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Ser caixa de supermercado | João Barata Rodrigues

“Uma manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Sansa viu-se transformado num gigantesco insecto”. Sou caixa de supermercado. Não cito Kafka por demonstração de uma qualquer erudição, mas sim porque é uma passagem que, recorrentemente, me cruza o pensamento a caminho do trabalho.

Tenho vários colegas; cerca de trezentos. De várias áreas. Todos sofremos do mesmo. De salários baixos. De horários rotativos que impossibilitam uma vida fora do emprego totalmente estável. De uma enorme pressão orientada para um lucro que nunca chegamos a ver. Somos os rostos do retalho, mas também a sua mão invisível.

Um dos estandartes da empresa, dizem-nos no primeiro dia de serviço/formação, é confiança empregado-empregador. No entanto, todos os dias ao chegar, depois de obrigatoriamente mudar de roupa nos pequenos balneários que albergam toda uma classe trabalhadora, entro num processo de catábase em que todos os meus passos são monitorizados. Para aceder ao cofre preciso de atravessar várias paredes recheadas de frases de auto-ajuda em que cada uma tem o emblema da companhia: “Os colaboradores desta empresa são os mais felizes”, ”Deixe que o seu sucesso fale por si”, ”Sonhe mais alto”. São necessárias duas autorizações às quais, como trabalhador a tempo incerto, não tenho direito. Tenho de olhar para uma câmara de vídeo duas vezes e duas vezes identificar-me. A este conjunto de práticas quasi-orwellianas junta-se a parede de objectivos, que se encontra no local em que se guarda o dinheiro que utilizaremos para a nossa caixa de trocos. Nela, ao lado de várias indicações relativas à importância da não existência de “quebras”, para melhor funcionamento da loja, uma cor fluorescente que nos obrigada a olhar fixamente num misto de estigmatismo e hipnotismo competitivo, estão os nomes dos trabalhadores que não cumpriram os objectivos da semana. Estes estão divididos em várias equipas; uma para cada supervisor. Cada nome sublinhado a cor fluorescente tem um comentário tão ou mais vistoso. Em papel de parede somos enxovalhados pelos nossos falhanços e raramente somos compensados pelo esforço imenso ao qual estamos sujeitos. Passar vinte e cinco artigos por minuto, uma média de um cliente por minuto; fazer divulgação de serviços, (seja este a propaganda ao crédito disponibilizado pela loja ou algumas das campanhas de aparente solidariedade das quais nunca temos a certeza da veracidade), manter a nossa caixa limpa; quando necessário fazer arrumações por todo o espaço comercial e ainda propor cinco sugestões mensais para maior rentabilização monetária da loja. Tudo isso por um salário que, para muitos, não chega aos quatrocentos euros.

A maioria das pessoas com quem trabalho são mulheres entre os quarenta e cinquenta anos. Muitas, principalmente as mais velhas, nunca trabalharam noutra área para além do retalho. Vítimas da época em que nasceram, em que a grande maioria foi trabalhar ainda a começar a adolescência, nunca tiveram a oportunidade para sonhar com uma vida diferente. Desde daí, a sua qualidade de vida não subiu. Outras tinham carreiras diferentes. Porém, com a entrada da Troika em 2011, muitos destas mulheres ou foram despedidas dos seus empregos anteriores ou tiveram de fechar os seus negócios. Sujeitas a sucumbir à fome, aceitaram este emprego porque, com a idade que tinham/têm era quase impossível conseguirem um emprego como aquele que tinham acabado de perder.

Segundo dados retirados da Pordata, o ordenado médio de um indivíduo que trabalhe na área do retalho é de cerca novecentos euros. No entanto, ao considerar esta estatística no feminino esse valor baixa cerca de cem euros, ficando-se nos oitocentos euros. Já num artigo divulgado pela revista Visão, é referido que o ordenado de um operador de caixa no topo de carreira chega, apenas, aos seiscentos e vinte euros.

Então, na altamente estrutura hierarquizada do conjunto de serviços que, ao todo, fazem o negócio do retalho, estas pessoas, nas quais me incluo, são a mó de baixo da pirâmide. Toda a responsabilidade recai, tal atlas, sobre os ombros destes trabalhadores que, em vez de segurarem a terra, carregam carrinhos e carrinhos de compras. Tristemente, desse esforço apenas colhemos sal para as feridas. As principais receitas são distribuídas, não por nós, os trabalhadores, mas sim por uma classe superior de burocratas ao qual o único acesso à realidade por nós vivida parte das várias queixas que fazemos ao longo da vida. Queixas que, porém, muitas vezes são ignoradas, abafadas e até condenadas. No local em que trabalho, muitos são os exemplos desta política despótica praticada pelos cargos superiores. Devido ao elevado esforço físico inerente à profissão – como carregar vários artigos, num curto espaço de tempo, com peso superior a quinze quilos; várias horas de serviço sem acesso a uma pausa, que, quando chega, não passa dos quinze minutos – imensas são as colegas, principalmente as mais velhas, que sofrem de problemas de coluna. Quando, inevitavelmente, essas dores não possibilitam chegar aos desumanos objectivos colocados, os queixosos são recolocados em vários postos de trabalho. No entanto, a aparente benesse é, na realidade, um presente envenenado por parte dos cargos de chefia. Os novos cargos são, muitas vezes, de um ainda maior esforço físico, onde, também, é necessária uma aprendizagem específica, não fornecida nestes casos. Por exemplo, postos de trabalho nas secções de peixaria, fruta ou talho. Não obstante, a grande maioria é recolocada a fazer arrumações ou em trabalho de armazém, em que a robustez física é um critério essencial para o bom aproveitamento das funções.

Presas à idade, não conseguem encontrar um emprego em que as condições sejam dignas. Com as dores crónicas, sejam elas mentais ou físicas, preferem não dizer nada, para evitar os vários métodos coercivos que as chefias aplicam. Sabem que têm o ordenado certo, sem falta, no final do mês, e, como se sofressem de um estranho caso de síndrome de Estocolmo, elogiam a empresa por esse facto. Ninguém fala alto da existência de um sindicato. Pelo que se diz, já nem existe um representante sindical na loja. O sistema está bem construído e parece impossível fugir.

Todos os meses temos reuniões de grupo. Na última, em Dezembro, foi-nos informado que a loja tinha feito três milhões de euros em lucro ao longo do ano, sem contar com esse último mês. Uns comemoraram, outros ficaram estáticos com a informação. Muitos pensaram na sua vida. Mas a verdade é que nem uns nem outros viram os seus salários aumentarem nem os seus direitos a serem respeitados.

As palavras de Belmiro de Azevedo, senhor todo-poderoso da Sonae e recentemente falecido, disse em tempos que “se não for mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém”. Frase que há muito caracteriza a indústria onde trabalho e de onde me quero pirar o mais rapidamente possível.

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