Entrevistas

Ricardo Noronha. A recuperação da soberania transformou-se no “derradeiro horizonte estratégico” | Praxis Magazine

Qual é a visão que tens do activismo e da militância?

Parecem-me termos bastante desgastados pelo uso. De uma maneira geral, tenho a impressão de que o “activismo” surgiu no vocabulário político — sobretudo a partir dos finais dos anos 90 — como uma espécie de versão “jovem”, “moderna” e ligeiramente descomprometida da “militância”. De resto, a “militância” tem uma raiz etimológica que remete para um imaginário combatente e disruptivo, ao passo que o campo semântico do “activismo” remete fundamentalmente para o assistencialismo cristão, pelo que evito invariavelmente este e emprego ocasionalmente aquela. Claro que, no limite, ambos os termos funcionam dentro de um lógica binária, de delimitação entre “nós”, os militantes/activistas, e “eles”, a massa amorfa e/ou apática que caberá mobilizar ou sensibilizar. Pertencem por isso a um paradigma político que me merece bastantes reservas e que não estamos condenados a reproduzir. Dito isto, não tenho nada contra o facto de as pessoas se organizarem.

Nos primeiros anos da troika, os movimentos sociais assumiram uma nova relevância no combate político. Que análise fazes desses movimentos sociais?

Desapareceram quase tão depressa como apareceram e, dir-se-ia, quase sem deixar rasto. Penso que houve duas fases fundamentais.

Numa primeira fase, grosso modo ligada à acampada do Rossio (Maio 2011), surgiu muita gente sem experiência política prévia e foram timidamente ensaiadas formas de estar na rua que ultrapassavam o padrão de luta habitual (concentração-marcha-comício) e o ciclo clássico da impotência coletiva (mobilização-negociação-impasse-desmobilização). Começou a haver manifestações sem direcção, nem porta-voz, momentos em que as pessoas estavam juntas na rua e procuravam alargar o campo de possibilidades daí resultante. Aquilo a que a CGTP se referia, com um desdém que se foi gradualmente convertendo em inquietação, como “protestos inorgânicos”. Nem tudo foram vitórias, mas acho que muita gente viveu essa experiência com um entusiasmo genuíno, dando forma a uma radicalização cumulativa e cada vez mais alargada.

A partir do Verão de 2012, com a formação do Que se lixe a troika — e independentemente das intenções dos seus intervenientes, que foram certamente as melhores -, alguns aspetos da primeira fase (como os cercos ao parlamento e a greve geral de 14 de Novembro) passaram a coexistir com uma dinâmica de recuperação, muito ligada à ideia de que era preciso fazer as coisas “a sério”, ou seja, como de costume. E assim foram ressuscitados os porta-vozes, as conferências de imprensa, as plataformas reivindicativas e os palcos, todos os rituais e padrões discursivos, em suma, que fazem de cada manifestação um momento de sobressalto cívico e de cada uma das pessoas que nela participa um cidadão empenhado. Não me parece difícil adivinhar qual das modalidades de protesto e conflito era preferida pelo governo anterior.

Ficaram assim criadas as condições para que o ciclo de mobilização anti-troika se começasse a esgotar. Foram-se sucedendo enormes manifestações, até que se percebeu que um milhão de pessoas a caminhar entre o ponto X e o ponto Y não iriam fazer o governo recuar no fundamental e, muito menos, demitir-se. A partir daí, muitas pessoas começaram a desanimar e desmobilizaram. Por outro lado, como tudo o que é coisa que promete a gente vê como uma chiclete, os canais de televisão provaram, mastigaram e depois deitaram fora. Num país onde grande parte do que acontece acontece na televisão, o progressivo desinteresse pelo que diziam os porta-vozes do Que se Lixe a Troika conduziu, a prazo, ao seu virtual desaparecimento do espaço público. E claro está que, assim que começou o refluxo, vieram ao de cima todas as incompatibilidades pessoais, rivalidades históricas, disputas territoriais e lealdades tribais em que a esquerda portuguesa é especialista.

Importa dizer que, no campo dos que queriam outra coisa e procuraram não atirar a toalha ao chão, imperou quase sempre uma certa inclinação estética para a contemplação, acompanhada por uma obstinada recusa em encarar as coisas de um ponto de vista estratégico, pesando bem as correlações de forças e as condições de possibilidade em cada momento. Faltou, em suma, capacidade para debater coletivamente os limites de cada solução organizativa e para encontrar soluções para os diversos problemas de ordem prática que se colocam quando se pretende agir coletivamente, seja para bloquear um porto, para ocupar um espaço ou para fazer face à repressão. E eu, sinceramente, também não tenho uma resposta satisfatória para grande parte desses problemas.

