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Depressão e Ansiedade: esta sociedade anda a deixar-nos doentes | Inês Ribeiro Santos

Estive quase para não escrever este texto. A ideia de escrever um texto que seria publicado e partilhado deixa-me… ansiosa. Cada vez que é feito um desafio a uma pessoa com distúrbios de ansiedade e/ou depressão, ficamos divididos entre o entusiasmo de integrarmos um novo projecto e o medo irracional de falharmos, de tal forma a provocar a própria falha, por desistência ou outras formas de auto-boicote. No entanto, achei que se começasse precisamente por escrever esta pequena confissão, em modo de desabafo, mas também de forma a explicar como os distúrbios mentais afectam cada parte das nossas vidas, seria mais fácil escrever a partir daqui.

Faço parte da geração que cresceu a ouvir que ser adulto, apesar de ter alguns desafios, era relativamente fácil: completar os estudos, ter um canudo e, na chegada aos 30 anos, teríamos emprego estável, salário confortável, casa, carro, filhos. Foi esta a meta que nos impuseram e que acreditámos ser realista durante 20 anos das nossas vidas. Imaginem a nossa desilusão quando chegamos ao início dos nossos 20 anos e nos dizem que afinal não é bem assim, que existe uma crise financeira, que afinal não há lugar para todos, que todos devemos fazer sacrifícios.

Imaginem o nosso espanto quando terminamos a licenciatura e o que o mercado de trabalho tem para nos oferecer são estágios não remunerados, salários baixos, condições de trabalho precárias, sem vínculos laborais ou protecção.

Imaginem a nossa frustração quando as rendas de quartos (quartos, não casas!) estão praticamente ao nível do salário mínimo e nos vemos ainda presos em casa dos nossos pais, sem data prevista de saída.

Imaginem a nossa solidão quando, à nossa volta, existe uma tão grande percentagem de pessoas com distúrbios de depressão e ansiedade, diagnosticados ou não, que nos empurra para um ciclo de isolamento, culpabilização, fobia social, tornando ainda mais precária a nossa vida pessoal, mas também fragiliza a nossa capacidade de organização política e social.

Dados da saúde mental

Ao longo dos últimos anos, a neoliberalização económica, o enaltecimento da meritocracia, da competitividade exacerbada e selvagem e do empreendedorismo individual e individualista, como a solução possível aos problemas económicos globais e colectivos, têm provocado danos na saúde mental, principalmente nas camadas mais jovens da sociedade.

Nos últimos 40 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), houve um aumento de 60% na taxa de suicídio a nível mundial.

Em Portugal, os casos de perturbações mentais têm vindo a aumentar desde 2011, ano de entrada da Troika, do aumento das medidas de austeridade, existindo um aumento nos pedidos de consulta bem como da venda de anti-depressivos, anti-psicóticos e ansiolíticos. Em 2015, os dados publicados pela Direcção-Geral de Saúde indicam que, a nível europeu, Portugal tem uma maior percentagem de perturbações mentais, sendo o segundo país com maior percentagem de casos registados, sendo o primeiro lugar ocupado pela República da Irlanda. Uma notícia recente dá conta que 1/3 da população em Portugal sofre de alguma perturbação mental.

Como chegámos aqui?

Chegámos aqui devagar e sozinhos. Devagar porque a ideia de que a sociedade não existe, que somos apenas indivíduos em permanente competição e guerra, foi sendo construída e incentivada ao longo de vários anos, e sozinhos porque essa ideia resultou. Chegámos aqui a dizerem-nos que é com o nosso esforço e dedicação, sozinhos mas cheios de valor, que vingaremos no mundo e que apenas de nós depende o nosso futuro.

Chegámos aqui com um modelo de ensino que nos coloca acríticos, que até incentiva o espírito e trabalho de equipa mas que nos diz, em surdina, que o nosso colega pode tirar o nosso futuro posto de trabalho e portanto devemos “derrota-lo”.

Chegámos aqui construindo um altar ao individualismo, deixando-nos mais egoístas, menos empáticos e, sem nos apercebermos, mais fracos.

Na verdade, o esquema até está (demasiado) bem montado: a competitividade exacerbada empurra cada pessoa para o individualismo, perdendo redes comunitárias de apoio e organização e, quando a sociedade falha como um todo, cada indivíduo pensa que a culpa é sua, pois toda a sociedade nos diz, até nós próprios, principalmente pessoas com distúrbios mentais, que, se não conseguimos, a culpa é nossa. Se não conseguimos é porque não somos bons o suficiente, porque até nas alturas de maior crise, os “bons” vingam sempre e os que não conseguem são medíocres e hipócritas que acusam o estado social e económico para se desculpabilizarem da sua incompetência e falta de mérito. E mesmo que, politica e racionalmente, consigamos desconstruir estes argumentos, os mesmos vão conseguindo transformar a ideia que temos de nós próprios e dos outros e afecta, inevitavelmente, a nossa saúde mental.

Chegámos aqui através do medo que gera mais medo. O patronato, não indiferente a estas mudanças, aproveita-se das mesmas: desce salários porque estamos em crise, exige o dobro do esforço porque “os bons, os que vestem a camisola, serão recompensados”, desvaloriza o trabalho dos seus trabalhadores, assediando-os moralmente, numa base diária, para lhes ser mais fácil diminuir as condições de trabalho e, ainda assim, fazer com que cada trabalhador pense que a culpa é sua e/ou ceda com medo de perder o posto de trabalho, por mais precário que seja. Caso o trabalhador entre em estado de esgotamento, poderá ser facilmente substituído por qualquer outra pessoa desesperada por mostrar o seu valor, sem que nunca venha a ser valorizada.

Chegámos aqui porque em vez de este ser um debate público e ser tratado com o flagelo de saúde pública que é, é escondido, falado com vergonha, até porque a culpa… é nossa.

É necessário um debate urgente sobre as questões de saúde mental bem como uma melhoria dos serviços de saúde pública em resposta a todas as pessoas que sofrem de depressão, ansiedade e outras perturbações psíquicas. São necessárias medidas e políticas públicas na saúde que não empurrem os utentes para o acompanhamento privado (extremamente dispendioso e que poucas pessoas poderão aceder) ou para a prescrição medicamentosa sem acompanhamento regular que permita tratar as doenças e não apenas os sintomas. E por fim, é necessário reverter o individualismo e mudar, de fundo, a forma de organização da sociedade neoliberal que nos empurrou para este estado, literalmente, depressivo.

A todas pessoas que lerem este texto e que sofrem ou sofreram com algum distúrbio mental, desde a depressão e ansiedade e até ao abuso de substâncias, gostava só deixar uma mensagem: não estão sozinhas. Não estamos sozinhas. Cada dia é uma luta e todos os dias são uma vitória. Celebrem-na, merecem-no.

One comment

  1. Dou total é absoluta razão ao escrito.Somos de novo escravos as grilhetas são outras.Sistema financeiro e político.No geral ladrões e sem moral ou ética.Uma xoldra

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