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Unir as lutas | Bárbara Góis

O ano de 2017 foi um ano de brutais ataques a direitos conquistados ditos inalienáveis. Vimos uma onda mundial e avassaladora de conservadorismo a avançar sobre as nossas vidas com a eleição de Donald Trump (Estados Unidos), o golpe de Temer (Brasil), as investidas de Mauricio Macri (Argentina) e até com a ascensão da controversa líder de extrema-direita alemã do AfD, Alice Weidel, que conquistou 94 lugares no parlamento federal alemão. Mas se é verdade que os períodos de crise do capitalismo lançam sobre os trabalhadores os nossos piores pesadelos, como despedimentos em massa, desemprego e aumento de precariedade, também é verdade que muitas mulheres começam a entender que estas são falhas e incapacidades estruturais deste sistema, e não pontuais.

O ano que agora terminou foi também ímpar no que toca ao surgimento de colectivos com bandeiras identitárias como eixo político central, trouxe-nos levantes anti-racistas e uma paralisação internacional de mulheres/ paro internacional de mujeres/ internacional women’s strike. Inspiradas principalmente na luta das mulheres polacas contra a criminalização do aborto e no movimento contra violência de género “Ni una menos”, que teve origem na Argentina, mas fazendo a ponte com acontecimentos locais, mulheres de mais de 50 países romperam o silêncio e trouxeram para a rua problemáticas como assédio, violência de género e disparidade de remuneração entre sexos. Vimos também ressurgir neste movimento uma contestação ao trabalho doméstico como trabalho feminino.

Em Portugal, o que deu força para haver continuidade na mobilização de mulheres, para além do panorama internacional, foi também o aparecimento de alguns casos mediáticos de violência doméstica, como a absolvição de Manuel Maria Carrilho no processo judicial lançado por Bárbara Guimarães e o acórdão do Juiz Netto Moura, que citou um excerto da bíblia a fim de acusar uma vítima de violência doméstica de adultério. Afirmou que isso seria um motivo válido para o agressor ver a pena atenuada. O movimento feminista em Portugal reagiu a estas duas evidentes demonstrações de machismo na nossa sociedade, na manifestação convocada pelo movimento Por todas Nós – no dia 27 de Outubro com o mote “Lisboa: Machismo NÃO é justiça, é crime”, e na marcha do dia 25 de Novembro – dinamizada pela Assembleia Feminista de Lisboa, pelo Por todas Nós, pela UMAR, pela Plataforma Portuguesa pelos direitos das Mulheres, entres outros colectivos e organizações – é um sinal claro de que existe espaço para novas acções e possibilidade de diálogo entre as várias organizações, e que existe disposição para lutar.

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O convite que trago a todas as organizações feministas é que venham connosco construir uma paralisação ainda mais forte e ainda maior. Que não os e as deixemos esquecer em momento algum que o espaço público também é nosso, que o nosso corpo é nosso, que os direitos conquistados por nós vão ser defendidos com igual veemência. Aos coletivos “não estritamente feministas” (se é que isso existe), deixo-vos o meu melhor argumento: qualquer um de nós só poderá alcançar vitórias plenas depois de tomarmos a consciência de que os vários movimentos dos quais fazemos parte não devem nem podem existir sem ligação à luta pela emancipação de toda a humanidade daquilo que é o sistema global de exploração capitalista que nos escraviza a todas e todos e contra o qual devemos unificar os nossos esforços. O repto que vos lanço de diálogo entre os vários sectores da sociedade é um de construção de um projeto que tem o seu horizonte para lá da meta de ampliação dos direitos democráticos, não desmerecendo a importância dos mesmos. Convidamos para uma discussão democrática, fraternal, construtiva e focada na acção unitária do maior número de mulheres e activistas aliadas e aliados na luta contra a opressao, vários colectivos actuantes hoje com distintas pautas.

Convidamos o Colectivo Cancela A Propina para este esforço, para que a greve internacional de mulheres seja também pelo fim do assédio na academia, mas também por maior investimento no ensino público. Convidamos o Sindicato de Estudantes PARA LUTAR pelo aumento e melhoria do sistema de creches nas universidades, mas também pela criação de um uma rede de residências universitárias decente.

Convidamos o STCC pelo fim do assédio moral que afecta um número absurdo de mulheres nos call-centers, mas também pela redução da carga horária para que possamos, pais e mães, criar os nossos filhos. Convidamos o Sindicato Nacional de Estivadores pelo exemplo de luta contra precariedade, mas também pela lição histórica de solidariedade de classe que o “há flores no cais” nos deu.

Convidamos o Por Todas Nós pelo fim da Cultura de estupro mas também pela criação de um sistema Nacional de creches. Convidamos os e as Jacobichas pela inclusão de informação sobre homossexualidade nas escolas, mas também porque a comunidade LGBTQI+ é uma comunidade hiper precarizada. Convidamos o TransMissão pela inclusão das reivindicações da comunidade transsexual nesta luta, como despatologização e visibilidade, mas também por ser uma comunidade que vive na iminência de pobreza extrema.

Convidamos a FEMAFRO pela necessidade de eliminar os desvios  colonialistas e egocêntricos do feminismo europeu, mas também pela luta contra os despejos nos subúrbios de Lisboa e pela noção de que são as negras e não-brancas  que ocupam os postos de trabalho mais mal remunerados.

Convidamos o SOS racismo, as RataDentata, o Comité de Solidariedade aos Povos do Curdistão, a UMAR, a CGTP, a Resistência Queer, os Pantera Rosa, a ILGA, Rede Ex Aequo, o Não te prives, a AMARCA, Afrolis, Solim, Agora Pensa e todas e todos os interessadas/os que lutam de Norte a Sul de Portugal.

Convidamo-vos a participarem reunião de preparação para o 8M com a Assembleia Feminista, que terá lugar no próximo dia 9 de Janeiro, às 19:30h, na Rua Maria, nº 15 (sede do STCC). Convidamo-vos para que possamos todas e todos juntos e juntas construir mais que um 8M forte este ano, começar um diálogo entre todos os sectores que lutam contra todos os tipos específicos de opressão, a fim de avançarmos na construção de um movimento unitário para resolver todos estes problemas que o capitalismo hoje não consegue resolver.

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