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Secundário: romper com o imobilismo do movimento estudantil | Beatriz Farelo

A fraca discussão acerca do estado do nosso sistema de ensino, pelo menos em espaço escolar, levou a que um pequeno grupo de alunas e alunos inconformados decidisse começar o tão esperado burburinho. Assim nasceu o Movimento Estudantil Democrático (MED). O nosso objetivo era dar provas físicas — e, em certa medida, teóricas — de que a mudança é possível, desde que a ação seja tomada. A missão era difícil, pois saindo do círculo de ativistas onde estávamos inseridos, a mobilização estudantil cheira a mofo. Ouvíamos desde o “para que é que vou mudar as coisas se no próximo ano já acabo o 12º ano?” ao “nós não temos força suficiente para mudar nada”. A inércia tinha que acabar e as coisas tinham que mudar. Se ainda não conseguimos alterar de uma vez por todas o sistema de ensino, que o MED sirva de motor de arranque para a discussão deste tema, como força mobilizadora de alunos e alunas e que dê a cara pelo descontentamento que, até agora, só se fazia sentir nas redes sociais durante a época de estudo para os exames nacionais.

No início de 2017, organizámos um debate no Liceu Camões, em Lisboa, onde foi discutido o programa do movimento e o sistema de ensino. Apontámos os erros e procurámos as respostas. Não nos vale de nada reclamar se não tivermos uma boa base de propostas que possam servir de alternativa, ou caímos no erro de a nossa luta sair descredibilizada. Quanto ao movimento de alunos que surgiu em junho deste mesmo ano com o nome “#EscolaSemHomofobia”, criado para fazer frente ao episódio de homofobia protagonizado pela direção da Escola Secundária de Vagos, apoiámos esta luta e colaborámos com toda a gente para a organização do dia de protesto que ocorreu em diversas escolas secundárias por todo o país e na manifestação de dia 6 de junho, em Lisboa, em frente ao Ministério da Educação — protestos que, felizmente, foram repercutidos noutros pontos distantes do país, por várias organizações e associações que contactaram connosco. Fomos recebidos por dois membros do Ministério que nos ouviram e, numa perspetiva mais positiva, comunicaram “lá para cima”, tendo sido estas as suas palavras — não tendo especificado se para cima na hierarquia ou para cima no edifício, mas há que ter esperança. Aproveitámos para desabafar aquilo que nos oprimia, sempre com o enorme e gratificante peso de estarmos ali para realizar a catedral tarefa de expressar a voz de toda a gente que se sente oprimida pelo status quo do sistema educativo português. Expressámos a nossa tristeza e repulsa face à atitude da direção da secundária de Vagos e, na procura de respostas, salientámos a falta de um combate prático ao bullying. Tem havido muita conversa e pouca ação. Este combate deve passar dos cartazes que apenas nos transmitem frases feitas como “o bullying é mau”, a uma maior atenção por parte de toda a comunidade educativa, porque só quem já sofreu nas mãos dos bullies sabe que não nos vale de nada fazer queixa a ninguém, muito menos quando temos professores que viram a cara quando se encontram frente a frente com uma situação destas ou até com uma direção que veste ela própria o papel de agressor. Tratar do bullying será meio caminho andado para tratar do bullying homofóbico.

Protesto em frente ao Ministério da Educação, em Lisboa, contra a homofobia da direcção da Escola Secundária de Vagos

A Escola é o nosso futuro e o espelho daquilo que seremos até lá. Mas não nos enganemos. A Escola é também o espelho daquilo que somos agora. É o espelho da sociedade em que está inserida e tubo de ensaio para o futuro dessa mesma sociedade.

Geralmente, a natureza de algo não se dita a partir do seu uso continuado e repetido, mas a partir daquilo que a faz quebrar. E nós sabemos que o sistema está a quebrar. Aliás, que o digam todas e todos os alunos que tiram uma nota nos Exames Nacionais que corresponde a quatro valores abaixo daquilo que sempre fizeram durante três anos e que, por isso, não acedem sequer ao ensino superior público e até ao ensino superior por não conseguirem acompanhar economicamente os preços exorbitantes que, de forma ridícula, vão sendo cada vez mais normalizados como necessários para aceder ao conhecimento. Que o diga toda a gente que acorda todos os dias às seis da manhã, sem forças, sem energia, com esgotamentos nervosos e constantemente à beira de um ataque de ansiedade, para se sentar numa sala de aula onde não se sente mais que um número. Que o digam todos os alunos e alunas de cursos profissionais que passam o verão a trabalhar em estágios não remunerados. Ou que o digam os professores e professoras que todos os dias entram na sala de aula nestas mesmas condições, com um programa que só eles e os alunos sabem ser impossível de ensinar, aprender e avaliar à imagem daquilo que os corredores e escritórios do Ministério julgam ser o mais pedagógico.

