Entrevistas

João Silva Jordão. A UE “não tem problemas nenhuns em gerar conflitos, guerras e destruição nas suas fronteiras” | Praxis Magazine

Que análise fazes da União Europeia e da zona euro?

A União Europeia é, desde o inicio e do ponto de vista económico, um projeto ultra-burguês. Toda a UE foi construída a partir do esqueleto formado pela União do Carvão e do Aço. A partir daí começaram a erigir incrementalmente todos os pilares que seriam expectáveis na construção de um só Estado federal. União económica e monetária, uma moeda única, uma união política e tudo o que isso necessita, como um parlamento e até um executivo – a Comissão Europeia -, que no caso até tem um presidente que não é democraticamente eleito. E isso leva-nos à segunda caracterização que devemos fazer da União Europeia: é desde o início não somente uma construção burguesa, mas é também um projecto profundamente e assumidamente imperialista. E a obsessão quase doentia com a introdução de políticas de segurança comuns demonstra isso mesmo. Já temos uma Europol, uma agência espacial Europeia (ESA), uma força de polícia de choque Europeia (Eurogendfor) e por aí fora. Agora só falta o exército. E com o clima político e geopolítico actual, penso que tem todas as condições para avançar. E, entretanto, como que por coincidência, construiu-se uma nova sede da NATO em Bruxelas e já se fala – e se avançou – em vários países com a introdução do serviço militar obrigatório.

Assinaram agora mesmo o “Permanent Structure Co-Operation” (PESCO), que vai, entre outras coisas, aumentar os gastos militares. A nova desculpa para avançar com um exército Europeu é o Brexit, mas não se deixem enganar. Já há muito que se fala, e que se está a construir, uma mega-estrutura securitária e militar na UE. Somente as desculpas para o fazer é que vão mudando. Ao mesmo tempo que os papagaios do costume, que têm um fetiche pela EU, falam incessantemente de uma Europa de paz, democracia e cidadania, a UE está, como é seu costume, a usar vias pouco ou nada democráticas para construir estruturas sobre as quais os cidadãos da UE têm pouca ou nenhuma influência.

O presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel querem refundar a União Europeia – e a formação de um exército europeu não tem ficado à margem. Que análise fazes destes intentos?

Quando personagens como a Merkel, Macron, etc., falam de “refundar”, “reformar”, “repensar” a Europa, estão a usar eufemismos para mascarar as suas verdadeiras intenções: centralizar o poder nas mãos do menor número possível de pessoas. A formação de um exército da UE já está a ser proposto há muito tempo.

Para a esquerda que ainda é pro-União Europeia e sobretudo relativamente a um potencial exército europeu, proponho o seguinte exercício: olhem para o que seria a Zona Económica Exclusiva dos eventuais Estados Unidos da Europa. É assustador. A ZEE concede 321 km de jurisdição [200 milhas náuticas] a partir da costa de cada Estado. Quem beneficia mais com a ZEE? Os países com costas longas, mas sobretudo as ilhas e os países que as têm por muito pequenas que sejam. Expandem a jurisdição do Estado pelos oceanos fora. Por isso é que vemos batalhas, até agora sobretudo diplomáticas, entre a China e o Japão, por exemplo, pelo controle de rochedos e águas territoriais com recursos naturais, como petróleo. E quem é que passou séculos a conquistar ilhas pelo mundo fora, com muito sucesso? Estados europeus, que o fizeram em grande parte para competirem uns com os outros. A lista nunca mais acaba. Temos na União Europeia quase todas as grandes potências coloniais e se as unirmos todas, então o resultado é uma mega entidade colonial. Foi por isso mesmo que fiquei em êxtase com o Brexit. O Reino Unido ainda tem muito poder militar e financeiro e a Rainha de Inglaterra ainda é a chefe de Estado de imensos países. O país tem uma jurisdição imensa pelo mundo fora: Malvinas, Gibraltar, Bermudas. São ilhas minúsculas, mas que lhe dão uma projeção geopolítica assustadora.

