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O que é o Socialismo | Benjamin Tucker

Introdução e tradução de Francisco Pacheco

Nos Estados Unidos do final do século XIX, com a marcha da industrialização a todo o vapor, expandia-se a nova classe de trabalhadores assalariados explorada pela classe capitalista, num clima favorável à radicalização e à agitação das massas. Diferentes concepções sobre o programa do socialismo disputavam o imaginário do jovem movimento operário, desde a nacionalização da economia de Bellamy, à abolição da escravatura assalariada e democratização da indústria dos Knights of Labour ou o laissez-faire radical dos anarquistas socialistas. Neste texto, publicado originalmente em 1884 no seu jornal Liberty, Benjamin Tucker – propagandista inspirado por Marx, Proudhon e Josiah Warren – defende esta última ideia da Revolução.

Hoje o Socialismo ainda é uma palavra feia. Quase trinta anos depois da queda do muro de Berlim e do fim da União Soviética, significa para tantos a burocratização da sociedade, a planificação e alargamento do Estado a todos os sectores da economia, a subordinação do indivíduo ao colectivo. Muitos dos próprios militantes da esquerda radical, vivendo e observando a injustiça social que os rodeia e sentindo a necessidade de adoptar alternativas radicais, acabam por aceitar esta ideia e a fazer o jogo no tabuleiro que os neoliberais nos impuseram. Um jogo em que a distinção esquerda/direita é a da luta por mais Estado ou mais mercado.

Na análise marxista, no entanto, o grande problema do capitalismo na base das crises cíclicas que se repetem e aprofundam, não é o mercado per si – a troca de mercadorias pelo meio intermediário do dinheiro – mas a exploração, ou seja, a extracção pela classe capitalista de uma parte do valor – a mais-valia – criado pelos trabalhadores por via do lucro, da renda ou do juro – trabalho não pago.

A exploração, que permite a acumulação de capital e, consequentemente, a concentração da riqueza, é tornada possível pelas formas de propriedade sancionadas precisamente pelo Estado (burguês). Este concentra em si o monopólio da força legítima para as impor. Marx, vago na descrição da sociedade do pós-Revolução, defendia (ou previa) a tomada do Estado pelo proletariado com a criação de uma nova ordem institucional que acabasse a exploração do ser humano pelo ser humano com o direito do trabalhador aos frutos do seu trabalho. Que ordem seria essa? Nunca tornou muito claro.

Contudo, para Benjamin Tucker a solução era evidente: o socialismo é a abolição do Estado e, com ele, o fim dos monopólios e privilégios que permitem o roubo legalizado aos trabalhadores. Se podemos acusar Tucker de idealismo por considerar possível a destruição da máquina estatal sem o fim da escassez – sem se avançar para o comunismo, enfim – o facto é que se o seu trabalho não tivesse mais valor em outra questão alguma, é importante por isto: porque coloca em causa a noção absurda, mas hegemónica no nosso tempo, de que o capitalismo é individualismo, liberdade e o livre mercado e o socialismo o colectivismo e o absolutismo sufocante do Estado. O sentido da Revolução continua em aberto. Ainda hoje.

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“Gosta da palavra Socialismo?”, disse-me uma senhora noutro dia. Temo que eu não, de alguma forma encolho quando a ouço. Está associada a tanto que é mau! Devemos nós conservá-la?

A senhora que me fez esta questão é uma anarquista séria, uma amiga firme da Liberdade, e – é quase supérfluo acrescentar – altamente inteligente. As suas palavras dão voz ao sentimento de muitos. Mas afinal é só um sentimento e não passará ao teste da razão. Sim, respondi, é uma palavra gloriosa, muito abusada, violentamente distorcida, estupidamente incompreendida, mas expressando melhor do que qualquer outra o propósito do progresso politico e económico, o objectivo da Revolução neste século, o reconhecimento da grande verdade de que a Liberdade e a Igualdade, através da lei da Solidariedade, irá fazer o bem-estar de cada um contribuir para o bem-estar de todos. Tão boa palavra não pode ser poupada, não pode ser sacrificada, não será roubada.

Como pode ser salva? Apenas levantando-a para fora da confusão que a obscurece, para que todos a possam ver claramente e definitivamente, e aquilo que significa fundamentalmente. Alguns escritores tornam o Socialismo inclusivo de todos os esforços para melhorar as condições sociais. O Proudhon é suposto ter dito algo do género. Como quer que seja, a definição parece demasiado ampla. Etimologicamente não é injustificável mas derivativamente, a palavra tem um significado mais técnico e definido.

