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Somos as filhas da luta! | Assembleia Feminista de Lisboa

A Assembleia Feminista ​nasce da vontade de um grupo de mulheres em organizar uma manifestação no dia 8 de Março, em Lisboa​, contra a violência machista em toda a sua amplitude: laboral, física, económica e psicológica. Mas antes de chegarmos a essa parte, precisamos de retroceder um pouco para explicar a força internacional que desencadeou este movimento em Portugal.

No decorrer de 2016, chegaram-nos notícias de um despertar e consequentes protestos em massa de mulheres que foram para a rua lutar pelos seus direitos. O desses casos foi o das mulheres que, em Outubro, avançaram com uma greve para manifestarem o seu desagrado e oposição a uma alteração na lei polaca que proibiria, ilegalizando, o aborto em qualquer circunstância. Este protesto ficou conhecido como “Black Monday” — Segunda-feira Negra. Poucos dias depois, era a vez das argentinas, que choravam a morte de Lúcia Perez, violada, torturada e morta por um acto machista, despoletando um grito de revolta das mulheres na América Latina, sob o mote “Ni una menos!”, para dizer basta aos crimes de feminicídio que continuam a ocorrer em grande número nesta zona do globo. A 24 de Outubro, na Islândia, as mulheres deixaram os seus locais de trabalho às 14h38, hora a partir da qual passam a trabalhar gratuitamente quando comparado o seu salário​​ ao​​ dos​​ seus ​​colegas ​​do​​ sexo masculino,​​ como ​​forma ​​de ​​protesto.

Atentas ao movimento de mulheres que se dava no mundo, as polacas entraram em contacto com os países que apoiaram a “Black Monday”, para além de terem criado um grupo de trabalho, através do Facebook, com o nome “International Woman’s Strike”​​, sob ​​o ​​slogan ​​“Solidariedade ​​é​​ a ​​nossa ​​arma”. Este grupo lançou o seguinte apelo:

“Nós, mulheres do mundo, estamos fartas da violência física, verbal e moral que é dirigida a nós. Não a vamos tolerar passivamente. Exigimos que os nossos governos parem de usar insultos misógenos e comecem a tomar medidas reais para resolver os numerosos problemas relacionados com a nossa segurança, acesso gratuito a cuidados de saúde, incluindo direitos reprodutivos, o estabelecimento e aplicação de sanções legais contra os nossos opressores nos casos de violação, violência doméstica e todo o tipo de crime de género que estamos a experienciar cada vez mais, bem como cumprir uma efectiva secularização de nossos estados. Antes da nossa condição biológica feminina somos, acima de tudo, seres humanos e estamos noano ​​de ​​2016.

Enquanto cidadãs conscientes, nós mulheres sabemos que o mundo está a passar por uma crise mas não aceitamos ser suas vítimas. Os governos dos nossos países que tomem atenção: sejam maduros e atendam aos problemas do mundo de forma direta ​​e ​​adequada, ​​sem​​ nos ​​magoarem.

Nós, as mulheres do mundo, anunciamos que se não forem tomadas medidas para parar esta violência urgente e imediatamente, nós faremos greve, solidárias e unidas, em todo o mundo para defender os nossos direitos. Somos mais de metade da​​ população ​​mundial ​​e​ ​sabemos ​​que ​​o ​​poder ​​está ​​nas ​​nossas ​​mãos.

Greve​​ Internacional​​ de​​ Mulheres”

Por cá, com a aproximação do 25 de novembro, aumentava a expectativa com a manifestação que se organizava para assinalar o dia internacional pelo fim da violência contra a mulher. Apesar da fraca adesão que tem caracterizado as manifestações, a marcha juntou cerca de 300 pessoas em Lisboa, reflexo desta onda que surgiu um pouco por todo o mundo. Servindo de palco ao governo, encabeçada por ministros e fortemente caracterizada por grupos institucionalizados, a marcha do 25 de novembro foi para nós, que ainda participávamos enquanto ativistas individuais, um momento de análise e reflexão sobre a organização da luta das mulheres, ficando claro que um espírito combativo e​​ reivindicativo​​​ faltava ​​ao​​ movimento ​​feminista​​ em​​Portugal.