Relativamente ao Brexit. A esquerda internacional, por regra geral, seguiu a esquerda do Reino Unido e entrou em pânico. É verdade que quem liderou o processo foram forças políticas de direita. E é verdade que vai trazer muitas dificuldades a muitas pessoas. Aumentaram os ataques racistas no país, é verdade. Mas para mim, é um preço aceitável a pagar pelo enfraquecimento da União Europeia, que poderá vir a ser um dos Impérios mais poderosos da história da humanidade. Tenho família a viver no Reino Unido e eu próprio já vivi lá. Sou muçulmano e sei bem o quanto está a sofrer a comunidade Islâmica lá como resultado do Brexit, mas não só. Temos que, como dizem os Ingleses, “take one for the team”.

“Temos na União Europeia quase todas as grandes potências coloniais e se as unirmos todas, então o resultado é uma mega entidade colonial”

Há quem me diga que estou a ser alarmista relativamente ao prospecto de um Império europeu agressivo e perigoso. Será? Olhemos então para um dos únicos episódios que nos permitiu ter uma amostra do que será a política externa de uma União Europeia com uma política estrangeira única: a Ucrânia. Vimos um Presidente que acabou com um pacto de comércio com a UE. O que fez a UE com o apoio dos Estados Unidos? Activou os seus agentes dentro do país para basicamente começar uma guerra civil. Até contou com o apoio do Svoboda, um grupo nazi. Conclusão: a UE não somente é agressivamente expansionista como não tem problemas nenhuns em gerar conflitos, guerras e destruição nas suas fronteiras para avançar com os seus interesses geopolíticos, inclusive colaborando com nazis. Reparem como a UE está sempre a falar contra o nacionalismo e especificamente contra o nazismo quando este se exprime dentro das suas fronteiras. É normal, o nacionalismo europeu à moda antiga vai contra os seus interesses. Mas se forças nacionalistas acabarem por agir no seu interesse fora de portas, aí já não tem problemas nenhuns.

Reparemos nas guerras em que têm participado os países europeus ultimamente. Afeganistão, Iraque, Síria, Mali, Líbia, Iémen. Quando não estão a bombardear países, estão a organizar revoltas que destroem esses mesmos países. Quando não estão a desestabilizar países, estão a vender as armas para que se destruam a si mesmos. Fora os conflitos e intervenções de que não sabemos. Agora, imaginemos dar a uma mão cheia de pessoas o poder de usar todo o poderio militar europeu de uma forma coesa, unida e coordenada. Temos que fazer o possível para evitar esse cenário.

De que forma é que a adesão e permanência de Portugal à União Europeia afectou a estrutura econômica nacional e os trabalhadores?

Existem muitas pessoas que se especializaram nesta questão e logicamente sabem muito mais que eu. Mas sinceramente vou ter que ser algo cínico: não mudou grande coisa, no plano geral das coisas, tendo somente formalizado a nossa posição como país subserviente e sem grande poder de negociação. E o facto de não termos força na mesa de negociações não se deve somente à falta de poderio económico. É também parcialmente uma questão psicológica, para não dizer psiquiátrica. A mentalidade portuguesa é afectada por um enorme complexo de inferioridade, sobretudo relativamente a Espanha, França, Reino Unido e Alemanha. É patético e deprimente ver o quão naturalmente os portugueses assumem uma posição de servilismo absoluto para com estes países, seja num plano individual ou colectivo. A todas as escalas. Num restaurante, entram europeus louros e vemos todos a desdobrarem-se para os servir melhor, para lhes dar atenção. Nos eventos sociais são quase inevitavelmente o centro das atenções. São muitas vezes o alvo preferencial da cobiça sexual dos homens e das mulheres. Eu acho bastante cómico. Mas quando vejo que esta mesma atitude se reflete no plano económico, político e até urbanístico, acho menos piada. Penso que até os europeus do centro ficam espantados com o quão facilmente nos vergamos.  Depois lá ficamos nós a repetir citações sobre como o Júlio Cesar – alegadamente- falou de um povo nos confins da Europa que não se governa nem se deixa governar para construirmos uma ilusão de como somos um povo bravo, corajoso, que sempre foi assim e sempre será. A população portuguesa fala dos “Descobrimentos” e de como éramos importantes e grandiosos. Mas se repararmos, este passado grandioso não se pode tocar, não se pode discutir, não se pode reinterpretar. Porquê? Porque sabemos muito bem que é um fóssil, uma peça de museu do passado, e é tão frágil que qualquer tentativa de lhe tocar faz com que se desvaneça em pó. Seríamos então confrontados com a realidade de que somos um país derrotado. Derrotado pelo terramoto, derrotados por Napoleão, derrotados pelo fascismo, derrotados pela Troika.

