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Das origens da Grande Guerra às «Tréguas de Natal de 1914»: Quando as armas se silenciaram | Diogo Ferreira

Ao longo das últimas décadas do século XIX e dos primeiros anos de novecentos, a Europa da Belle Époque foi marcada por frágeis relações internacionais que tentaram pôr um ponto final num longo período de conflitos que culminara na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Otto von Bismarck (1815-1898) foi um dos principais responsáveis pela manutenção da paz no «velho continente» pela via de alianças político-diplomáticas que conservaram o equilíbrio de poder na sua matriz multilateral.[1] Entre estas é possível destacar a «Liga dos Três Imperadores» (1881), assinada entre o Império Russo, o Império Austro-Húngaro e o Império Alemão, a «Tríplice Aliança» (1882), assinada entre a Itália, a Alemanha e a Áustria-Hungria, o Tratado de Resseguro (1887) ou a «Entente do Mediterrâneo» (1887), que assegurava o status quo daquele mar.

Consciente das limitações, debilidades e dificuldades em manter esta paz, Bismarck terá dito: “One day the great European War will come out of some damned foolish thing in the Balkans[2]. Esta perceção da realidade foi grandemente reconhecida no quadro da Conferência de Berlim (1884-1885), que ainda que tenha tido como propósito primordial regular o colonialismo europeu em África, foi marcada por diversas clivagens quanto à forma de divisão do continente. Substituindo o «direito histórico da descoberta» pelo «direito da ocupação efetiva», países da periferia como Portugal acabaram largamente prejudicados, uma vez que se encontravam atrasados no seu processo de colonização.[3] O incidente diplomático, formalmente conhecido como «Mapa Cor-de-Rosa», foi uma clara demonstração de como as questões da divisão territorial não tinham ficado sanadas.[4] A intensificação do colonialismo abriu as portas ao alargamento do domínio cultural, político, económico, social e militar sobre os povos dominados, acentuando o conceito de Eric Hobsbawm: a Era dos Impérios.

Afastado da cena política após a sua demissão em 1890, a realpolitik bismarckiana acabou por ser lentamente substituída pela Weltpolitik («Política Mundial») do Kaiser Guilherme II, instaurada no final de 1897, fortemente apoiada por homens como o Almirante Tirpitz. O Império Alemão passou a assumir abertamente uma política imperialista e expansionista por considerar que não detinha um papel central em África, na Ásia e na Oceânia.  Receosos do poderio alemão, o Império Britânico e a França uniram-se para fundar a Entente Cordiale (1904), a quem se juntou, mais tarde, o Império Russo para formar a «Tríplice Entente» (1907).

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Soldados mortos na I Guerra Mundial

Esta alteração de visão de uma Europa de paz foi, também, proveniente de uma intensa concorrência capitalista entre britânicos, alemães e franceses que se fundamentava na necessidade de expandir mercados para abastecimento de matérias-primas e no escoamento de produtos em virtude de um diversificado e intenso processo de industrialização. O crescimento económico destas e de outras nações ao longo da segunda metade de oitocentos foi o resultado da conjugação do aumento do ritmo da internacionalização da economia mundial, provocado por um boom na rede de caminhos-de-ferro, por um maior tráfego comercial marítimo e pelo desenvolvimento de um capitalismo industrial e financeiro, amparado por inúmeras inovações tecnológicas, novas formas de energia e por um aumento da mão-de-obra disponível.[5]

Devemos agregar a esta conjuntura as velhas rivalidades militares europeias ainda presentes na memória coletiva de países como o de Marianne[6] ou a corrida ao armamento. Na primeira década do século XX observou-se um grande investimento na defesa e renovação dos meios bélicos terrestres e marítimos, principalmente na Alemanha e Grã-Bretanha, preludiando e prevendo um conflito de larga escala. Depois da grande concorrência naval entre estas duas nações, a necessidade de reequipar, modernizar e expandir os exércitos vernáculos foi incrementada à medida que o clima belicista foi aumentando, promovendo aquela que ficou conhecida como «paz armada». Os conflitos localizados que se foram sucedendo na última década do século XIX e nos primeiros 10 anos de novecentos, nomeadamente a II Guerra Anglo-Boer (1899-1902), a Guerra Russo-Japonesa (1905), a Guerra Italo-Otomana (1911-1913), a Guerra Greco-Turca (1897) e, principalmente, as Guerras Balcânicas (1912 e 1913) são exemplos claros do ambiente vivido, juntamente com a competição franco-alemã pelo protetorado de Marrocos.[7] Além disso, podemos exemplificar o espaço geográfico da Península Balcânica, constante ponto de pressão e atrito entre russos e austro-húngaros, que viu a Bósnia-Herzegovina ser anexada pelo Imperador Francisco José (1908) e a Bulgária a tornar-se independente do Império Otomano, sob a égide do monarca Fernando.[8]

