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Renato Teixeira. A geringonça está a revelar-se uma “experiência política terrível”

Praxis Magazine

O Praxis Magazine desafiou uma série de activistas dos mais variados quadrantes à esquerda a responderem às mesmas questões sobre activismo, movimentos sociais em Portugal e situação política actual. Nos próximos tempos serão lançadas mais entrevistas.

Qual é a visão que tens do activismo e da militância?

Num tempo onde a sociedade nos isola e o individualismo é um pilar ideológico, seja no contexto da vida familiar seja no contexto do trabalho, o activismo e a militância são fundamentais. A sua importância, aos mais variados níveis, da comissão de trabalhadores à associação de bairro, do partido à associação política, do sindicato a uma simples reunião de pais, as organizações colectivas são a chave para se transformar a sociedade, agora em aspectos pontuais, no futuro, esperamos todos, para transformar aspectos mais profundos do modo de vida. Não obstante a sua importância, a militância, num sentido geral, está em crise. A generalidade das pessoas está pouco disposta e pouco preparada para trabalhar em conjunto, as dimensões identitárias sobrepõem-se às colectivas e a generalidade dos espaços de militância tem vindo a ficar presos a lógicas contrárias à sua função, cedendo à cultura de seita em detrimento do engajamento na transformação do mundo, privilegiando a acção sobre quem já está esclarecido ao combate à ignorância dos demais, mais grave que tudo, a militância tem vido a ficar refém das lógicas do aparelho, das burocracias dominantes, onde a opinião e a prática política é pautada pelo seguidismo acrítico e definida em função de objectivos pessoais e não de um qualquer devir que nos levanta ou nos faz cerrar os dentes.

“A militância tem vido a ficar refém das lógicas do aparelho, das burocracias dominantes, onde a opinião e a prática política é pautada pelo seguidismo acrítico”

Nos primeiros anos da troika, os movimentos sociais assumiram uma nova relevância no combate político. Que análise fazes desses movimentos sociais?

Foi um fenómeno que começou antes da troika. Bem antes. As manifestações contra a guerra e a globalização, no início da primeira década do milénio, já tinham aspectos portadores de da grande mudança na luta política e social que estava a ocorrer, pois já tinham elementos chave para o sucesso que, uma década depois, os movimentos sociais granjeariam. O fim do monopólio dos partidos na organização dos protestos, a multiplicação e diversificação das palavras de ordem, dos eixos de combate, das formas de luta, foi um processo cumulativo e obra de várias gerações e afinidades políticas. Os anos da troika, paradoxalmente, acabaram por levar os movimentos sociais emergentes para uma encruzilhada que, como se verificou, não tinham ainda maturidade para superar. A derrota da direita e a chegada ao poder da “geringonça”, com a esmagadora maioria do movimento social rendido a esta solução governativa, mesmo que esta solução governativa não mude a substancia da governação, é paradigmática. Nos anos de combate à troika o protagonismo dos movimentos sociais não foi acompanhado pelo seu fortalecimento político e organizativo, falhas que os levaram a praticamente desaparecer do mapa nos últimos anos.

Os anos da troika “acabaram por levar os movimentos sociais emergentes para um encruzilhada” que “não tinham ainda maturidade para superar”

Que lições se podem retirar?

A mais importante das lições, na minha opinião, prende-se com um diagnóstico sobre o papel da esquerda. Qualquer peça do mosaico que a compõe que entenda que não está em crise, está numa crise ainda mais profunda de quem já reconhece o problema. A institucionalização e burocratização de BE e PCP, a falta de uma dimensão internacionalista, a crise de todas as direções que se consideram revolucionárias e a sua incapacidade de decantar um sujeito político radical, credível e mobilizador, o recrudescimento da distopia reformista ao ponto de chegar ao poder, deixaram o movimento social manietado, sem mecanismos de decisão e por isso sem vontade própria, dependente dos humores que a táctica dos grandes partidos à esquerda têm a cada momento político. No plano mais concreto, acho que se percebeu também que é fundamental desenvolver regras de convivência salubres, capazes de criar espaços de militância com um funcionamento dinâmico, capaz de discutir e intervir mais sobre a política concreta e menos sobre os procedimentos, os regimentos ou as excitações identitárias.