“Dantes, era a classe trabalhadora a ser vergonhosamente expulsa para a periferia das cidades, da mesma forma que é socialmente e politicamente periférica. Agora, nem a classe média escapa”

E quando apontamos para estas derrotas, aí entram os mecanismos de defesa. Começam os insultos e a racionalização. “Olha que poderia ser pior” dizem, por exemplo, relativamente à intervenção da Troika. “Sem a Troika estaríamos na banca rota”. E assim vamos aceitando o nosso servilismo. Talvez seja este o grande paradoxo da História de Portugal. Somos um colonizador colonizado, que nem admite ter sido colonizador, nem admite que agora é colonizado. Somos o nosso próprio pior inimigo.

Vejamos o que a UE fez. Subornou-nos com subsídios para implodirmos a nossa indústria e abrirmos a nossas fronteiras a produtos do centro da Europa. A Troika só avançou este plano. Um dos truques que fez foi abrir o mercado imobiliário a investimento estrangeiro, facilitar despejos, promover o turismo. Os resultados estão à vista. Dantes, era a classe trabalhadora a ser vergonhosamente expulsa para a periferia das cidades, da mesma forma que é socialmente e politicamente periférica. Agora, nem a classe média escapa. O património público é vendido, sobretudo ao grande capital estrangeiro. E vendido baratinho, claro, para ajudar a pagar uma dívida sobre qual lucram sobretudo bancos estrangeiros. Quando um banco nacional vai à falência, a UE envia ordens para que seja vendido ao Santander, pois quer grandes bancos regionais, e assim acontece, com o Banif e, agora, com o Banco Popular. Mas já em 1989 os Champalimauds tinham vendido o Totta ao Santander. Nada de novo. Nem a burguesia nacional está a sobreviver. As duas grandes empresas nacionais, a EDP e a PT, foram vendidas ao grande capital estrangeiro. Mas será de agora? Claro que não. Sempre foi assim. É só olhar para os nomes dos burgueses e aristocratas nacionais e salta logo à vista a presença desproporcionalmente alta de nomes do centro da Europa. D’Orey, Bobone, Champalimaud, Betancour. E quando não são diretamente os d’Oreys e os Betancours desta vida, são os Vasconcelos que deitam pétalas de rosa no caminho para as grandes potências europeias poderem entrar por Portugal a dentro e tratar os trabalhadores abaixo de cão. Há toda uma teia montada para assegurar este controlo total. Podemos ir secção por secção, seja no mundo político como no económico, e listar a quem pertencem. Portugal é um bolo que estes países vão dividindo entre si a seu belo prazer. E a adesão à União Europeia só formalizou e aprofundou esta tendência histórica.

Como vês as posições das várias esquerdas a nível internacional?