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Benjamin Tucker

Hoje (perdoem o paradoxo!) a sociedade é fundamentalmente antissocial. Todo o pseudo tecido social reside no privilégio e no poder, e é desordenado e esticado em todas as direcções pelas desigualdades que resultam necessariamente daí. O bem-estar de cada, em vez de contribuir para o de todos, como naturalmente deveria e faria, quase invariavelmente o prejudica. A Riqueza é tornada, por privilégio legal, num anzol com o qual se rouba dos bolsos do trabalho. Todo o homem que fica rico desse modo faz o seu vizinho pobre. Quanto melhor um está, pior estão os restantes. Como diz Ruskin, todo o grão calculado de Incremento para o rico é balançado por um Decremento matematicamente equivalente para o pobre. O Deficit do Trabalhador é precisamente igual ao Efficit do Capitalista.

Agora, o Socialismo quer mudar isto tudo. O Socialismo diz que o que é a carne de um homem não pode mais ser o veneno doutro; que nenhum homem será capaz de aumentar a sua riqueza senão pelo trabalho; que aumentando a sua riqueza pelo trabalho apenas, nenhum homem faz outro homem mais pobre; que ao contrário todo o homem aumentando assim a sua riqueza faz todos os outros homens mais ricos; que um aumento e uma concentração da riqueza pelo trabalho tende a aumentar, embaratecer e diversificar a produção; que todo o aumento de capital nas mãos do trabalhador tende, na ausência de monopólio legal, a pôr mais produtos, melhores produtos, produtos mais baratos e uma grande variedade de produtos no alcance de todo aquele que trabalha; e que este facto significa o aperfeiçoamento físico, mental e moral da humanidade e a realização da fraternidade humana. Não é isso glorioso? Será uma palavra que significa tudo isso posta de lado simplesmente porque alguns a tentaram casar com a autoridade? De jeito nenhum. O homem que subscreve isso, o quer que pense que é ou o quer que se chame a si mesmo, por muito implacavelmente que ataque a coisa que confunde com o Socialismo, é ele próprio um Socialista, e o homem que subscreve o oposto e age de acordo com o oposto, por muito benevolente que possa ser, por muito devoto que possa ser, qualquer que seja o seu lugar na sociedade, a sua posição na Igreja, a sua posição no Estado, não é um Socialista mas um Ladrão. Porque no fundo há apenas duas classes – os Socialistas e os Ladrões. Socialismo, praticamente, é guerra contra a usura em todas as suas formas, o grande Movimento Anti-Roubo do século dezanove e os Socialistas são as únicas pessoas às quais os pregadores da moralidade não têm direito ou oportunidade para citar o oitavo mandamento, Não roubarás! Esse mandamento é a bandeira do Socialismo. Só que não como mandamento mas lei da natureza. O Socialismo não ordena, profetiza. Não diz: Não roubarás! Diz: Quando todos os homens tiverem Liberdade, não roubarão.

Porque, então, a minha senhora questionadora contrai-se quando ouve a palavra Socialismo? Dir-lhe-ei. Porque um grande número de pessoas, que vêem os males da usura e estão desejosos de os destruir, imaginam tolamente que o podem fazer pela autoridade e consequentemente estão a tentar abolir o privilégio centrando toda a produção e actividade no Estado para a destruição da competição e as suas virtudes, para degradação do individuo e putrefacção da Sociedade. São pessoas bem-intencionadas mas equivocadas e os seus esforços condenados a se demonstrarem abortivos. A sua influência é perniciosa neste sentido: que um grande número de outras pessoas, que não tendo ainda visto os males da usura e não sabem que a Liberdade os destruirá, mas, não obstante, acreditam fervorosamente na Liberdade pelo amor à Liberdade, são levados a confundir com todo o Socialismo este empreendimento para fazer do Estado a totalidade e finalidade da sociedade e, horrorizados com razão, a sujeitá-lo como tal ao merecido desprezo da humanidade. Mas as críticas muito razoáveis e justas dos individualistas deste tipo ao Socialismo de Estado, quando analisados, revelam ser direccionados não contra o Socialismo mas contra o Estado. Até agora a Liberdade está com eles. Mas a Liberdade insiste, ainda assim, no Socialismo – no verdadeiro Socialismo, o Socialismo Anarquista: a prevalência na Terra da Liberdade, Igualdade e Solidariedade. Disso a minha senhora questionadora nunca se irá encolher.

 

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