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João Carlos Louçã. “Austeridade com pézinhos de lã é sempre austeridade” |Praxis Magazine

Praxis Magazine

O Praxis Magazine desafiou uma série de activistas dos mais variados quadrantes à esquerda a responderem às mesmas questões sobre activismo, movimentos sociais em Portugal e situação política actual. Esta é a segunda entrevista. Podes ler a primeira, do Renato Teixeira, aqui.

Qual é a visão que tens do activismo e da militância?

Não distingo uma da outra. Ceio que “ativismo” será a palavra/conceito moderno de militância. Em qualquer dos casos, é a atitude de intervir na sociedade, a diferentes níveis, para a transformar. Na tradição comunista, é a capacidade da luta organizada, mais presente na tomada do palácio de inverno do que no assalto aos céus da comuna de Paris. Hoje, é sobretudo na resistência ao neoliberalismo, nas suas várias formas, e ao patriarcado que confluem os ativismos e as militâncias. Pelo menos aquelas que me interessam.

‘“Ativismo’ será a palavra/conceito moderno de militância”

Nos primeiros anos da troika, os movimentos sociais assumiram uma nova relevância no combate político. Que análise fazes desses movimentos sociais?

Foram exemplos de confluência fundamentais que chegaram a ganhar a rua e conseguiram expor o projeto fanático de destruição de bens e serviços públicos que significou a austeridade desses tempos. Em grande medida, ainda vivemos debaixo da influência desses momentos, mesmo que as expectativas tenham sido goradas. Falta-nos ainda distância para grandes análises e falta-nos sobretudo sair desse ciclo de austeridade, empobrecimento e conservadorismo que é o mesmo onde estamos hoje. Ao contrário do que parece, a troika ainda está por cá e austeridade com pézinhos de lã é sempre austeridade.

Que lições se podem retirar?

Podemos sempre especular com tudo o que faltou e tudo o que não foi e poderia ter sido. É um exercício bastante inútil pois os movimentos sociais não têm memória. As situações, as iniciativas e os erros são sempre outros, sempre novos, começando sempre do zero. E quando não é assim, já perdemos alguma coisa pelo caminho e geralmente essa coisa é a radicalidade, a horizontalidade, a perceção das outras como iguais. Mas essencialmente creio que faltou coordenação internacional que é hoje ainda dramaticamente débil do lado dxs trabalhadorxs.

“Um governo apoiado à esquerda, pode parecer que muda muito quando na realidade, tudo o que é essencial fica exactamente como estava”

Que análise fazes do actual momento político que se vive em Portugal?

Parece que não se passa nada. Parece um país à espera da próxima tempestade que vive a aparentar uma normalidade que todos sabemos que não existe. A dívida continua a estrangular a economia, as bolhas especulativas a inchá-la, o trabalho a ser destruído e desvalorizado, a subordinação do Estado ao capital segue o seu caminho seu percalços de maior. “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”, dizia um aristocrata italiano ao seu sobrinho no Il Gatopardo de Visconti. Um governo apoiado à esquerda, pode parecer que muda muito quando na realidade, tudo o que é essencial fica exactamente como estava.

Que perspectivas tens para a situação política portuguesa nos próximos tempos? E para os movimentos sociais?

À segunda parte da pergunta só consigo responder com um lugar comum: a única perspectiva é a luta. Espero que o que aí venha sejam formas de luta plurais, sem hierarquias entre as várias vertentes da exploração ou entre as pessoas exploradas, sem trabalhadorxs divididxs entre precárixs e efetivxs, sem olhar às fronteiras nacionais, de raça ou cultura, sem construir muros onde nos costumam e costumamos fechar demasiadas vezes, sem burocracia nem burocratas, sem colaboração de classe mesmo quando se negoceia, sem manipulações ou apropriações, sem medo de avançar ou até de vencer.

A situação portuguesa nos próximos tempos será sempre o que conseguirmos fazer dela. A luta política, a disputa social, a tomada de consciência da condição de exploração e das suas origens, os exemplos de luta que inspiram e espoletam outros, as conquistas que se arrancam ou se defendem, a forma como se olha o mundo, serão sempre as circunstâncias que irão determinar o que viveremos no próximo período.

Em fevereiro de 1917, Lenine nem desconfiava da revolução que iria dirigir 8 meses depois. Não percamos a esperança.

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