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Argentina, a hora da resistência | Gustavo Gimenez

Gustavo Gimenez é membro da redacção da Alternativa Socialista, publicação do MST — Argentina

O tempo da resistência

No passado dia 22 de Outubro realizaram-se as eleições legislativas, ganhas pelo partido de Mauricio Macri. Com a cumplicidade das grandes empresas e boa parte da “oposição”, o governo anunciou uma série de ajustes de medidas mais duras contra os trabalhadores e sectores populares. Inicia-se um período de luta e resistência contra esses planos, que, hoje, é protagonizado pelos trabalhadores aeroportuários com uma greve geral.

O governo da coligação “Cambiemos” — da qual faz parte o partido de Mauricio Macri — melhorou o seu resultado em comparação com as eleições primárias obrigatórias de Agosto, conseguindo triunfar nos cinco principais distritos e em mais de metade do país. A sua representação na Câmara dos Deputados e Senado melhorou muito, apesar de não ter consigo alcançar a maioria absoluta. Entre o seu resultado, os triunfos mais significativos foram na província de Buenos Aires, que corresponde a 40% dos cadernos eleitorais, e na de Santa Fé. No passado, a coligação tinha, nas últimas eleições, perdido estes dois distritos para o kirchnerismo.

Os votos mais importantes nestas eleições encontram-se na classe média e em importantes sectores populares que, desiludidos com a antiga gestão de Cristina Fernández de Kirchner, optaram por mudar o seu voto e eleger um governo de direita, depositando-lhe fortes expectativas. O encorajamento feito pelos principais meios de comunicação impediu, entre outras coisas, que a crise desencadeada pelo aparecimento do corpo de Santiago Maldonado não interferisse significativamente no resultado eleitoral.

Macri tenta com este resultado usar o impulso político conquistado para avançar de forma subtil com o seu plano de ajuste e de repressão. Assim, no passado dia 30 de Outubro houve uma grande afluência no centro cultural CCK, onde estiveram presentes os grandes patrões e burocratas sindicais do país, governadores de províncias e a maioria dos membros do partido da “oposição” Justicialista (PJ). O presidente anunciou grandes reformas, cujo objectivo é o “saneamento” das finanças do Estado com um corte nos direitos das maiorias populares.

Entre as medidas está uma ampla reforma fiscal que visa “aliviar” a carga tributária para os patrões, enquanto mantém um regime totalmente regressivo para as maiorias populares através do IVA e outros impostos que incidem sobre o consumo e os salários, para além de manter o centro da arrecadação de fundos. Ao mesmo tempo, estão previstos grandes cortes nos recursos provinciais em benefício das finanças nacionais.

A reforma das pensões muda negativamente o índice de actualização, anuncia que vai acabar com a conquista dos trabalhadores de diferentes áreas se aposentem antes dos 65 anos. Já a reforma trabalhista, em acordo com os patrões, irá flexibilizar os contratos laborais e eliminar as indemnizações por despedimento sob pretexto de promover o investimento e a competitividade.

Para implementar estas medidas, muitas das quais têm que passar pelo Parlamento, Macri planeia “um grande acordo nacional” com os partidos e governadores da oposição, empresários e principais líderes sindicais, que, em troca, recebem e mantêm as suas regalias.

Vem aí uma grande resistência às medidas

Quando o eco das palavras do Presidente ainda estava presente na cabeça dos argentinos, foi imposta uma greve geral paralisou todo o transporte aéreo nacional e internacional no país com toda a força.

Apesar da enorme traição da CGT e dos líderes tradicionais, espera-se uma grande onda de medidas de luta e resistência para lidar contra estes ataques. Uma onda que vai enfrentar um governo que tentará mover o seu triunfo eleitoral para fortalecer relações estruturais entre classes e, para isso, utilizará as suas forças repressivas, como a “Gendarmeria” que assassinou Santiago Maldonado por participar num piquete da comunidade mapuche em defesa das suas terras e direitos.

A crise de Kirchner e do PJ

Governaram o país por 12 anos e agora perderam nos principais distritos. A maior derrota foi da anterior presidente Cristina Fernández de Kirchner, que, apesar de ter superado o seu adversário do governo por pouca vantagem nas eleições primarias obrigatórias, foi agora derrotada nas legislativas por vários pontos, inclusive no principal distrito do país.

A maioria das referências “alternativas” do peronismo com projecção nacional viram o seu número de votos diminuir-se substancialmente, como foi o caso de Massa (País), do governador de Salta Urtubey (PJ) ou não conseguiram transformar o seu baixo resultado numa alternativa, como aconteceu com o antigo ministro de Kirchner, Florencio Randazzo (PJ na província de Bs. As.).

A derrota do kirchnerismo, que também perdeu a província de Santa fé que tinha liderado nas eleições primárias obrigatórias, abriu uma crise ainda maior nesta corrente política, cujo golpe mais importante nos últimos dias foi a detenção do ex-ministro do planeamento Julio De Vido, acusado de ser o mais responsável pela corrupção em obras públicas e em empresas estatais. Julio De Vido já escreveu duas cartas, nas quais acusa a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner e os deputados kirchneristas de o terem abandonado. A esta situação junta-se a demissão do procurador fiscal da nação, a também kirchnerista Gils Carbó.