A Escola volta a ser o espelho da sociedade em que vivemos quando observamos a sua cuidadosa transformação numa empresa, numa fábrica que peneira os seus alunos, num ato de total desconsideração pelo indivíduo, selecionando aqueles que julga estarem aptos para seguir com a apreensão de conhecimento num estabelecimento de ensino superior. Aqueles que julga estarem aptos para seguir para o mercado de trabalho e aqueles que não devem ir para nenhum dos dois, num conjunto de critérios face aos quais devemos ter uma atitude crítica de constante dúvida e questionamento, tal é o lodo de onde saem. Volta a ser uma empresa quando é gerida como tal e quando a falta de democracia é tanta, que, imagine-se, as auxiliares de educação são “aconselhadas” a não fazer greve ou quando os alunos são proibidos pela direção de se reunirem em reuniões gerais de alunos (RGA). Estamos a encarar todos estes acontecimentos de ânimo leve, e esse é o nosso principal erro. Temos o direito e o dever de nos insurgirmos contra o status quo e de nos organizarmos, alunos com alunos, professores com professores, auxiliares com auxiliares e alunos com professores e auxiliares. Toda a comunidade educativa. Cada vez que apresentamos propostas ao atual sistema de ensino, estas são refutadas com o argumento mais básico de todos: o “não sejam parvos, isto nunca funcionaria”. Será que o que temos agora em prática funciona mesmo?

Protesto de estudantes na Escola Básica e Secundária José Relvas, em Alpiarça, contra a falta de condições das instalações

Chegou a hora nos juntarmos para pensar e criar alternativas. Em todos os debates aos quais já assisti e que tratavam a construção destas alternativas, ninguém referiu modelos educativos em que os alunos voem, ou consigam morder o próprio cotovelo. Pensamos em alternativas reais e possíveis de concretizar. Só falta a vontade e a praxis para as levar avante.

Entre muitas conversas e debates, organizámos um conjunto de propostas, pensadas por diversos alunos e alunas, professores e professoras, mães e pais e ainda diversas pessoas que já não têm qualquer ligação física ao ensino básico e secundário, propostas essas que passo a expor:

  • Descentralização da avaliação nos Exames Nacionais; Democratização do espaço escolar, da gestão das escolas e do sistema de ensino;
  • Maior preocupação com os elementos da comunidade educativa, que devem ser vistos e tidos em conta como indivíduos e pessoas, e não como números (como muitos sentem que são tratados);
  • método de ensino que una os alunos, colocando-os constantemente alertados e preocupados com o próximo, e que sejam capazes de o ajudar a crescer, num sistema de progressão de carácter, onde cada um possa trabalhar os pontos fortes e fracos do outro, enquanto trabalha os seus;
  • Permitir uma maior flexibilidade nos módulos, de modo a que os professores não se sintam sobrecarregados e possam ensinar os seus alunos da forma mais pedagogicamente saudável que encontrem;
  • Alteração da narrativa dos Descobrimentos portugueses e da forma como estes são apresentados aos alunos; Maior valorização e inclusão das culturas ditas minoritárias;
  • Que o Ministério recupere a Educação Sexual, com programa completo e que, dentro da disciplina, seja crucial normalizar as relações afetivas e sexuais tanto heterossexuais como não heterossexuais, com aulas menos hetero-normativas e mais campanhas anti-homofobia nas escolas.

Temos que agir e desafiar aqueles a quem temos confiado tão religiosamente o nosso futuro, e que nos calam sempre que apresentamos propostas alternativas, dizendo que não são viáveis e que são utópicas. E se forem utópicas? A Utopia faz-se de quem a faz todos os dias. A Utopia é o caminho para o fim que ela própria representa. E não temos que ter medo de nos levantarmos para partir na sua construção. No momento da escrita deste texto, já deixei de estudar no ensino secundário, mas nunca vou virar costas a qualquer luta estudantil com o já gasto argumento “Já vou para a Universidade, já fiz os meus Exames Nacionais, já estou safa. Safem-se vocês também”. Esta é uma luta que tem que ser feita por qualquer pessoa que se diga orgulhosamente utópica e que todos os dias construa um pedacinho dessa Utopia. Apelo à organização de toda a comunidade educativa. Pressionem quem tem o nosso destino nas mãos.

Associações de Estudantes: vocês têm muito mais poder e força do que aquilo em que vos fazem acreditar. Vocês não têm que ser meras comissões de festas e organizar unicamente os bailes de finalistas. Juntem-se, conversem, debatam, organizem-se e saiam às ruas se for preciso. É verdade que sozinhos vamos mais rápido, mas juntos podemos ir mais longe. Que venham mais movimentos estudantis para abalar o sistema. Chegou a hora de assumirmos uma posição de crítica e de questionamento do status quo, mas também de combate político. A mudança é possível, mas só se fizermos por ela e se nós não a fizermos, quem fará?

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