Imagem retirada da página de facebook da Assembleia Feminista de Lisboa

A partir desse momento, decidimos iniciar reuniões com o objectivo de apelarmos a uma manifestação para o dia da mulher. A nível internacional, o pico destas mobilizações ocorreu a 21 de Janeiro com a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. A marcha das mulheres juntou mais de 500 mil pessoas em Washington, revelando-se um dos maiores protestos das últimas décadas. Esta manifestação reúne feministas liberais, representadas por ONG’s, Hillary Clinton e Michelle Obama, mas com maior força de feministas militantes, entre elas Angela Davis, que fez o apelo por um feminismo dos 99%, amplo, militante e anticapitalista, mas também por uma greve internacional de mulheres no dia 8 de Março. ​Assim nasceu o 8M Portugal – “Não Me Calo!”, subscrevendo ao manifesto do Paro Internacional de Mujeres/International Woman’s Strike, que culminou com a participação de mais de 50 países com a união de milhares de mulheres em todo o mundo.

Por cá, as principais reivindicações exigiam o fim da violência machista, igualdade salarial para homens e mulheres no desempenho das mesmas funções, o fim da dupla e tripla jornada de trabalho nas tarefas domésticas e cuidado dos filhos e idosos, creches públicas para apoio à parentalidade, o fim do assédio sexual e moral e, por fim mas não menos importante, uma maior participação das mulheres na vida pública. ​Juntaram-se cerca de 400 pessoas no Rossio, entre elas jovens, estudantes e trabalhadoras que puderam partilhar as suas reivindicações ao microfone aberto, marcando a data como ela merece: o dia da mulher como um dia de luta pelos ​​nossos​​ direitos,​​ pela ​​nossa​​ emancipação.

Este foi o pontapé de saída. A Assembleia Feminista iria continuar, após o 8 de Março, enquanto organização horizontal e aberta que tem por base a união de activistas, independente, de luta contra o machismo, anticapitalista e de reivindicação pelos direitos das mulheres, a apelar à unidade de todos os grupos e pessoas que entendam o feminismo como combate necessário por um mundo mais justo e com igualdade de oportunidades para o desenvolvimento de todas e todos que contribuem todos os dias com o seu trabalho para a evolução da sociedade.

Desta forma, a Assembleia, como modelo de organização, concebe-se como um método alternativo de funcionamento colectivo, baseado na horizontalidade, no poder da coesão social e na criação de espaços de abertura e diálogo. Este modelo sustenta-se na convicção de que a participação activa é a melhor forma de acção e participação na política, para além de se apoiar na confiança no trabalho e responsabilidade de cada um dentro das decisões colectivas. Por isso, a Assembleia se constitui como uma reunião onde as participantes fazem ouvir directamente a sua voz, usando a votação das pessoas presentes como fórmula para a tomada de decisões, e onde lhe são fornecidas ferramentas​​ para ​​participar ​​activamente​​ na ​​mudança ​​social.

As principais ​vantagens desta prática organizativa são: a ​participação aberta a qualquer pessoa que respeite o posicionamento do colectivo; a ​diversidade não só de pessoas, mas de visões, objectivos ou experiências; e a ​não existência de hierarquias​, que em qualquer caso estabelecem relações de poder entre as participantes. No entanto, também existem desafios associados a este método, que enfrentamos com diferentes estratégias, como: ​não contribuir para “darwinismos activistas”​, facilitando a participação de perfis com dificuldades para a assistência e intervenção neste tipo de espaços; ​definir o melhor sistema para a tomada de decisões​, dando a prioridade ao consenso mas sem correr o risco das decisões não serem levadas a cabo; ​evitar as lideranças em favor das competências de cada participante​, de forma que o colectivo favoreça o crescimento e desenvolvimento de cada pessoa, e não só de um número reduzido delas; ​não se perder no burocratismo interno​, pois o objectivo é o mesmo servir para facilitar a acção e não para atrapalhá-la; e ​ser autocríticas​, de forma que​​ a​​ avaliação ​​contínua​​ propicie ​​o ​​desenvolvimento​​ do​​ grupo.