Os votos da esquerda e da FIT

A esquerda a nível nacional consolidou um resultado que ronda os 5%, contanto com a FIT, a Izquierda al Frente e o MST. Uma percentagem que supera os votos obtidos nas eleições primárias obrigatórias. A FIT foi a maior beneficiária deste crescimento por ter sabido tirar proveito de alguns distritos, onde atingiu a percentagem de 1,5% graças à crise do peronismo em geral, da “Unidad Ciudadana” em particular e do centro-esquerda. O facto de outras listas como a nossa frente de esquerda não ter sido capaz de superar o resultado das eleições primárias obrigatórias e não termos participado nas eleições de outubro na província de Buenos Aires, fez com que perdêssemos mais de 110.000 votos.

Presidente norte-americano, Donald Trump, com o presidente argenino, Mauricio Macri

A FIT teve mais de um milhão de votos e não conseguiu superar a votação que obteve em 2013 ou 2015. Em 2013, tinham três deputados e, agora, conseguiram dois. O facto de se recusarem a juntar a outros sectores de esquerda, como a Frente de Esquerda, onde se integram o MST e o novo MAS, e a sua persistência em se manter como um grupo eleitoral fechado, impediram que, qualitativamente, se expandisse para outros sectores de massas, ganhando mais deputados.

Assim, o seu oportunismo eleitoralista levou-os a cometerem erros graves. Um dos quais foi a sua estratégia quando o corpo de Santiago Maldonado apareceu a flutuar no Rio Chubut, recusando-se a mobilizar de forma imediata, chegando, para mais, a boicotar o movimento com a desculpa de não cair em provocações.

A votação da Izquierda al Frente e o MST

A Izquierda al Frente e as listas do MST participaram nas eleições do passado dia 22 de Outubro em 13 províncias do país, incluindo em La Plata e em oito municípios de Buenos Aires. Apesar de não termos conseguido obter votos suficientes para conquistar cargos executivos, a nossa campanha pela unidade da esquerda política e social abriu um grande debate na vanguarda.

A Izquierda al Frente nasceu pela necessidade de criar uma alternativa unitária à FIT, pressionando para a necessidade urgente de disputar o campo político eleitoral, mas também para ser tornar influente no campo sindical e nas lutas contra a clara traição da burocracia sindical tradicional.

Desta vez, os nossos melhores resultados foram na província de Entre Ríos, que, com quase 5%, fomos considerados a terceira força. Alcançámos 3% em Chubut, Santa Cruz, San Juan e Salta. Na província de Córdoba fomos a força de renovação da ala esquerda de oposição ao retrocesso da FIT.

No conjunto, o nosso partido, o MST, consolidou-se como a força mais ampla à esquerda e de maior presença politica nacional fora da FIT.

Nova manifestação três meses depois do desaparecimento de Santiago Maldonado

Na passada quarta-feira, 11 de Novembro, ocorreu na Plaza de Mayo uma nova manifestação repleta de pessoas para exigir justiça para Santiago Maldonado. Após a convocatória inicial do encontro “Memoria. Verdad y Justicia”, juntaram-se, nas últimas horas, várias organizações kirchneristas sem que tivessem coordenado uma acção unitária — como fizeram no passado -, mobilizando substancialmente menos.

Os kircheneristas apelaram à não mobilização quando o corpo apareceu com a desculpa de que não havia que cair em “provocações” a poucos dias do acto eleitoral e quando, lamentavelmente, esta foi a posição seguida pelos companheiros do FIT, que acabaram por facilitar as mentiras do governo, que tenta salvar a “Gendarmería” e, principalmente, a Ministra da Segurança Patricia Bullrich da sua responsabilidade no desaparecimento e morte de Santiago Maldonado. Apesar disto, a ferida aberta por este tremendo acto repressivo não irá sarar e, caso a mobilização continue, será um factor de crises recorrentes no governo de Macri e do seu aparelho repressivo.

Apesar das confusões do momento e do alívio eleitoral que o governo recebeu nestes dias, a luta pelos direitos humanos e pelas liberdades democráticas está a causar feridas em milhares de argentinos. O governo não conseguirá livrar-se facilmente da sua responsabilidade na repressão que custou a vida a Santiago.

Para enfrentar o plano de ajustamento e de repressão de Macri precisamos de algo novo, amplo e de esquerda

Acreditamos que os trabalhadores e o povo vão enfrentar com as suas lutas o plano neoliberal do macrismo e as medidas repressivas necessárias para o aplicar. Essas lutas vão surgir com toda sua força e urge criar um pólo de unidade,bem como uma nova direcção que combata a traição da velha liderança sindical, a crise do velho PJ e do Kirchnerismo no terreno da liderança política.

Nestas lutas e disputas políticas que se avizinham, a esquerda terá uma grande oportunidade de dar o salto e de liderar importantes sectores dos trabalhadores na Argentina.

Infelizmente, os companheiros da FIT que têm um melhor posicionamento provaram ser incapazes de enfrentar este enorme desafio. Sempre têm privilegiado interesses mesquinhos eleitoralistas em vez de terem uma atitude ousada e generosa. Necessária para construir algo novo e atraente para o movimento de massas, capaz de unir todos os sectores da esquerda política e social que se posicionem para preencher o vazio que a decadência do Peronismo deixou.

Construir uma ferramenta unitária, plural e democrática da esquerda é o grande desafio nesta fase na Argentina e do MST na frente de esquerda. Continuaremos colocando todos os nossos esforços em torno desse objectivo.

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