Noutro âmbito, as assimetrias político-institucionais na Europa, ainda que não sejam apontadas como uma causa direta da deflagração do conflito, revelam um continente dividido entre Impérios com o poder altamente centralizado, inclusive com uma Rússia autocrática, Monarquias Constitucionais e Repúblicas. A lógica imperialista presente na Europa agregou um mosaico de povos que, sob o domínio de Estados autoritários e motivados pela onda nacionalista, demonstravam sentimentos patrióticos de forma exacerbada em canções, na imprensa ou em associações académicas. O desenvolvimento do pangermanismo, que proclamava a superioridade da raça alemã numa lógica de «Darwinismo Social», foi o caso emblemático mais violento. Só assim compreendemos como estas emoções proliferaram numa velha Europa conservadora onde o jovem Gavrilo Princip, membro da Mão Negra – organização que preconizava o pan-eslavismo da Grande Sérvia -, assassina a 28 de junho de 1914 o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Fernando. Rapidamente as alianças diplomáticas entraram em ação e a guerra oficialmente começava a 28 de julho. A 4 de agosto o SPD votou os créditos de guerra no Reichstag que o Kaiser Guilherme II desejava para avançar com para o conflito.

Após praticamente 5 meses de duros combates, provocando a morte a mais de 1 milhão de soldados, a noite da véspera de Natal de 1914 trouxe um momento de tréguas não oficial em diversos pontos da frente ocidental do conflito (Bélgica e parte do Norte de França). Tropas alemãs começaram a cantar a sua versão da Silent Night (Noite Feliz) que acabariam entoadas pelos soldados britânicos. Diversos são os diários que relatam a saída das trincheiras e o percorrer do caminho da «Terra de Ninguém» sem um único disparo, acabando por ocorrer a partilha de chocolate, tabaco ou schnapps, como se de presentes se tratassem. No dia seguinte, vários foram os amigáveis jogos de futebol que tiveram lugar. Por breves horas, homens que sofriam do mesmo modo os horrores da vida nas trincheiras, que combatiam forçados por políticas imperialistas e que se colocavam em risco diariamente, uniram-se num verdadeiro espírito de rebelião face a uma guerra que não lhes pertencia.[9]

Um conflito previsto exatamente para terminar no Natal de 1914 durou mais de quatro anos. A transversalidade dos impactos da Grande Guerra marcou todo o restante século XX sendo, em primeira instância, uma das causas da deflagração da II Guerra Mundial. Deste período nasceu a União Soviética, a primeira nação que preconizava os princípios marxistas, surgiu uma nova geografia política com a queda de todos os Impérios, a aplicabilidade da doutrina Monroe fragilizou-se temporariamente, regrediu o demoliberalismo em detrimento da emergência de autoritarismos de índole fascista e observou-se ao princípio do fim da hegemonia europeia no mundo. A ‘guerra total’, exigindo um esforço de uma «economia de guerra» com maior intervenção estatal, e a deterioração do quotidiano das populações acabaram por metamorfosear a política, a economia, a sociedade e a cultura de forma definitiva.

Portugal na I Guerra Mundial

No caso português, a nossa participação no conflito foi marcada pela presença, desde agosto de 1914, de tropas nacionais nas colónias africanas para as defenderem das investidas alemãs e, na frente ocidental europeia, pela criação do Corpo Expedicionário Português, enviado para as trincheiras em 1917. Mais de 100 mil portugueses combateram na Grande Guerra e milhares foram presos ou mortos, nomeadamente em derrotas como a de Naulila, no Sul de Angola (dezembro/1914), ou em La Lys, França (abril/1918). Internamente as dificuldades estruturais da economia portuguesa, tanto no sector primário, como no industrial, foram exacerbadas durante o conflito. A implementação de uma «economia de guerra» revelou a inaptidão do intervencionismo estatal em resolver o principal problema que afetou a sociedade portuguesa: a crise de «subsistências». A impossibilidade de abastecer as cidades provocou uma intensa crispação social e um forte recrudescimento do movimento operário.

Acampamento de soldados portugueses no Lubango, Sul de Angola em 1915
Acampamento de soldados portugueses em Lubango, Sul de Angola, em 1915