“Assim que começou o refluxo, vieram ao de cima todas as incompatibilidades pessoais, rivalidades históricas, disputas territoriais e lealdades tribais em que a esquerda portuguesa é especialista”

Que lições se podem retirar?

Boa questão, tirando um texto intitulado Sobre a Passagem de Alguns Milhares de pessoas por um breve período de tempo, penso que é a primeira vez que vejo alguém genuinamente interessado em fazer um balanço crítico. Assim de repente, a fragilidade maior destas mobilizações foi a ausência de referentes específicos, de uma relação mais consistente com contextos sociais concretos. Nem os estudantes nem os precários nem os desempregados nem os imigrantes participaram, de forma massificada e organizada, nas mobilizações. Houve tentativas de criar “Ondas” sectoriais em certas greves gerais, seguindo a intuição de que era necessário conferir um esqueleto mais sólido às mobilizações de rua, projetando a dinâmica de mobilização para os locais de trabalho e aproveitando essa energia para alterar a correlação de forças aí vigente. Simplesmente, teria sido necessário fazê-lo de forma mais intensa e sistemática. Adicionalmente, essas formas de organização horizontal — com o tipo de energia que as anima, a linguagem em que se exprimem, o imaginário que produzem — possuem uma lógica própria e convém não as encarar enquanto plataforma para outra coisa qualquer, no quadro de uma guerra de posições sem fim à vista. Por outro lado, a experiência previamente acumulada pode ser extremamente valiosa, mas é igualmente importante que todos e todas estejam disponíveis para aprender, e não apenas para ensinar, corrigir e dirigir.

Numa perspetiva optimista, é possível que o próximo ciclo de lutas inicie onde o último acabou e que, por isso mesmo, o ponto mais alto de mobilização atingido entre 2011 e 2013 corresponda ao seu ponto de partida imediato. Numa pespectiva pessimista, é possível que não e que se venha a repetir tudo de forma mais ou menos igual. A lição mais importante que eu retiro passa sobretudo pela necessidade de ganhar e manter a iniciativa no plano estratégico. A imprevisibilidade é uma arma bastante efetiva e não é por acaso que houve um curto período, no Outono de 2012, em que o governo e a polícia perderam completamente a iniciativa. Em geral, a rotina favorece quem tem o poder, pelo que convém não repetir a mesma fórmula muitas vezes.

“A experiência previamente acumulada pode ser extremamente valiosa, mas é igualmente importante que todos e todas estejam disponíveis para aprender, e não apenas para ensinar, corrigir e dirigir”

Claro que é igualmente importante ser capaz de refletir coletivamente sobre o que se está a fazer. O cenário ideal é aquele em que se torna possível dialogar para lá do círculo imediato em que nos movemos quotidianamente e em que cada movimento se deixa contaminar pelos outros. A relação que a dada altura se criou entre a luta dos estivadores e as mobilizações contra a Troika parece-me um exemplo feliz. Tal como A ocupação na Rua de São Lázaro, onde convergiu muita gente de sítios e sensibilidades diferentes, ou a manifestação dos Rios ao Carmo, composta por diversos movimentos e coletivos.

Que análise fazes do actual momento político que se vive em Portugal?

É uma consequência natural do esgotamento do ciclo de lutas. Não me parece mal que se tenham entendido, considerando que convergiam em tantas críticas ao governo anterior e que a conversa sobre sair do euro não é para levar muito a sério. Aliás, sempre que se esmiúça o tema percebe-se logo que nem o PCP nem o Bloco de Esquerda fazem a mínima ideia de como é que isso se faria. Mas percebo que, quando se pensa exclusivamente à escala de Portugal, a ideia de “recuperar” a soberania seja convertida no derradeiro horizonte estratégico.

Pessoalmente, votei na CDU, porque estava convencido de que se pode sempre contar com o PCP para fazer uma oposição minimamente consequente. Caiu-me o queixo quando o Jerónimo estavam reunidas todas as condições para o PS formar um governo. Parece-me que os partidos de esquerda têm sido hábeis na mesa de negociações, tendo em conta que não há imenso a ganhar a esse nível, pelo menos enquanto a correlação de forças entre trabalho e capital for a que se sabe.

“Aliás, sempre que se esmiúça o tema percebe-se logo que nem o PCP nem o Bloco de Esquerda fazem a mínima ideia de como é que isso se faria”

Que perspectivas tens para a situação política portuguesa nos próximos tempos? E para os movimentos sociais?

Qualquer oscilação da conjuntura internacional, qualquer subida do preço do petróleo ou aumento das taxas de juro, mandará tudo isto imediatamente abaixo. E provavelmente não faltará tanto quanto isso. Segundo a lógica habitual, e não vejo nenhuma razão para adoptar outra, o próximo governo estará à direita do actual, seja ele uma coligação de direita, bloco central ou maioria absoluta do PS.

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