A esquerda está em período de transição. Foi derrotada estrondosamente logo a seguir à crise financeira, porque prometeu muito mas não conseguiu concretizar as suas promessas. Teve cerca de seis anos para demonstrar o que valia, digamos, entre 2008 e 2014. Agora, as pessoas revoltadas que depositaram as suas esperanças na esquerda estão a cair nas mãos da direita e, cada vez mais, da extrema-direita. Da mesma forma que a esquerda não estava nem programática nem estrategicamente preparada para dar resposta às expectativas, a extrema-direita também não está. Dependem demasiado do velho truque nazi de culpar os males todos do país numa minoria étnica ou religiosa, neste caso os imigrantes em geral e os muçulmanos em particular. É possível que esteja errado, mas parece-me que daqui a poucos anos as pessoas vão-se aperceber deste truque e quando virem que as suas vidas continuam a piorar, vão procurar alternativas. Deverá acontecer a partir de 2020-2022. Nesta altura a esquerda deverá estar preparada para dar respostas reais às pessoas que vão, quase inevitavelmente, aperceber-se que a extrema-direita lhes esteve a vender um sonho. O problema é que durante estes anos as coisas podem pior muito. Mesmo assim prefiro uma atitude realista, em que a esquerda seja capaz de se aperceber que está a perder, e que tem que se reconstruir em vez de fingir que estamos prontos a dar respostas agora. Não estamos.

É como nos Estados Unidos, mas também na maioria dos países. As pessoas oscilam entre a esquerda e a direita e a única coisa que fica, para além das promessas, das mentiras e das ilusões é o trabalho real no terreno, que consegue mesmo melhorar a vida das pessoas. Deve ser esse o factor principal que devemos usar para avaliar o nosso trabalho em vez de nos deixarmos enredar em enredos eleitorais, divagações simbólicas ou ambições pessoais.

Qual deveria ser a estratégia da esquerda perante a União Europeia?

O Mark Twain disse que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas. A UE enganou-nos com as suas promessas de democracia, prosperidade e paz. Ainda há muitos que preferem manter as suas doces ilusões do que acordar e ver o óbvio: a UE é um inimigo e não um aliado.

A partir daí torna-se mais fácil perceber o que devemos fazer. Temos que boicotar, sabotar e finalmente desmantelar a UE. Sobretudo o aparelho securitário, mas também todas as instituições anti-democráticas, como o Conselho Europeu e o Banco Central Europeu. Mas não antes de, ao mesmo tempo, conseguirmos construir uma alternativa viável para a substituir. Temos que ter um mecanismo para podermos viajar livremente na Europa, obviamente. Temos que ter mecanismos para impedir que os países europeus entrem em guerra entre si, obviamente. Somente não devemos cair na chantagem da UE e dos seus apoiantes que nos dizem que devemos aceitar, em troca destes “privilégios”, a mega-estrutura anti-democrática, capitalista e imperialista do projecto europeu. Os edifícios da UE poderão ser úteis no futuro, e uma ou duas instituições, um ou dois documentos, um ou dois conceitos. O resto é para demolir mesmo. É o que penso que a esquerda devia fazer. Mas, sinceramente, penso que a UE vai ganhar.

“Temos que boicotar, sabotar e finalmente desmantelar a UE. Sobretudo o aparelho securitário, mas também todas as instituições anti-democráticas, como o Conselho Europeu e o Banco Central Europeu”

Resta-me ter esperança noutras áreas, noutros sentidos. A esquerda tem que voltar a lembrar alguns conceitos básicos. Para mim o mais importante é isto: toda e qualquer construção política, seja em que parte do mundo for, que tente colocar muito poder na mão de poucas pessoas deve ser considerada alvo a abater. Os seres humanos não são capazes de lidar com tanto poder sem se deixarem corromper. Daí a importância da democracia. É menos eficaz que as ditaduras, mas é preferível a ter um pequeno grupo de pessoas que nos esmaga e nos leva a todos, mesmo que normalmente com muita eficácia e com os comboios a partir a horas, na direção do abismo. Quando as pessoas capitulam e começam a aceitar a existência de ditaduras, é porque o desastre está ao virar da esquina.

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