Na Assembleia Feminista de Lisboa acreditamos que este modelo de organização é o único que pode trazer a mudança radical autêntica que o feminismo pretende e precisa. Para acabarmos com as opressões que delineiam a vida da mulher em todas as suas facetas precisamos de acabar com o sistema que gera e legítima tais abusos, erradicar o binómio capitalismo-patriarcado que tem naturalizado a desigualdade e a violência contra a mulher. Mas como será possível esse desejo de mudança radical do sistema, principalmente se continuarmos a usar a legitimar as formas de organização que servem para nos oprimir? Como combater o poder vertical, abusivo, individualista, agressivo e competitivo com estruturas que perpetuam esta mesma lógica? É por isso que acreditamos e defendemos que ​o modelo organizativo da assembleia pode supor uma verdadeira transformação dentro do movimento feminista​ — e, consequentemente, nas restantes lutas sociais — transformando o próprio feminismo: horizontal, colectivo, heterogéneo, integrador, participativo, dinâmico, unido e pragmático.

Desde o passado 8 de Março que a Assembleia Feminista de Lisboa tem continuado a reivindicar a mudança da situação da mulher a nível global, a manifestar-se perante as situações de machismo e a apoiar as diferentes lutas sociais que lutam pela transformação das nossas sociedades em todo o mundo. Também temos abraçado outros reptos, entre os quais a participação no II Encontro de Jovens Feministas, celebrado o passado mês de Abril no Porto, com a proposta de um ​​workshop​​ sobre ​​a​​ organização ​​em ​​assembleia.

No entanto, a nossa maior satisfação até agora foi a ​criação do Clube de Leitura Feminista ‘Letra M’​, um espaço de partilha, debate, luta e sororidade através da palavra. Na sessão inaugural, que teve lugar no dia 25 de Junho na Zona Franca dos Anjos, tivemos a oportunidade de descobrir um dos livros mais importantes da literatura portuguesa, escrito por três mulheres, a seis mãos, numa época de grande repressão sobre a sociedade portuguesa e, em especial, para a mulher: ​As Novas Cartas Portuguesas, das autoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. O carácter reivindicativo deste espaço foi reforçado pela colaboração com a ilustradora Emma Andreetti e a exposição do seu trabalho Pub(l)ic Hair, assim como pelo jantar benefit para o Gabinete de Apoio e Intervenção em Psicologia (GAIP) da nossa companheira Danielle Capella, cuja actividade profissional está ligada ao bem-estar e saúde mental, com a preocupação social como base de actuação e com especial foco na participação democrática ​​e ​​o ​​empoderamento ​​dos ​​jovens.

Actualmente, estamos a trabalhar para dar continuidade aos projectos em marcha e para lançar outros que ainda se estão a cozinhar, pois a essência participativa e aberta da assembleia faz com que ​as participantes estejam continuamente a propor novas ideias e acções a desenvolver​, que dêem voz, espaço, ferramentas de libertação e apoio colectivo à mulher. Neste sentido, recentemente projectámos o documentário ​She Is Beautiful When She’s Angry (2014), seguido de debate, para marcar o 28 de Setembro, Dia Global de Acção Pelo​​ Acesso ​​ao​​ Aborto ​​Legal ​​e ​​Seguro

Entre os nossos objectivos a curto e longo prazo encontra-se o alargamento das acções da assembleia feminista para chegar às mulheres mais vulneráveis e favorecer a participação das mesmas neste processo de mudança que se pretende. Mas também dar a conhecer o modelo de organização da assembleia como ferramenta de gestão colectiva, para favorecer a criação de outros núcleos autónomos que trabalhem em conjunto por objectivos mais específicos aos que resulte ​​difícil​​ de ​​chegar​​ com ​​a ​​nossa ​​acção.

Também acreditamos na necessidade de fortalecer o feminismo em Portugal com a criação de uma rede de acção transversal a todo o tipo de colectivos sociais, pelo que parte do nosso esforço se dirige a este fim. Queremos combater a institucionalização do movimento e promulgar o pragmatismo feminista, com presença na rua em todas as formas possíveis. No entanto, a nossa contribuição sempre será numa óptica internacionalista, trabalhando em conjunto com os movimentos feministas de outros países, para que as acções tenham eco​​ a​​ nível ​​mundial​​ e ​​a​​ sororidade ​​não ​​seja​​ só​​ local​​ mas​​ global.

Se o Feminismo é revolução, a Assembleia Feminista de Lisboa é ação revolucionária.

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