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A esquerda precisa de enfrentar os seus próprios problemas com o abuso sexual | Alex Press

Introdução e tradução de Sadiq S. Habib

A violência e abuso sexual são realidades que não são estranhas às esquerdas portuguesas. Do assédio sexual à violação, existem entre nós vítimas/sobreviventes, que apenas o são porque existem entre nós agressores e abusadores. No entanto,  na esmagadora maioria das vezes as vítimas/sobreviventes não se sentem na capacidade para fazer as denúncias que seria necessário fazer, ou para levar os casos à justiça. Tais decisões dizem muito pouco sobre as vítimas/sobreviventes, mas muito sobre a sociedade portuguesa, e a esquerda portuguesa como parte integral e inseparável dessa sociedade (por muito que queiramos pensar de outra forma). Como entender, senão deste modo, o silêncio sepulcral, num contexto em que, na sequência do escândalo em torno do produtor cinematográfico Harvey Weinstein, por toda a parte brotam denúncias e acusações? A verdade inegável e insofismável é que, em pleno ano de 2017, as nossas camaradas não se sentem seguras para denunciar a violência a que são sujeitas por parte de pessoas (quase sempre, é preciso dizê-lo, homens) cujas ações não correspondem aos ideais que afirmam defender. Este texto que se segue, da autoria de Alex Press, constitui então dos melhores contributos que até agora pude encontrar para dar início ao debate que temos de ter entre nós


A ESQUERDA PRECISA DE ENFRENTAR OS SEUS PRÓPRIOS PROBLEMAS COM O ABUSO SEXUAL

Os nossos movimentos nunca triunfarão enquanto tantas de nós permanecerem em perigo (original aqui)

A investigação do jornal The New York Times sobre Harvey Weinstein teve consequências que se têm feito sentir muito para lá de Hollywood. Figuras destacadas da indústria musical, da comunicação social e do movimento sindical viram tornarem-se públicas alegações de assédio ou agressão sexual contra elas, e podemos apenas imaginar quantas mais estão a ser feitas fora dos holofotes mediáticos.

No que diz respeito à violência sexual, à esquerda aspiramos pautar o nosso comportamento por padrões mais elevados do que a maioria das comunidades, e com razão. Dado o seu desejo de construir um mundo livre da opressão e exploração que fomentam a violência sexual, militantes e activistas de esquerda devem levar a questão a sério, particularmente quando ela ocorre no interior dos nossos movimentos. A um nível superficial, tal é algo com que a maioria das pessoas de esquerda concorda.

A esquerda nunca foi, contudo, imune ao sexismo e à violência sexual por parte das suas lideranças, desde 1964, quando o dirigente do Student Nonviolent Coordinating Committee [1], Stokely Carmicheal, afirmou que a única posição para uma mulher no movimento Black Power era “de barriga para baixo”, a 2013, quando vários membros abandonaram o Socialist Workers Party britânico na sequência da recusa, por parte dessa organização, em investigar de forma adequada alegações de violação contra um dos seus principais dirigentes, até hoje, quando prosseguem as revelações sobre a alegada má-conduta sexual por parte de Scott Courtney, ex-vice-presidente do Sindicato Internacional de Empregados de Serviços e um arquiteto‑chave da Fight for $15 [2] — revelações essas que resultaram no seu pedido de demissão, assim como no despedimento de pelo menos mais um funcionário do sindicato. Em cada um destes casos, a tolerância relativamente a tais comportamentos enfraqueceu a organização.

Estou longe de ser a única a ter sentido a enorme pressão exercida sobre alguém que ouse falar sobre a violência sexual em espaços de militância e organização. No pior dos casos, quem o faz sujeita-se a ser chamada à atenção para os danos que pode causar ao movimento ao acusar um homem proeminente (e são normalmente, embora não sempre, homens) de violência sexual. “A direita vai usar esta informação contra nós”, é-nos dito, ou “não conseguimos ganhar sem ele” — a mensagem implícita sendo a de que, se insistires em tornar público a má-conduta de um dirigente, “nós” não conseguimos vencer contigo.

Mulheres protesto no Cairo, Egipto, contra a violência sexual contra as mulheres em 2017

Quer tenhamos sido nós mesmas abusadas, ou estejamos a falar em nome de alguém que o tenha sido, expomo-nos à crítica de estarmos a distrair do verdadeiro objetivo do movimento. Em vez de falarmos sobre a questão central — seja ela organização sindical, construção de coligações e alianças, estratégias de comunicação, ou planeamento de ação direta — vemo-nos forçadas à posição de nos sentirmos como umas histéricas, tornadas numa caricatura: as mulheres que se queixam do sexismo ou da misoginia no movimento. Quase de imediato, sentimos que os nossos camaradas mudam a maneira como nos vêm: antes organizadoras/ativistas/militantes antes de mais nada, somos agora vistas como mulheres em primeiro lugar. É chocante. Quando apenas momentos antes éramos líderes respeitadas, somos agora subitamente suspeitas.

Mas quando mulheres (e são normalmente, embora não sempre, mulheres) levantam a questão da violência sexual no seio da esquerda, fazem-no movidas pelo seu compromisso e empenho em construir um movimento que seja o mais forte e sustentável possível. Uma insistência em levar a violência sexual a sério não é uma distração, é fundamental.

Não têm conta o número de campanhas que vi serem postas em perigo pela revelação de que um homem que tinha assumido voluntariamente uma posição de liderança tinha um historial de violência sexual ou má‑conduta: um movimento local contra a violência policial esperando em surdina que o historial questionável do nosso dirigente com mulheres nunca viesse a público, pois tal seria uma dádiva para a direita; uma campanha em defesa de direitos sindicais num campus universitário, que por ser dirigida por um homem sobre o qual recaíam múltiplas alegações de má-conduta sexual, se revelou incapaz de ter mulheres a participar nas suas reuniões, incapaz de agregar apoio militante, e por fim, incapaz de vencer. Esta é a razão pela qual necessitamos de agir clara e imediatamente contra a má-conduta sexual: só assim poderemos reter lideres com independência e criticidade, especialmente mulheres e pessoas queer. Insistir numa política de tolerância zero para com abusadores assegura que os nossos movimentos sejam construídos e liderados por pessoas merecedoras de confiança.

Não nos podemos dar ao luxo de desvalorizar preocupações sobre violência sexual ou sexismo nos meios de esquerda. Se o problema não é mais grave nos nossos movimentos do que em qualquer outra parte do espectro político, é do domínio do delírio fingir que estamos imunes à influência de um mundo profundamente sexista e violento. É verdade que agora, num momento em que a esquerda vive um período de ascenso, existem mais forças hostis que nunca, procurando usar as nossas imperfeições como armas contra nós, na esperança de lançar lama e deslegitimar os nossos projetos políticos. Mas quando tais críticas emergem do interior das nossas comunidades, devemos responder-lhes com a seriedade que merecem.

Uma mulher que erga a voz para falar da violência sexual em meios de esquerda fá-lo devido ao seu compromisso com o nosso trabalho, não apesar dele. Fá-lo porque é a única forma de erradicar comportamentos que podem causar-nos um dano inimaginável a curto e a longo prazo. Esta conversa não é uma distração do nosso projeto, é central para construir uma esquerda que seja capaz de vencer.


Alex Press é editora assistente da Jacobin e doutoranda em sociologia na Northeastern University. Pode ser seguida no Twitter em @alexnpress.

[1] Comité Coordenador Não-Violento Estudantil: Organização estudantil norte-americana que desempenhou um papel central no movimento pelos direitos civis dos anos 60 (NT).

[2] Campanha em defesa do aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. (NT)

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