Que análise fazes do actual momento político que se vive em Portugal?

A “geringonça”, que foi durante anos considerado o cenário ideal quer para a esquerda revolucionária quer para a esquerda reformista, está a revelar-se, na verdade, uma experiência política terrível para ambos. A esquerda revolucionária, como não foi capaz de produzir uma organização radical, credível e mobilizadora, não vê o caldo social aquecer a seu favor e, como se viu na questão dos incêndios, é a direita que face à encruzilhada capitaliza até os protestos de rua.

“Com o aproximar das legislativas, fica claro que é o PS quem, à custa da geringonça, está perto da maioria absoluta”

Ao contrário do que imaginou, com as massas a romperem com o reformismo sem reformas, a perderem as ilusões em vias conciliatórias, a verdade é que a geringonça está a dar fichas a quem a defende, nomeadamente ao PS, e mais do que criar um contexto onde as reivindicações poderiam passar à ofensiva, a realidade tem mostrado que a “geringonça”, mesmo sem grandes resultados, credibilizou a ideia de que a esquerda não tem uma alternativa governativa. Não se pense, porém, que a esquerda reformista tem muito por onde se rir. BE e PCP são comunicados como os filhos conflituosos da geringonça, cujo pai, sóbrio e responsável, comanda o futuro do país a partir do Largo do Rato, governando sem ceder nem na posição nem no programa, colocando o ónus dos problemas no conflito dos filhos os méritos da governação na sua lapela. O BE e o PCP quiseram ficar fora do governo para obter o resultado contrário, e, com o aproximar das legislativas, fica claro que é o PS quem, à custa da geringonça, está perto da maioria absoluta.

Que perspectivas tens para a situação política portuguesa nos próximos tempos? E para os movimentos sociais?

A situação política portuguesa, apesar da particularidade da geringonça, está ligada à realidade internacional. São cada vez mais as vozes que apontam para a aproximação de mais um sobressalto na economia mundial. Com a esquerda na encruzilhada que aflorámos, uma crise cíclica, ao invés de produzir o recrudescimento de uma tipologia de protesto progressiva, pode levar a direita e a extrema-direita a maximizar a capitalização que já tem conseguido, em muitos países da Europa sem qualquer maquilhagem, em Portugal de forma ainda mitigada, mas não menos perigosa. Reparem, Le Pen ainda não é presidente mas a sua Frente Nacional já tem uma mão cheia de deputados nacionais e várias gestões autárquicas, a Alemanha acabou de eleger um grupo parlamentar muito significativo de um partido pós-nazi com um programa abertamente xenófobo, e ainda há a Áustria, a Holanda, a Suíça, a Hungria, a Ucrânia, Rajoy em Espanha, Putin na Rússia, Mae em Inglaterra, Trump nos EUA… enfim, a vaga reacionária está aí, pujante, e a minha perspetiva é que os de baixo, os explorados, a generalidade dos trabalhadores, não está dotada das ferramentas que seriam fundamentais para fazer mudar o sentido do vento. Gosto de acreditar, como afirmou o ensaísta francês Romain Rolland, o que o optimismo da vontade é suficiente para derrotar o pessimismo da razão, mesmo quando os factos teimam em dificultar o caminho. Assim a esquerda seja capaz de sair curada do divã onde muitos ainda não acreditam que precisam ir.

“Vaga reacionária está aí, pujante, e a minha perspetiva é que os de baixo, os explorados, a generalidade dos trabalhadores, não está dotada das ferramentas que seriam fundamentais para fazer mudar o sentido do vento”

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