para nos esquecermos dela.

Ainda assim, seria um erro sobreestimar a capacidade do movimento antifascista na totalidade do combate contra os fascistas. Por ser um movimento inorgânico, na maioria das vezes uma frente comum de organizações,  apenas consegue limitar e condicionar temporariamente a extrema-direita e não fazer-lhe frente na sua totalidade. Não conseguem dar uma resposta alternativa ao fascismo. Para isso, é necessário um programa político e forças políticas que respondam às necessidades e preocupações da classe trabalhadora, contrapondo a necessidade do socialismo ao nacional-socialismo, conquistando também as classes intermédias para o primeiro. Com os partidos de esquerda com assentos parlamentares focados no combate político nas instituições do Estado com uma política mediatista e eleitoralista, as ruas são relevadas para um segundo e terceiro planos. Entretanto, vão sendo disputadas num conflito cada vez mais latente.

Com Charlottesville, os antifascistas ficaram por momentos na ribalta. Toda a gente sabia algo sobre o movimento, e as suas imagens, com indivíduos mascarados e vestidos de preto, prontos para a acção violenta contra os fascistas, semeou tanto o respeito como o medo. Criado na década de 30 na Alemanha,os antifascistas têm uma longa história de oposição ao fascismo, mas ainda assim o mistério em torno do movimento persiste. Quem são? O que é o antifascismo? Que papel desempenham? O documentário  “Antifascists”, de Março de 2017, tenta responder a estas duas questões basilares ao abordar esse outro lado desconhecido, revelando o lado humano e ideológico dos antifascistas. Os seus receios, as suas motivações, que mundo alternativo querem construir. Um lado humano para além das máscaras, dos capacetes de mota, das roupas de preto e da alegada violência “pura e dura”, em que qualquer pessoa pode ser antifascista. É a violência a única resposta possível ao avanço dos fascistas? A resistência não-violenta pode ser uma alternativa? Estas são algumas das perguntas a que os realizadores tentaram dar resposta ao se debruçarem sobre a Grécia e Suécia, utilizando situações concretas e testemunhos.

“Os políticos dizem-nos que o que aconteceu na Alemanha Nazi nunca mais deveria acontecer. Entretanto, o movimento fascista está a reorganizar-se em frente aos nossos olhos”. É assim que o “Antifascists” começa: com um alerta. Um alerta preocupante que nos incentiva a ver o documentário.

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