O Partido Socialista e os anarco-sindicalistas foram as principais vozes de descontentamento do mundo operário e contaram, em certa medida, com o apoio no âmbito anti-intervencionista do partido Unionista, dos seguidores de Machado Santos e de uma direita monárquica.[10] A título de exemplo, em Setúbal, umas das capitais industriais do Portugal da I República, os jornais O Trabalho (órgão local do P.S.P. – 1908-1920), O Semeador (ligado ao pensamento de Francesc Ferrer – 1915), A Trombeta (1917) e A Alvorada (órgão dos caixeiros locais – 1918) foram acérrimos críticos da participação do nosso país no conflito e totalmente antiguerristas, seguindo as pisadas do Congresso Mundial do Operariado em El Ferrol (1915) ou as decisões do Congresso de Zimmerwald da II Internacional (1915). Sinteticamente defendiam a fraternidade entre os povos, sublinhavam os graves problemas da «questão das subsistências», a prosperidade ilícita da burguesia, a propaganda intervencionista e os seus conceitos irreais de «Herói» ou «Pátria», culpavam o sistema capitalista-liberal e o imperialismo germânico pelo deflagrar do conflito, denunciavam os problemas físicos e psicológicos dos soldados que regressavam a casa e declaravam como a Grande Guerra foi um grande obstáculo à tão almejada «Revolução Social».[11]

 A fome e o aumento extraordinário do custo de vida provocaram greves, assaltos coletivos e sentimentos anti-intervencionistas de várias famílias que perdiam maridos, pais e filhos no campo de batalha que não mais foram do que «carne para canhão». Do mesmo modo, os governos republicanos foram postos em causa durante as ditaduras de Pimenta de Castro (janeiro-maio de 1915) e de Sidónio Pais (dezembro/1917 a dezembro de 1918).

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Soldados do Corpo Expedicionário Português a dirigirem-se aos navios para embarcarem para França

Este simples retrato dos efeitos da Grande Guerra em Portugal teve iguais ou piores consequências em todos os países europeus, inclusive nos que não participaram militarmente. A convulsão social motivada pela crise dos abastecimentos e os bloqueios económicos fomentaram o espaço para que, por exemplo, no Reino Unido as trade unions duplicassem os seus membros ou que a queda dos impérios gerasse o nascimento de Repúblicas. Assim foi na “November Revolution” (1918-1919) que fundou a República de Weimar. Desta forma a I Guerra Mundial, mais do que um conflito puramente militar, representou um conflito social que rompeu com o mundo político até então conhecido. Nos dias que correm, a História da Grande Guerra e da II Guerra Mundial devem servir de lição para os políticos que ameaçam a paz. Se estes conflitos foram verdadeiras tragédias, o armamento nuclear disponível em 2017 pode ultrapassar os limites do imaginável. É urgente que a sociedade civil se una em movimentos pacifistas, tal como alemães e ingleses fizeram naquela noite de véspera de Natal.

* Diogo Ferreira pertence ao Instituto de História Contemporânea – FCSH/NOVA e é o autor do livro Setúbal e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), da Edições Estuário.


[1] HOBSBAWM, Eric J., The Age of Empires, 1875-1914, Vintage Books, New York, 1989, p. 312.

[2] TENNYSON, Brian Douglas, Canada’s Great War, 1914-1918: How Canada helped save the British Empire and became a North American Nation, Rowman & Littlefield, USA, 2015, p. 2.

[3] TELO, António, Primeira República, vol. I, Do Sonho à Realidade, Presença, Lisboa, 2010, p. 233.

[4] Em 1890 foi apresentado um projeto de pretensão para a ocupação de alguns territórios entre Angola e Moçambique que foi contra os propósitos britânicos de deter todas as regiões do Cabo (África do Sul) ao Cairo (Egito). O «Ultimato Britânico», enviado a 11 de janeiro pelo Primeiro-Ministro Lord Salisbury, exigia a retirada das tropas portuguesas nos territórios entre as colónias nacionais ou seria declarada guerra a Portugal.

[5] PIRES, Ana Paula, “O conflito global nas fronteiras de um mundo a preto-e-branco” in História da Primeira República Portuguesa, org. ROSAS, Fernando e ROLLO, Mª Fernanda, Tinta-da-China, Lisboa, 2010, pp. 250-251.

[6] A perda da Alsácia-Lorena (1871) gerou um consenso no meio político-militar francês de recuperação da mesma pela importância económica e estratégia, gerando o comummente conhecido «revanchismo francês». KISSINGER, Henry, Diplomacy, Simon & Schuster, New York, 1994, p. 138

[7] STRACHAN, Hew, The First World War, vol. 1, To Arms, OUP, Oxford, 2003, p. 54.

[8] GILBERT, Martin, História do Século XX, vol. 1, Coleção Expresso, Publicações Dom Quixote Lisboa, 2013, p. 63.

[9] Cf. FERRO, Marc; BROWN, Malcolm; MUELLER, Olaf; CAZALS, Rémy, Meetings in No Man’s Land: Christmas 1914 and Fraternization in the Great War, Constable, 2007.

[10] SAMARA, Maria Alice, “Portugal e a Primeira Guerra Mundial” in História Universal, vol. 14, A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, org. SALVADORI, Massimo, Coleção Planeta DeAgostini, Lisboa, 2005, p. 620.

[11] FERREIRA, Diogo, Setúbal e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Estuário, Loures, pp. 89-90.

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