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O Praxis errou | Praxis Magazine

Somos um projecto novo que, como todos os projectos novos, tem dores de crescimento e comete erros. Consideramos que a melhor forma de aprender com eles é sermos honestos em relação a eles e explicar os nossos processos.

No dia 22 de Novembro, publicámos um artigo intitulado A esquerda precisa de enfrentar os seus próprios problemas com o abuso sexual, de Alex Press, com introdução e tradução de Sadiq S. Habib. É sobre o conteúdo desta introdução que nos queremos debruçar. Nela, Sadiq S. Habib acusa um contribuidor da publicação de ser um agressor sexual, não revelando o nome do suposto agressor nem da vítima que lhe confidenciou o caso. Ao recebermos este artigo e esta denúncia, contactámos ao autor no sentido de, confidencialmente, nos revelar a identidade do suposto agressor, para podermos agir em conformidade. Tendo recusado sempre revelar-nos esta informação, decidimos, mesmo assim, publicar este artigo. Esta decisão, embora venha de um lugar honesto e de não querermos ser cúmplices pelo silêncio sobre casos de violência, revelou-se uma decisão errada.

A nossa primeira decisão de publicar a introdução acima referida, veio com a força e a vontade de não querermos uma sociedade onde a opressão de género, em qualquer uma das suas formas, exista. Reconhecemos que há um debate importante a fazer à esquerda que, como qualquer outra esfera da nossa sociedade, não é imune à violência machista – e que muitas vezes se mune de artifícios retóricos para relegar esta problemática para segundo plano. Reconhecemos, também, que numa sociedade que desacredita a experiência das mulheres e que, normalmente, desvaloriza as suas denúncias, são necessárias práticas e instrumentos que protejam e empoderem as mulheres que decidam dar voz às suas vivências. Reconhecemos, ainda, que a opressão – também à esquerda – reforça o desequilíbrio material, social e cultural entre homens e mulheres, bem como o seu acesso ao espaço público. No entanto, sobre este caso em específico, a Praxis não tem qualquer instrumento para prosseguir com uma acusação feita sem nomes, sem fontes, sem qualquer especificidade do alegado crime cometido. Não temos em nossas mãos nenhuma informação sobre o alegado agressor ou a vítima, nem sobre o crime. Neste sentido, e tentando respeitar alguns princípios éticos do jornalismo – e sabemos que ter uma publicação nos traz, no espaço público, algum poder mas muitas responsabilidades -, compreendemos a diferença entre proteger a identidade da vítima e o facto de não sabermos quem é a vítima nem o alegado agressor. Compreendemos, também, que na ausência da especificação de um agressor, nada podemos fazer para contribuir para que essa pessoa deixe de ter espaço da nossa publicação. Sem vítima, sem alegado opressor e sem crime, este processo não tira quaisquer consequências. Pelo contrário, dissimula o alegado opressor num mar de gente, tornando-se mais difícil, depois da nossa publicação, prosseguir com um processo claro, que vise ajudar a fazer justiça a quem sofreu algum tipo de agressão ou violência.

É por esta razão que o Praxis errou. Publicar uma acusação não especifica, sem fontes, contra ninguém em particular é contraproducente para qualquer vítima ou sobrevivente – podendo até ser prejudicial para a luta contra a opressão e a violência. Nenhuma vítima ganha justiça com aquilo que fizemos e, pelo contrário, o possível agressor fica mais protegido na sua não-identificação pelo facto de termos publicado alegações infundadas.

Mantemo-nos fiéis aos princípios que nos guiam: queremos que o Praxis contribua, no seu conteúdo e na sua prática, para um mundo sem qualquer forma de opressão e exploração. Queremos que o Praxis seja sede de debates importantes à esquerda, e queremos que esses debates sejam profícuos e que empoderem e dêem voz a quem tem tido poucos espaços para o fazer. Escrevemos, como primeira resposta, um comunicado que consideramos agora errado, porque abrimos caminho a denúncias nos termos em que esta aconteceu. E sabemos agora que esta forma é contraproducente para processos que se querem justos e consequentes. Consideramos que a forma como gerimos este processo teve um impacto contrário àquele que desejávamos. Por isso errámos e por isso pedimos desculpa.

Publicaremos em breve um código de conduta editorial que tenha como principais objectivos proteger e dar voz a quem é mais excluído, bem como garantir que a nossa publicação não é espaço nem dá espaço àqueles que não se regem pelos valores mais fundamentais da igualdade.

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